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Iniciação na vida social com a circuncisão

Estácio Camassete | Huambo

A iniciação de jovens para a vida cultural e social na tradição ovimbundu começa com a circuncisão (evamba), que na língua nacional umbundu significa mutilação da pele que envolve a cabeça do órgão genital masculino

A iniciação de jovens para a vida cultural e social na tradição ovimbundu começa com a circuncisão (evamba), que na língua nacional umbundu significa mutilação da pele que envolve a cabeça do órgão genital masculino, cientificamente conhecida por prepúcio, considerada como parte inútil. Depois do acto de corte, antes de sarar a ferida, o jovem circuncidado permanece num acampamento com outros jovens também circuncidados e toma o nome de otchindanda.
 Segundo o historiador Festo Sapalo, o ritual da circuncisão na cultura ovimbundu surge entre os séculos XVII e XVIII, na sequência da relação com os vizinhos nganguelas e tchokwes, nas zonas do Luchazi, Moxico, de onde é oriundo o ritual. Os reis ovimbundu, com destaque para os do Sambo, Bailundo e Longondjo, foram os impulsionadores desta prática no Planalto Central.
As primeiras manifestações de circuncisão na região do Planalto Central aconteceram nos municípios do Longondjo, Bailundo e na comuna do Sambo, no município da Tchikala Tcholohanga.
Na cultura ovimbundu , o jovem não circuncidado é conhecido por otchilima, e é obrigado a sair da comunidade no tempo de frio e a recolher-se num acampamento, conhecido por evamba, onde é circuncidado e fica em companhia de outros jovens, durante quatro a cinco meses, para aprender as canções do folclore local, danças e outros conhecimentos integrais da cultural e vida social da sua região.
Para a circuncisão existe a figura do cirurgião, conhecido por nãwa (cunhado), que realiza o corte dos prepúcios com uma faca bastante afiada e que depois administra alguns medicamentos tradicionais e cicatrizantes preparados para o efeito.
Naquelas situações em que um jovem é conhecido na sua aldeia como desobediente, zaragateiro, não respeitador dos mais velhos, é-lhe reservada uma faca pouco afiada para a circuncisão, servindo de castigo.
Os cirurgiões, ou nãwas, têm uma medida mitológica para educar os jovens que passam pela cerimónia de incisão, mediante intimidações de mortes, caso não se comportem bem durante a sua permanência no acampamento.
O acto é supervisionado por um indivíduo de idade maior, chamado otchiluwe, que é uma espécie de guardião do templo. É ele que acompanha todas as necessidades e actividades dos rapazes no acampamento, zela pela dieta e pela saúde e também os protege dos maus ventos que, segundo os conhecedores da arte, podem ser atirados pelos malfeitores. O trabalho do otchiluwe é, por sua vez, orientado por um outro mais velho, especialista em segredos do ritual, a quem chamam otchimbanda e tem a função de fazer a cura e cicatrização das feridas. O otchimbanda é dotado de todos os conhecimentos da magia que defende e controla todos os acampamentos da sua região, para que haja maior sucesso durante a preparação desses jovens e lhes transmite conhecimentos que perduram de geração para geração.
 O historiador Festo Sapalo diz que depois de duas ou três semanas, logo após a cicatrização das feridas, todas as madrugadas são reservadas para exercícios físicos, seguidos de canções, contos, parábolas, para moralizar os jovens e educá-los nos preceitos tradicionais. Danças como olundongo, onhatcha e okatita, acompanhados pelo ritmo de batuques, são executados diariamente antes da higiene individual.
Durante este tempo de aprendizagem, os jovens estão proibidos de ver uma mulher e quem se atrever a fazê-lo pode ser severamente castigado.

