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"Escreve aí que o nosso problema é a falta de medicamentos"

No centro do Bailundo, no perímetro da “Casa Branca” que acolheu Savimbi durante a guerra, está a casa da autoridade tradicional máxima do Bailundo, Ekwikwi III, um homem com 94 anos mas lúcido e bem-humorado. Ele fala português mas só responde às perguntas em umbundu. Quando soube que ia dar uma entrevista ao Jornal de Angola sorriu e disse que aceitava dar a entrevista: “mas não falo de mim, só falo do povo”.

Ekwikwi III é leitor assíduo do Jornal de Angola e pediu à nossa reportagem para darmos mais notícias dos ganhos da paz
Fotografia: Rogério Tuti

No centro do Bailundo, no perímetro da “Casa Branca” que acolheu Savimbi durante a guerra, está a casa da autoridade tradicional máxima do Bailundo, Ekwikwi III, um homem com 94 anos mas lúcido e bem-humorado. Ele fala português mas só responde às perguntas em umbundu. Quando soube que ia dar uma entrevista ao Jornal de Angola sorriu e disse que aceitava dar a entrevista: “mas não falo de mim, só falo do povo”.

Jornal de Angola – A paz continua no coração do povo?

Rei Ekwikwi - Antes de responder quero saber quem és. Eu não desconfio de ninguém, mas há muitos que chegam aqui para roubar o nome do rei. E as perguntas têm de ser feitas na minha língua: quem fala comigo?

(Idalina Felisberto, uma jovem do Catchiungo, explicou que estava ali para servir de intérprete e explicou pormenorizadamente o que desejava a equipa de reportagem do Jornal de Angola).

RE - A paz está no coração do povo e estamos todos muito bem. Nada perturba as pessoas. Se houvesse algum problema o povo vinha ter comigo e falava. Ainda bem que ninguém me procura, quer dizer que está tudo bem.

JA - Os jovens dizem que não têm uma escola superior nem empregos…

RE - Nunca ninguém veio aqui dizer-me isso. Se os jovens reclamam tens de ir falar com eles. Se estão calados e não de dizem nada é porque consentem. Eu nada sei sobre isso. Apenas posso falar do que sei e das queixas que recebo.

JA - E quais são as queixas do povo?

RE - Escreve aí que o nosso problema é a falta de medicamentos. O nosso povo é pobre, não pode ir comprar os remédios às farmácias privadas porque não tem dinheiro. Os doentes vão ao Hospital do Bailundo, são bem atendidos pelos médicos, recebem as receitas mas depois ninguém lhes dá os medicamentos. Como o camarada Presidente lê o Jornal de Angola escreve aí que precisamos de medicamentos no Bailundo.

JA - Para o rei há medicamentos?

RE - Não falo de mim, só falo do meu povo. Mas posso dizer-te que adoeci e tive de ir para o Huambo. Só lá me deram medicamentos que me tiraram as dores no peito e no pescoço. Mas o povo diz-me que se sente muito bem. Só faltam os medicamentos.

JA - A água corre nas torneiras do Bailundo?

RE - Nada. Aqui na minha casa consumo água da cacimba. O Bailundo não tem água nas torneiras. Até estamos a pensar ir buscá-la ao rio Culéle através de uma conduta. É longe, mas temos de resolver o problema da água.

JA - O Bailundo tem luz?

RE - A luz está muito bem. À noite está tudo aceso. Têm de fazer o mesmo trabalho com a água. As pessoas que me procuram elogiam o trabalho da administração porque está a garantir distribuição de energia.

JA -Ainda há problemas de fome e pobreza?

RE - A fome acabou, agora todos cultivam as lavras. Quando se cultiva há comida em abundância. O problema é quando não é possível semear para colher. Mas em todo o mundo há o tempo da fome. Nós aqui no Bailundo temos o nosso tempo da fome: é nos meses de Novembro e Dezembro. Se vier a fome nesse tempo, não adiante chorar.

JA - Há escolas para todas as crianças da região?

RE - No Bailundo as crianças vão à escola, é essa a informação que tenho. Até agora ninguém me veio dizer que ainda há crianças sem escolas. Não posso confirmar se há crianças fora do sistema de ensino. O rei só pode falar do que sabe.

JA - Esteve na Assembleia Nacional,  está satisfeito com a situação política?

RE - Estou satisfeito porque temos uma Constituição da República e o Executivo é apoiado por partido com larga maioria. Todos sabemos que ainda precisamos de muitas coisas, mas aqui no Bailundo estamos todos satisfeitos porque conquistámos a paz. E é preciso explicar aos jovens e às pessoas que não aprendem bem as lições que a paz é o mais importante das nossas vidas. A paz é o essencial.

JA - Está preocupado com a perda de valores?

RE - Os angolanos devem reconhecer as suas raízes culturais, se o fizerem os valores não desaparecem. Eu quero o bem de todos e gostava que toda a gente fosse capaz de analisar o que tem na consciência. Sobre a perda dos valores morais não quero falar porque o povo vai dizer que andei a fazer queixa dele no Jornal de Angola.

JA - Aqui no Bailundo há respeito pelos mais velhos?

RE - Só posso dizer que quem não é capaz de respeitar os mais velhos está fora de época e de tudo. Devem mudar os seus comportamentos, mas se não quiserem mudar, que fiquem na época deles, fora do progresso. Mas a responsabilidade é dos adultos que não ensinam as crianças a respeitar os mais velhos.

JA - As colheitas vão ser abundantes?

RE - Vamos ter muita comida e há milho para vender. É um bom ano de colheitas, espero que continue sempre assim porque o povo já sofreu muito e agora merece viver em paz e com abundância.

JA - Que mensagem gostava de enviar aos angolanos?

RE - Antes de dizer o que quero transmitir ao nosso povo devo dizer-te que afinal vocês não são ladrões do nome do rei, são pessoas com juízo e o rei agradece esta oportunidade de falar aos angolanos através das páginas do Jornal de Angola. Eu aprendi a economizar as palavras, por isso quero dizer aos nossos compatriotas para não ouvirem os mentirosos, nunca mais. Porque só a falar verdade podemos seguir em frente”.

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