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Esperança renasce na comuna da Catata

Marcelino Dumbo |Catata

A esperança está a renascer na comuna da Catata, município da Caála. Várias infra-estruturas sociais, entre residências oficiais, habitações para os quadros e casas comerciais estão a ser erguidas na localidade, conferindo uma nova dinâmica à vida dos seus habitantes.

Vários poços foram abertos na comuna para abastecer as populações de água potável
Fotografia: Mota Ambrósio

Situada 103 quilómetros a sul da cidade do Huambo, a comuna da Catata é a produtora de alimentos, por excelência, na região, desde tempos idos, e com o regresso da paz pôde recuperar os níveis produtivos e contribuir significativamente para a redução da fome na província do Huambo.
O administrador da comuna, Simão Tchinduva, disse que, aos poucos, o quadro está a mudar na sua área de jurisdição. Uma nova instalação administrativa está a ser construída, assim como uma residência para o administrador e habitações para quadros das áreas da saúde, educação, agricultura, comércio, e outros de interesse público.
Simão Tchinduva reconhece que pelo esforço que está a ser desenvolvido pelo governo da província na recuperação de infra-estruturas, num curto espaço de tempo os habitantes da comuna da Catata vão gozar de uma vida condigna.
As vias de acesso e comunicação e as principais pontes estão também a ser reabilitadas para permitir uma melhor mobilidade e facilitar a troca comercial entre habitantes das diferentes localidades e aldeias da região.
O administrador defendeu a necessidade de se fomentar o crédito aos jovens, mulheres e produtores locais, para que possam desenvolver os seus negócios, no sentido de se massificar o comércio rural e convidou os investidores que queiram implementar os seus projectos na circunscrição, para gerar mais emprego para os residentes. Pediu ainda um maior dinamismo na execução das obras em curso na comuna, principalmente as de construção, que neste momento apresentam algumas dificuldades para o seu acabamento. Na sede da comuna estão a ser recuperados o armazém do IDA, o Clube Recreativo, o interposto de quarentena para o gado em trânsito, vindo da província vizinha da Huíla.
“Tendo em conta o crescimento do nível de delinquência na comuna, pedimos o reforço de mais agentes policiais, com maior destaque para os reguladores de trânsito, para dar cobro ao movimento rodoviário na Catata”, sublinhou.
Geograficamente, a comuna da Catata está confinada entre a comuna da Calema, os rios Kanhangue, Calai e Casseco, a norte, a sul faz fronteira com a província da Huila e acompanha os rios de Tchile e Halunga, a este com a comuna do Cuíma, no percurso do rio Kalai, e a oeste com a comuna do Cusse, no percurso do rio Kuvango, na Huíla.
A Catata tem uma população estimada em 21.125 habitantes, maioritariamente agrícola e dedicando-se ao cultivo de batata rena e doce, ginguba, soja, milho, feijão, hortaliças e à criação de gado de pequeno e grande porte.

Saúde precisa de técnicos

A comuna da Catata tem um centro  de saúde sem capacidade para internar doentes, já que possui uma cama somente para pacientes em estado muito crítico. Funciona apenas com nove técnicos, entre enfermeiros e auxiliares, e controla dois postos de saúde nas aldeias de  Gimbo e Sakalinga.
O responsável  interino do centro da sede, Júlio Hilário, disse que a unidade sanitária precisa de técnicos, um laboratório clínico para análises  e de  um novo centro que venha  garantir o sistema de internamento de doentes.
Entre Janeiro e Novembro, o centro atendeu perto de duas mil pessoas, nas consultas de pediatria, obstetrícia, medicina e puericultura. As doenças diarreicas e respiratórias agudas, parasitoses intestinais, assim como a malária são as mais frequentes naquela circunscrição. O centro realizou, no mesmo período, mais de cinquenta partos, entre institucionais e domiciliários. Para o trabalho de parto, o centro conta com o apoio de algumas parteiras tradicionais existentes na comuna. Estima-se que entre 25 a 30 bebés nasçam mensalmente no centro, sem considerar os domiciliários.
Júlio Hilário afirmou que no quadro do programa do governo de erradicação de doenças na Catata, muitas crianças menores de cinco anos foram  imunizadas contra a poliomielite. Lamentou, contudo, a falta de medicamentos essenciais no centro e postos de saúde para atender o universo de habitantes espalhados pelas aldeias da comuna.

