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Huambo sofre de elevada devastação florestal

Victória Quintas| Huambo

A província do Huambo apresenta um elevado nível de devastação dos polígonos florestais e matas nativas, com a exploração de madeira e a produção de carvão apontadas como as práticas que mais contribuem para a desmatação, considera o director local do Instituo de Desenvolvimento Florestal (IDF).

O corte de árvores está a gerar problemas ambientais e é preciso que as entidades competentes assumam o controlo dos polígonos
Fotografia: Victória Quintas

Andrade Baú disse que apenas duas empresas estão licenciadas para a exploração de madeira na província do Huambo, mas são detectados muitos casos de exploradores ilegais.
O director admitiu que o IDF tem conhecimento da existência de várias serrações móveis, instaladas nos polígonos sem autorização legal. Apenas duas empresas, a Micro Service e a Redson Internacional, têm licença para o corte de árvores.
A Micro Service tem a licença de exploração no município do Ucuma, no polígono florestal do Mundundo, cujo contrato assinado entre a empresa e o Ministério da Indústria, através do Instituto de Desenvolvimento Industrial de Angola (IDIA), foi homologado pelo Ministério da Agricultura. A mesma possui um viveiro no local, onde após a devastação faz a reposição das plantas.
A Redson Internacional tem contrato com o Ministério da Agricultura para explorar o polígono florestal da comuna do Cuima, no município da Caála, e, em contrapartida, deve limpar o perímetro, de modos a evitar possíveis queimadas no tempo seco.
“Eles retiram todo o material lenhoso e defeituoso para evitar que durante a época seca crie incêndios. Na retirada desse material, o que eles acharem que devem aproveitar aproveitam para as suas serrações”, disse Andrade Bau.
O director do IDF disse que as demais serrações, instaladas principalmente no Alto Chiumbo, Sanguengue e outras, dentro da cidade do Huambo, na sua maioria não têm contratos de exploração. Muitas das autorizações vêm a partir do Ministério da Indústria, através do IDIA, não cabendo directamente ao IDF anular um contrato ou uma autorização feita a nível superior.
Andrade Baú é de opinião que, nas autorizações para o corte de árvores devia constar o compromisso do repovoamento florestal, porque o IDF não tem condições humanas para fiscalizar todos os polígonos.
Existem na província quatro grandes polígonos florestais, designadamente Sanguengue e Alto Chiumbo (no município do Catchiungo), Cuima (na Caála) e Mundundo (no Ucuma), além dos outros pequenos, espalhados por várias outras localidades, com destaque para as fazendas de Chinguri, Bonga e Pelisa, e os que se estendem ao longo do Caminho-de-Ferro de Benguela.
Alguns destes polígonos são controlados pelo IDF e os outros, que integram um perímetro de 80 mil hectares de eucalipto, pertenciam à antiga Companhia de Celulose e Papel de Angola, agora sob responsabilidade do IDIA do Ministério da Indústria. Andrade Baú deu estas informações no final de uma visita que a ministra da Indústria, Bernarda Martins, efectuou ao Huambo, para constatar a situação do espaço onde funcionava a antiga Fábrica de Celulose e Papel de Angola, destruída em tempos, e avaliar o grau de exploração, transformação e exportação de madeira de eucalipto, através das empresas contratadas para o efeito.

Antigos funcionários


O director provincial do IDF acusou os antigos trabalhadores da Companhia de Celulose e Papel de Angola de estarem a passar autorizações para cortes de árvores e instalação de máquinas de serração no polígono florestal de Sanguengue.
Os antigos trabalhadores ficaram fora do controlo estatal, após a destruição da referida fábrica, razão pela qual justificam a venda de árvores para se sustentarem, vivem na comuna de Alto Catumbela, nos escombros da antiga fábrica e, no Huambo, estão representados dentro do polígono florestal do Sanguengue. Várias autorizações de exploração passadas por eles têm chegado à direcção do IDF com timbre da companhia e com os dizeres Ministério da Indústria e Instituto de Desenvolvimento Industrial de Angola, referiu o responsável.

Indústria sem controlo

O director provincial da Indústria, Augusto Filipe, afirmou que esta instituição não tem o controlo das empresas licenciadas para a exploração de madeira nos polígonos florestais administrados pelo IDIA. A direcção provincial não tem participado no processo de licenciamento de exploração de madeira, embora Augusto Filipe defenda que devia ser ao contrário, para se poder fiscalizar a actividade, mas "os contratos vêm já assinados a partir de Luanda”.
Augusto Filipe disse que as comunidades onde se encontram os polígonos e muitas famílias têm a sua subsistência com base nesses recursos.  Além das questões económicas, o corte de árvores está a gerar problemas ambientais. “É preciso que o Governo assuma a responsabilidade e o controlo desses polígonos, para que se possa fazer melhor gestão seles, porque se isto continuar, daqui a pouco não temos polígonos florestais”, frisou.

Reposição de espécies

A reposição das plantas devastadas é, de acordo com especialistas em matéria ambiental, a melhor forma de gestão florestal, por contribuir para uma amenização do ambiente, reduzir a quantidade de radiação que atinge o solo, além de funcionar como purificador.
O coordenador da Associação Provincial dos Ecologistas e Ambientalistas de Angola, António Teixeira, disse que, para isso, são necessárias regras simples, que se resumem a criar viveiros nas zonas de abate e transplante das árvores.
O ambientalista disse que esteve na localidade do Mundundu, município do Ucuma, e encontrou um viveiro grande, tendo reconhecido haver sinais de que a empresa que explora a madeira está a assumir o processo com responsabilidade.
Manuel Teixeira disse haver pouca sensibilidade e falta de conhecimento sobre as implicações que a destruição das florestas pode causar ao ambiente.
Do seu ponto de vista, a gestão descoordenada, irresponsável e irracional das florestas faz com que uma parte importante da terra fique descoberta do mecanismo de protecção contra a radiação solar, sem a qual este processo é devolvido para a atmosfera, contribuindo para um maior aquecimento.
Com a redução da cobertura florestal, a quantidade de água das chuvas ao atingir a superfície do solo não se infiltra. A água escorre pela superfície, arrastando consigo a parte mais fértil do solo e, deste modo, não oferece o alimento necessário para a cadeia alimentar, nem habitat para os seres vivos, incluindo o próprio homem.

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