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As lavadeiras do Calombula

Adolfo Mundombe | Huambo

Muitas mulheres do Huambo sustentam as suas famílias a lavar roupa. Na cidade, todos os dias são vistas mulheres com bebés às costas e grandes trouxas de roupa à cabeça. Vão a caminho da Estufa-Fria onde lavam a roupa na nascente do rio Calombula. Elas são o único sinal de vida num espaço de lazer que já foi muito concorrido, sobretudo por estudantes e pares de namorados.

Muitas mulheres na província do Huambo sustentam as suas famílias a lavar roupa
Fotografia: Francisco Lopes

Muitas mulheres sustentam as suas famílias a lavar roupa. Na cidade do Huambo, todos os dias são vistas mulheres com bebés às costas, a lavarem roupa na estufa-fria.
Durante anos a estufa-fria era uma zona de lazer e ponto de encontro dos namorados. A beleza e a calma do lugar eram propícias à reflexão de pesquisadores, estudantes, sábios, poetas e estudiosos.
O rio Calombula, que corta a cidade Baixa do Huambo, nasce na estufa-fria.
As lavadeiras percorrem longas distâncias com as trouxas à cabeça, não têm horário mas levantam-se ainda de madrugada. Descem dos bairros periféricos para a estufa-fria e na fonte do rio lavam as peças de roupa entregues pelas patroas.  As lavadeiras que não têm clientes certas, andam de casa em casa, à procura de quem lhes dê roupa para lavar.  Luciana Tchissanda, lavadeira desde 1984, disse que tem cinco filhos e trabalha em casa de um dos seus familiares, onde lhe pagam por dia 500.00 kwanzas.
Luciana Tchisanda diz que é possível conciliar o trabalho de lavadeira com o trabalho em casa e fazer o acompanhamento dos filhos nos estudos: “Com o que ganho, consigo pagar as propinas dos meus três filhos e fazer face às principais despesas da casa”.
 Arminda Natchilepa, lavadeira, afirma que faz este trabalho com muito sacrifício mas com o dinheiro que ganha consegue comprar o que falta em casa, apesar de muitas vezes as patroas lhe pagarem com atraso.
Arminda Natchilepa disse que as lavadeiras trabalham durante o dia e não têm direito ao almoço e em caso de doença não são apoiadas pelas patroas. Maria de Fátima mora no bairro Macolocolo, arredores da cidade do Huambo, e é lavadeira desde 2003, altura em que foi contratada pela actual patroa. Tem um ordenado fixo de 10 mil kwanzas por mês e tem direito ao pequeno-almoço, e almoço. Não se queixa de nada: “com os dez mil kwanzas pago as propinas dos meus filhos, compro material escolar e sustento o lar.” Eunice Tchilombo é viúva e começou a trabalhar como lavadeira desde que perdeu o marido, em 1999. Trabalha de manhã à noite para sustentar os sete filhos. Ela recebe sete mil kwanzas por mês: “é difícil sustentá-los e satisfazer todas as suas necessidades”.
Eunice Tchilombo diz que faz muito sacrifício para transportar bacias de roupa molhada à cabeça e percorrer longas distâncias.  Adriana Pereira Lusinga, professora, tem uma lavadeira há sete anos. Diz que sem ela, não era possível ajudar os seus sete filhos e três netos. Josefina Tchiteculo, funcionária pública, disse à nossa reportagem que já despediu duas lavadeiras: “elas apanhavam bebedeiras e exigiam coisas impossíveis”.
As mulheres que fazem o trabalho de lavar roupa normalmente são idosas ou mulheres que têm de sustentar os filhos sozinhas.
Margarida Tchissola tem uma lavadeira: “devo-lhe muito, porque tenho que me levantar cedo, vou para o trabalho e regresso a casa muito tarde, todos os dias, durante a semana”.
As lavadeiras do Huambo vão à fonte da estufa-fria, lavam a roupa com cuidado e quando está seca engomam as peças muito bem para ficarem como novas.

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