Estudo ao ar livre

Estão em funcionamento, em toda comuna, 69 escolas: três de carácter definitivo e as demais provisórias, erguidas pela comunidade em algumas ombalas.
Sem ter adiantado números, o administrador da comuna disse que Catata precisa de mais professores e salas de aulas, para integrar mais alunos no sistema normal de ensino e também para albergar os que estudam ao ar livre.
Simão Tchinduva adiantou que, apesar das dificuldades, as aulas têm decorrido dentro da normalidade e elogiou a atitude dos encarregados de educação, e da população em geral, que têm contribuído para o bom funcionamento da instituição na comuna, aproveitando para pedir à direcção provincial de educação para implementar o programa de merenda escolar na comuna e assim ajudar as famílias que não possuem meios financeiros e índices elevados de desistência e absentismo dos alunos às salas de aulas. Disse ainda que a comuna precisa de uma escola do primeiro ciclo do ensino secundário isto é, da 7ª a 9ª classe, para se evitar as deslocações à sede do município da Caála.

Massificar a agricultura

A  Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA) da comuna da Catata tem mobilizado os agricultores e os camponeses, através do seu programa, no sentido de massificar a actividade agrícola para o combate à fome e à  miséria no seio das famílias.
O administrador comunal, Simão Tchinduva, assegurou, em entrevista ao Jornal de Angola, que apesar de alguns constrangimentos provocados pela irregularidade das chuvas, há perspectivas de uma boa colheita de milho, feijão, soja e outros produtos da região. A previsão é a de que venha a colher-se uma tonelada e meia de cereais, 750 quilos de feijão e 200 quilos de soja, por cada 12 hectares e meio, nas lavras familiares, organizadas a nível de todas as ombalas.
Para a próxima campanha, os agricultores e camponeses pedem mais apoio com sementes, instrumentos agrícolas, fertilizantes, tractores e gado para tracção animal. E serão criadas mais associações, ao invés de lavras familiares.

Dignificar as autoridades

Tchinduva disse que a comuna possui camponeses capazes de produzir o necessário para comercialização, mas lamentam a falta de meios de transporte para a evacuação de produtos para os principais mercados. O administrador comunal da Catata defendeu que para melhor dignificara as autoridades tradicionais e corresponder com às exigências do momento, urge a necessidade da criação de condições de acesso e habitabilidade na ombala Tchingolo, e para a confecção dos instrumentos que dignificam um reino. Destacou ainda a necessidade de se construir uma residência para o Soba Grande, um jango comunitário, um sistema de captação e tratamento de águas, a reabilitação da via de acesso a Ombala, o fabrico de  instrumentos, símbolos do poder, como a caixa para conservar caveiras,  três  enxadas tradicionais – Akuva, em umbundu – do modelo das que se encontram em estado degradante, baioneta (Otchissokololo), um machadinho,  três batuques,  igual  número de trombetas (Olombendo), entre outros de carácter tradicional.
A comuna da Catata, chamada também de terras da “ Rainha Tchingolo”, é constituída por três ombalas grandes: Tchingolo, Tchicambi e Tchikwalwlwa, oito ombalas pequenas e 76 aldeias. No total, 87 autoridades tradicionais, entre as quais três sobas grandes, 65 seculos, entre outras de apoio, controlam as ombalas.
O rei da ombala de Tchingolo, António Moreira, ao falar do historial do reino frisou que a ombala de Tchingolo foi fundada em 1960, por uma mulher que se chamou Tchingolo, oriunda da aldeia de Mbombo, município de Kakoma, na comuna de Ngungui, província da Huíla. O rei Moreira esclareceu na ocasião que o poder tradicional não é exercido por qualquer pessoa, mas sim em função da linhagem e consanguinidade. Deste modo, o reino de Tchingolo foi governado por sucessão de muitos sobas, entre Walia-Kapunha, Epomba, Handa Ngendende, Kampu, Huvi, Ekundi Hulundu, para citar alguns.
A ombala de Tchingolo tem como santuários locais Elombe (sede do rei), Akokotos (local onde se depositam as caveiras dos sobas falecidos), Guaritas do poder Institucional da Ombala, Ekwalatata (local onde se afirma a linhagem do entronizado), entre outros.
A província do Huambo tem actualmente cinco reinos: Tchingolo, Huambo, Sambo, Tchiaca e Bailundo, que de uma forma geral traduzem a identidade cultural do Planalto Central.

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