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Alfaiates enchem praças do Huambo

Marcelino Dumbo | Huambo

Ser alfaiate é uma profissão antiga que já foi respeitada. A profissão era exercida, normalmente, por pessoas conhecedoras da arte. Era uma profissão respeitada e solicitada por famílias, pessoas singulares, tanto quanto acontecia com carpinteiros e sapateiros.

Trabalho de corte e costura está em expansão no Huambo e dá sustento a muitas famílias
Fotografia: Francisco Lopes

Ser alfaiate é uma profissão antiga que já foi respeitada. A profissão era exercida, normalmente, por pessoas conhecedoras da arte. Era uma profissão respeitada e solicitada por famílias, pessoas singulares, tanto quanto acontecia com carpinteiros e sapateiros. Porém, actualmente já não têm muita aceitação no mercado de emprego.
Mas apesar de terem perdido protagonismo, já que a maioria prefere roupas pronto-a-vestir, o ofício volta a ganhar espaço e a servir como fonte de subsistência de muitas famílias.
Na cidade do Huambo, a actividade está também a ganhar força e a expandir-se, sobretudo nos principais mercados, pracinhas e até residências familiares.
À semelhança dos sapateiros, é uma profissão exercida maioritariamente por pessoas com idades entre 35 e 60 anos. Os jovens não abraçam a arte, considerando que é para velhos e não rentável.
Nos mercados principais da Quissala, mais conhecido por “Alemanha”, Kapango, no bairro São Luís, Cambiote, Cacilhas e outras pracinhas das artérias da cidade do Huambo e arredores, surgem pequenos núcleos de pessoas organizadas a exercer a actividade de alfaiate, modista e mesmo de sapateiro. Consertam roupas usadas, sapatos de clientes, que para lá se dirigem à procura dos seus serviços.
Os profissionais mais velhos continuam optimistas, dizem que não têm outra ocupação, por isso precisam de roupa de pessoas para coser e ganhar dinheiro. Para isso, inventam espaços, nos principais mercados e pracinhas, pequenas barracas e, organizados em grupos de dois a cinco pessoas, exercem a sua profissão. O preço do conserto nunca passa de 30 ou 50 kwanzas, por peça, costuras que não gastam menos de trinta minutos.

À falta de melhor

Cidadãos abordados pelo Jornal de Angola dizem que, enquanto não aparecer outra actividade melhor, preferem continuar, para suprir algumas dificuldades nos lares. O responsável da alfaiataria “Confecções Camosso”, Frederico Coelho Camosso, diz que começou a trabalhar na profissão aos 13 anos, em 1961, e exerceu sempre a actividade. “Esta foi sempre a minha profissão e sinto-me orgulhoso da mesma, porque gosto do que faço”, afirma. Camosso acrescenta que, apesar disso, há muitas pessoas que não dão valor ao seu trabalho, acham que a melhor roupa é a que chega já feita da fábrica.

Aprender a coser tudo

Uma obra grande, como fatos e vestidos, custa 6.000 kwanzas cada, seja para senhora ou homem e, para a sua confecção, os alfaiates levam de um a dois dias.
Camosso faz quatro fatos por semana e diz que estas são as roupas menos solicitadas pelos clientes. Normalmente tem-se limitado mais a coser roupas usadas, ou “fardo”.
Martinho Troco, de 56 anos de idade, residente no bairro do Bom Pastor, diz que aprendeu a costurar roupas com o seu tio, em 1967.Trabalha de segunda a sábado, tudo para o sustento familiar, que inclui netos que já estão na idade escolar.
“Com a minha idade, não espero ganhar algum dia outro trabalho, prefiro continuar, enquanto posso dar pedaladas na máquina, porque é a profissão que sempre me manteve firme, apesar de não proporcionar grandes ganhos. Dá para sobreviver e levar uma vida digna”, diz Martinho Troco.
Francisco Chissapa, que exerce a actividade há 44 anos, assegura que ser alfaiate nos dias de hoje é mesmo difícil. E diz que o que se ganha só chega para comer e vestir, não chega para adquirir uma motorizada, devido aos preços a que são comercializadas. Manuel Pascoal Tchibulundango, por circunstância da via, viu-se forçado a trabalhar por conta própria como costureiro, a partir de 1985, em casa e praças, para auxiliar a mãe na aquisição de mantimentos, material escolar para os irmãos mais novos.
O jovem Mateus António Tomás José, de 28 anos, residente no bairro da Calomanda, sentiu-se também obrigado a abraçar a actividade. Há 16 anos que exerce a profissão, por falta de emprego para aguentar a esposa e seus dois filhos. Mateus está a aperfeiçoar a costura na alfaiataria “Camosso” e diz que o que ganha, apesar de ser pouco, serve para ajudar a mãe, que se dedica apenas a pequenos negócios, para a sobrevivência dela e dos irmãos.
Na ronda pelos principais mercados e praças e algumas casas de confecções, os alfaiates e costureiros apontam a falta de material, como máquinas, agulhas, linhas e tecidos, como as principais dificuldades do mercado para garantir a qualidade dos seus trabalhos.
Os entrevistados relataram que têm sido frequentes os conflitos com clientes, principalmente quando as roupas demoram muito tempo a acabar, por falta de tempo dos profissionais ou quando as roupas ficam muito tempo nos locais sem que os donos as levantem.
O famoso “youki”, “cintura baixa”, “alta”, “barriguinha”, “boca-de-sino”, são estilos muito solicitadas actualmente, dependendo do gosto de cada um, como é óbvio.
Edmara Sandavimbu, uma das clientes que acabava de levantar a sua obra, numa das secções dos costureiros, da praça da “Alemanha”, disse-nos que pagou pelo concerto de cinco peças de roupa 300 kwanzas. Ela prefere esses locais porque ali prestam “serviços imediatos e a preços baixos”. Apesar de haver na cidade do Huambo algumas casas que fazem o mesmo trabalho, “muitos clientes preferem as praças”, porque muitas das casas da cidade não conseguem honrar os seus compromissos nos prazos combinados com os fregueses. Edmara diz que nunca lhe passou pela cabeça ser costureira, pelo facto de ser uma profissão “pouco rentável”. Ela gosta mais de ser professor.
 Mas Benjamin Simão já se interessou pela profissão. Quando deixava as suas roupas para ao alfaite e  foi interpelado pela reportagem do Jornal de Angola, eBenjamim disse que para isso precisa de aprender com o avó, que também é alfaiate.

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