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Coveiros defendem mais respeito e valorização

Azevedo Faria | Huambo

Coveiros no Huambo defendem mais valorização da actividade que desempenham, que, segundo eles, exige coragem e muito amor.

Hilário Francisco, 61 anos, dos quais 30 como coveiro no Cemitério Municipal de São Pedro, na cidade do Huambo, diz que as dificuldades começam pelos baixíssimos salários que auferem e vão até à falta de condições de trabalho e de outras que possam ajudar a desenvolver a actividade.
Pai de nove filhos, Hilário Francisco mostra-se esperançado em dias melhores, tendo em conta que muitas vezes excedem o horário normal de oito horas e há dias em que ele e os seus companheiros de trabalho são obrigados a passar a noite no cemitério.
“Nos dias de muito trabalho, principalmente aos sábados e terças-feiras, a pressão é maior, quase que não há tempo para descansar”, desabafa Hilário Francisco, acrescentando que estão distribuídos em grupos de quatro elementos cada, mas, devido à escassez de coveiros, existem grupos com apenas dois elementos.
“Pedimos à administração do cemitério para procurar mais coveiros para responder à demanda e diminuir a pressão sobre os poucos que aqui trabalham, para que os funerais não demorem, porque a hora de muitos deles coincide e não conseguimos atender todos."
O chefe de secção dos Espaços Verdes e Saneamento Público (ex-serviços comunitários) da Administração Municipal do Huambo, Leonardo Chilindo Pompeu, diz conhecer as preocupações dos coveiros da região, que já foram encaminhadas às autoridades provinciais, para a sua resolução o mais rápido possível.
O coveiro, acrescentou, garante também a organização dos cemitérios, a limpeza das covas e jazigos, cava e cobre sepulturas, carrega caixões e realiza exumações, entre outras funções, e sem eles a vida dos que perdem ente-queridos seria ainda mais dura.
Segundo o padre Francisco Chimuco, há aproximadamente dois milénios, o acto de despedir-se de alguém que faleceu envolve, invariavelmente, a deposição do corpo em algum lugar, o que faz do ofício do sepultador um dos mais antigos da humanidade.
Porém, ainda hoje,  asseverou o prelado, esse profissional luta por reconhecimento, a começar pela mudança do próprio nome de coveiro, que passa para sepultador ou agente de apoio, pois o termo coveiro cria preconceito quanto à profissão, que é tão digna quanto às demais.
Para o psicólogo Malongi Bunga, estes homens devem ser bem acompanhados e a cada dois ou três meses devem ser submetidos a exames ou testes com psicólogos e médicos de outras especialidades, para saber do seu estado de saúde.
Socialmente, acrescentou, o sepultador é um indivíduo mal visto, ele sofre de discriminação, porque poucas famílias valorizam esta profissão, apesar de não medirem esforços nos seus afazeres.
“O mercado para o coveiro é amplo e vai continuar assim, pois esse tipo de trabalho será sempre necessário”, sublinhou.
Os professores Abel José Wongombo e Avelino José Camoço, ouvidos pela reportagem do Jornal de Angola, também  reconhecem a importância que os sepultadores têm num cemitério, mas lamentam o facto de até hoje não serem devidamente valorizados.
O administrador do Cemitério Municipal do Huambo, Armando Pinto, disse que não existe formação específica para se ser coveiro, mas defende que o profissional participe em acções formativas, para se destacar na sua área de actividade.
Segundo Armando Pinto, a Administração Municipal tem levado a cabo alguns seminários de capacitação, que resultam da necessidade de dotar os coveiros de princípios éticos e morais.
“Nós queremos que os coveiros saibam como lidar com as famílias enlutadas, muní-los de princípios de relações públicas, para saberem como lidar com o público que acorre àquele local, que é sinónimo de tristeza e dor”, disse.

Projectos

A Administração Municipal do Huambo tem vários projectos em carteira e, de acordo com o responsável dos espaços verdes e saneamento, Leonardo Pompeu, começa em breve a reabilitação das vias de acesso aos cemitérios, dos muros de vedação e a construção de uma capela para velórios, com vista a facilitar a vida dos munícipes que perdem ente-queridos, principalmente os que moram nos prédios.
Segundo Leonardo Pompeu, a Administração Municipal do Huambo tem identificados três locais para substituir o Cemitério Municipal de São Pedro, que, apesar de ser fundado na era colonial, ainda tem três talhões para fazer o processo de sepultamento de corpos.
Das áreas identificadas para substituir o Cemitério Municipal de São Pedro, acrescentou o responsável dos espaços verdes e saneamento,  a do Jongolo, na comuna de Xavier Samacau, é a mais apontada, devido a sua fácil localização.
Fundado na época colonial, em Maio de 1903, o Cemitério de São Pedro localiza-se no bairro com o mesmo nome e possui 25 hectares, divididos em talhões bem assinalados e datados com etiquetas, conforme recomendam os estatutos da arquitectura funerária.

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