Províncias

Casa dos Rapazes reabre as portas

Estácio Camassete | Huambo

A Casa dos Rapazes do Huambo reabriu as portas às crianças órfãs e abandonadas, 17 anos depois do seu encerramento. O padre Adriano Carlos Katyavala assegura que a instituição pode voltar a desempenhar o papel para que foi criada.

A Escola de Artes e Ofícios e outras instalações conexas da Casa dos Rapazes precisam de apoio urgente para a sua reabilitação
Fotografia: Francisco Lopes

A Casa dos Rapazes do Huambo voltou a abrir as portas às crianças órfãs ou abandonadas, 17 anos depois do seu encerramento. O padre Adriano Carlos Katyavala assegura que a instituição pode voltar a desempenhar o papel para que foi criada, que é dar apoio material e espiritual às crianças com o apoio da sociedade e do Governo.
A instituição encerrou as portas em 1992, quando a UNITA regressou à guerra depois de perder as eleições. As tropas de Savimbi reduziram a escombros as instalações da Casa dos Rapazes. A sua reabilitação começou em 2002, através de um protocolo celebrado entre a Igreja Católica e a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).
O padre Katyavala, responsável da Casa dos Rapazes, revelou que numa primeira fase foi reabilitada a área residencial. A reabertura do lar foi em Fevereiro de 2009, com um grupo de 35 meninos, vindos do Lar dos Pequeninos, das Irmãs do Santíssimo Salvador, depois de terem atingido os dez anos. Foram também acolhidas crianças órfãs abandonadas pelas famílias e que viviam nas ruas.
A Casa dos Rapazes acolhe crianças dos 10 aos 15 anos, com um nível de escolaridade que vai da 1ª à 7ª classes. O padre Katyavala afirma que as crianças apresentam um atraso no desenvolvimento intelectual, o que pode estar relacionado com o meio onde nasceram ou se criaram.
“Temos crianças com um coeficiente de inteligência muito baixo, o que deve estar relacionado com o meio onde nasceram e os problemas que enfrentam no dia-a-dia. Muitas crianças, que deviam frequentar a 4ªclasse, ainda estudam a 2ªclasse”, lamentou o padre Katyavala.
Os jovens têm o direito de permanecer no lar até conseguirem o seu sustento e a inserção na sociedade. Tudo depende da sua capacidade de integração. “Não podemos largar as crianças para uma vida independente, enquanto não tivermos a certeza de que podem enquadrar-se na sociedade, conseguindo meios para o seu sustento”, realçou.
O padre Katyavala acrescentou que este ano, a direcção do lar decidiu reduzir o número de crianças para 23, as restantes ficam em regime de estudantes externos. “O lar tem muitas dificuldades e as crianças olham sempre para o mais velho como a pessoa que resolve os seus problemas, mas nem sempre há possibilidades financeiras para satisfazer as suas necessidades”, disse o responsável da Casa dos Rapazes.
 
Muitas dificuldades
 
O lar, de acordo com o padre Katyavala, vive da caridade. Não tem orçamento mensal, nem pode fornecer artigos como roupas e outros bens. O lar precisa que o Estado lhe atribua o estatuto de instituição de utilidade pública, na medida em que o que faz é um serviço público.
O lar necessita de meios de transporte para facilitar as deslocações ou para passeios com os meninos. O padre Katyavala clama também por um posto de saúde, considerando que em muitos casos as crianças são levadas ao hospital por “kupapatas” ou outros meios cedidos por benfeitores. “Há necessidade de  diversão e muitas vezes as crianças precisam de passear, conhecerem espaços históricos e de lazer da cidade, ou realizarem outras actividades aos fins-de-semana e uma viatura era muito útil”, assinalou.
O responsável da Casa dos Rapazes acredita que a vida daqueles meninos vai melhorar com o tempo, porque a “casa” reabriu em condições difíceis mas aos poucos vai superando as dificuldades encontradas pelo caminho. Às pessoas de boa fé, o padre pede que prestem o seu apoio ao lar, sobretudo em transportes e cuidados de saúde. “Pelo número de crianças acolhidas, precisamos de uma pequena farmácia e um técnico de saúde para acudir às várias situações de emergência”, acrescentou.
 
Formação profissional
 
Desde a sua fundação, a Casa dos Rapazes do Huambo teve sempre uma componente de formação profissional das crianças e adolescentes. Além de ser centro de acolhimento ou internato, foi também no passado uma casa de formação profissional, para facilitar a futura integração dos jovens na sociedade.
Por isso, é preocupação da direcção do centro continuar a oferecer esta possibilidade aos internados. Para tal, é preciso reabilitar a escola de artes e ofícios que antes dava cursos de marcenaria, carpintaria, mecânica, serralharia e música.
As crianças começavam a estudar na escola primária do lar e depois eram encaminhadas para outros institutos, de acordo com as suas habilidades, em simultâneo com a formação profissional. Actualmente as crianças estudam da 1ª à 7ªclasse, sem uma definição profissional.
No centro só está em funcionamento a área de mecânica. Antigamente, o lar tinha, além da escola de artes e ofícios, uma padaria e uma gráfica. Hoje, as oficinas estão em escombros e nas outras áreas funcionam o Seminário Médio Propedêutico, área reservada à Caritas de Angola, uma padaria e o Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA), da Arquidiocese do Huambo.
O complexo da Casa dos Rapazes, além de ter as áreas profissionais, tem também um campo de futebol e um pavilhão desportivo para futebol salão e basquetebol. Segundo o seu responsável, o lar tem um regulamento interno que obriga à prática de desporto.
Apesar de haver espaços suficientes para a prática de desporto no lar, só o futebol é que se está a massificar por falta de condições para as outras modalidades.
 
Dados históricos
 
A Casa dos Rapazes do Huambo foi fundada em 1955 pelo padre António Manuel Ferreira, de nacionalidade portuguesa, para alojar crianças órfãs ou abandonadas.
O primeiro núcleo de rapazes recolhido pelo missionário era constituído por seis meninos do município da Caála, onde começou com o projecto. Depois foi transferido para o actual lugar, uma antiga fazenda que o padre António Manuel Ferreira comprou.
O projecto ganhou força na década de 60 e o número de rapazes foi crescendo cada vez mais. Pela “Casa dos Rapazes” passaram muitos estudantes. Era o maior lar da época em Angola, com capacidade para albergar 120 jovens, divididos em dois dormitórios.
O padre Adriano Katyavala fez referência de alguns nomes de antigos estudantes do lar, como o do actual director-geral do Porto do Lobito, o director provincial da Educação de Benguela, o jornalista e deputado Luís Domingos e tantas outras figuras, que ocupam hoje lugares de destaque na sociedade angolana.
Adriano Katyavala apela a todas pessoas de boa fé e organizações filantrópicas para darem uma mão caridosa à Casa dos Rapazes, para que o projecto continue avante e mais jovens encontrem ali também um lugar para a preparação do seu futuro.
O padre Katyavala disse, a concluir, que faz fé que o apelo lançado vai fazer eco, porque Angola tem um povo solidário  que sabe partilhar o que tem com os mais necessitados. 
 

 
 
 

 

Tempo

Multimédia