Preparar a idade adulta

Quando a cicatrização está consolidada, o jovem começa a ensaiar danças com a máscara (otchingandje), já se considerando evoluído em termos de aprendizagem. O treino serve para aprender as técnicas de autodefesa, saber proteger o seu território, a família, dominar as técnicas de construção das suas residências e as artes de caça. Sobre este último aspecto, quem passou por esses acampamentos aprendeu e sabe que quem arremessa uma flecha aos olhos do animal, fica sujeito a uma multa caso seja visto pelos anciãos. 
Durante a sua convivência no acampamento, os jovens também aprendem agricultura e outros ofícios, numa rigorosa iniciação que começa no mês de Junho e termina em Outubro, quando o juramento é feito, geralmente à beira de um riacho. Aqui, são chicoteados e os que menos gritarem são considerados os mais corajosos e, portanto, aptos para defenderem a integridade da sua região.
Nos acampamentos existem vários sinais, como os de perigo, proibição, obrigação e de simples indicação, feitos de tintas extraídas de raízes e folhas, colocados em paus a uma distância que facilita a orientação de peões por outros caminhos, para que o local da circuncisão não seja violado por pessoas estranhas.
A alimentação é escolhida pelo supervisor do acampamento, o otchiluwe, que faz a selecção da comida servida aos jovens, apesar de muito do que ali se come vir das suas próprias casas. Os alimentos são preparados no acampamento, porque produtos cozinhados para alimentar os ovindandas não entram nestes locais. A base da alimentação é o funge com condutos não gordurosos, mel, chissangua e otchimbombo. Este último só pode ser servido depois da preparação física, no espaço reservado à animação e danças, por ser um produto estimulante. />Todos os rituais levados a cabo no acampamento são acompanhados por pessoas consideradas idóneas e mais velhas da comunidade, que desempenham o papel de observadores e analistas de tudo o que é dançado e cantado, para não fugir à linha da tradição vigente e servir acima de tudo como um meio para educar os mais jovens nas boas práticas.
Na tradição local, um homem indicado pela comunidade para ser rei, ou soba, tem de passar obrigatoriamente por estes rituais, senão é-lhe vedada essa possibilidade, salvo se for muito querido e de linhagem real. Ainda assim, tem um tempo não superior a 30 dias para o fazer, junto dos elementos da corte real, não podendo receber os poderes do reinado enquanto não passar pelo ritual.                                                                          
O historiador Festo Sapalo acredita que estas práticas, nos últimos tempos, estão a diminuir aos poucos, porque nas zonas urbanas os jovens preferem ser circuncidados em hospitais, devido ao nível de sanidade e cuidados médicos ali existentes. Mas nas comunidades tradicionais estes jovens são rejeitados, considerados como homens sem coragem para enfrentar situações adversas.

 Processo de socialização
 
Na visão de José Maria Katyavala, sociólogo e professor do Seminário Maior de Cristo Rei, do Huambo, a circuncisão como elemento cultural é uma tradição que marca o dia-a-dia dos povos bantu. É uma maneira de aprender as regras, as normas de uma determinada sociedade, transmitidas e conservadas de geração em geração.
A circuncisão, na perspectiva sociológica, é um processo de socialização, um rito através do qual as crianças e os adolescentes aprendem as normas, as regras da sociedade onde estão inseridas.
Para  José Katyavala, em termos antropológicos, a cerimónia da circuncisão é uma endo-culturação, que significa aprendizagem cultural das normas dos valores das sociedades bantu, em que durante três ou mais meses os adolescentes são submetidos a um conjunto de ensinamentos sobre as tradições.
Com estes mitos aprende-se a caçar, a pescar, durante a noite há um mais velho a contar histórias e provérbios, num processo de transmissão filosófica da visão do mundo à sociedade cultural bantu.
José Maria Katyavala salienta que a circuncisão é um rito de passagem, que marca a transição de uma posição social para outra, “porque nas aldeias um jovem não circuncidado é estigmatizado, por não estar completamente integrado na sociedade e nem preparado para enfrentar os desafios da vida”. Segundo o sociólogo, é por isso que o próprio acto culmina com uma grande festa, para a qual é convidada toda a comunidade, a fim de testemunhar que o adolescente passou para a classe de adulto e já tem outro estatuto social. “Nos últimos tempos, com o processo de urbanização, com o cristianismo e a escolarização, o sentido cultural da circuncisão começa a desaparecer, para dar lugar a um sentido médico de saúde pública”, rematou.

  Visão de um médico
 
Do ponto de vista do urologista Mansour Ibrahim, a circuncisão é importante do ponto de vista dos cuidados de saúde, apesar de ser uma tradição cultural que se manifesta de várias formas em diferentes comunidades.
E deve ser praticada com segurança sanitária, para evitar o contágio de várias doenças, que podem ser transmitidas aos adolescentes que aderem a estas práticas em locais pouco seguros do ponto de vista sanitário.
A prática da circuncisão tradicional, segundo ele, deve ser feita por pessoas com experiência, com alguma formação na área da saúde, cumprindo todas as medidas de higiene exigidas e ser feito com instrumentos apropriados.
O médico considera que a circuncisão pode, muitas vezes, causar complicações, se não for feito dentro dos parâmetros de saúde pública exigidos.  Pode ainda provocar problemas de esterilidade.
Mansour Ibrahim aconselha os pais que pretendam circuncidar os filhos, a levarem-nos a um hospital ou centro médico, por terem os meios técnicos e especialistas com experiência reconhecida para a realização de um trabalho limpo, saudável e sem riscos. Por outro lado, num hospital, em caso de surgirem complicações, o bloco operatório está disponível para qualquer intervenção cirúrgica.
A circuncisão, segundo o urologista Mansour Ibrahim, garante uma vida sexual activa e evita, em muitos casos, problemas do cancro da próstata, que é mais frequente nos países onde a circuncisão não faz parte da tradição.
Esta prática também faz bem ao homem do ponto de vista da higiene, porque ao se retirar o prepúcio, que liberta uma secreção chamada smegma, combatem-se muitas bactérias que provocam doenças, como inflamação do órgão genital, esterilidade e outras infecções que podem prejudicar a saúde humana.

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