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Medidas de apoio às crianças de rua

João Constantino | Huambo

O fenómeno das crianças de rua e na rua está a preocupar as autoridades da província do Huambo. São visíveis, diariamente, pelas ruas, crianças a deambular de um lado para o outro, à procura de algo para comer ou com que se agasalharem.

Vestidos de roupas andrajosas e malcheirosas estes meninos vagueiam pelas ruas da cidade do Huambo sem rumo nem destino
Fotografia: João Constantino | Huambo

São visíveis, diariamente, pelas ruas, de dia e de noite, crianças a deambular de um lado para o outro, à procura de algo para comer ou com que se agasalharem. Quase nuas, descalças e sujas, são na sua maioria meninos, embora também haja meninas. O fenómeno das crianças de rua e na rua está a preocupar as autoridades da província. O Instituto Nacional da Criança no Huambo, em parceria com entidades privadas, está a trabalhar para estancar o mal, criando condições de acomodação e formação para elas.
Muitas delas andam pelos contentores de lixo de residências e restaurantes à procura de restos de comida para se alimentarem. Vestidos de roupas gastas, rasgadas, andrajosas e malcheirosas, pelo uso constante, estes meninos vagueiam pelas ruas da cidade sem rumo nem destino. Os seus dormitórios são as escolas e as casas em escombros, abandonadas, e pontes. É importante encontrar um lugar que lhes dê garantias de uma noite sossegada.
A maioria destes petizes foi atirada para a rua pelos próprios pais ou familiares directos, sob a acusação de furto ou roubo em casa. Outros disseram à nossa reportagem que eram órfãos, filhos de mães solteiras e outros ainda que antes de optarem pela rua viviam com a mãe e o padrasto que os maltratava.
A viver na rua, os meninos fazem de tudo um pouco para serem remunerados ou alimentados. “Carregamos água, deitamos lixo fora ou transportamos mercadoria para, em troca, recebermos comida ou dinheiro”, disse à nossa reportagem uma dessas crianças, que confessou nem sempre conseguirem encontrar trabalho para ganhar alguns trocados ou comida. Quando isso acontece, para esquecerem as dificuldades, abandonam-se ao álcool. Admitem também que as suas roupas andrajosas nem sempre são uma boa carta de recomendação para trabalhos em algumas casas. As pessoas querem vê-las longe das suas vistas, pelo aspecto e mau odor que exalam, muitas vezes a tresandar álcool.
Outras crianças por nós contactadas confessaram que inalam gasolina e bebem “katopola”, bebida caseira com elevado grau de álcool. “Bebemos para não sentirmos frio de noite”, justificou-se um dos meninos.

O desejo de Camilo e Noé

Em conversa com Camilo, Noé e Manucho, os três meninos de rua que acederam a falar à nossa reportagem para contarem as suas histórias de vida, cada um ao seu jeito disse que o que mais desejava na vida era regressar a casa, estar numa escola e ser bem alimentado.
Integrado num grupo de oito meninos, com idades compreendidas entre os oito e os 12 anos e a viverem numa escola abandonada, Camilo Chico conta que saiu de casa porque não aguentava mais ficar com as pessoas que sempre lhe chamavam gatuno por tudo e por nada. “Vivia com a minha mãe, sou órfão de pai, e desde os cinco anos que vivo na rua, porque fui chutado de casa”, disse. Camilo tem hoje 10 anos.
Mais adiante falou das peripécias que vive na rua para poder alimentar-se. E contou o seu sonho: “Eu quero estudar. Aprender a ler e a escrever, para depois poder trabalhar e ajudar a minha família. Já estou muito aborrecido com a vida da rua, onde tenho de pedir, ou lavar carros, para poder alimentar-me. Também vamos a algumas casas para deitar o lixo e receber comida em troca”, contou, acrescentando que gostaria de ficar num lar onde tratam bem as crianças.
Por sua vez, Noé Lunje, filho de Celestina Cassinda, pediu ajuda ao Governo da província para os tirar das ruas, pois predispõem-se a viver num lar. “Eu já estudava no lar do padre Abel, mas nunca consegui um lugar para ficar lá”.
“Vim viver na rua por causa da minha mãe. Sempre que faltava alguma coisa em casa ela me acusava de gatuno e ofendia. Também sou órfão de pai e vivia com o meu padrasto”, disse, acrescentando que gostaria de ser professor, quando fosse grande.  
Como vivem sob o tecto de uma escola abandonada, os rapazes reclamam de alguns adultos embriagados que vão constantemente incomodá-los, sonegando-lhes o pouco dinheiro que conseguem.
 Manucho Jaime contou que saiu de casa devido aos maus-tratos que recebia da mãe. “Ela quando bebia me batia muito. Vivia com o meu padrasto porque o meu pai morreu”, disse. Tal como os outros petizes, Manucho também sonha com uma vida melhor, quando for grande. Diz que gostaria de ser motorista quando crescesse. “Aqui nesta escola abandonada vivemos mal e quando vêem, os manos mutilados nos tiram o nosso dinheiro e outras coisas.
 Também alguns polícias não nos deixam em paz. Se tivermos um lar parar nos acolher nós vamos deixar esta vida”, disse pesaroso o pequeno Manucho, que agora desconhece o paradeiro da mãe, que se mudou para Luanda.Assim como esses meninos do Huambo, outros mais vivem pululando pelas ruas da cidade e clamam por apoios para saírem da rua e terem um lar onde sejam acolhidos, alimentados e instruídos.

Renascer da Criança

Para colmatar algumas dificuldades vividas por estes meninos que deambulam pela cidade do Huambo, alguns membros do Projecto Renascer da Criança estão preocupados em lhes dar apoio e acolhimento.
Valentina Jeremias, membro do projecto, disse que já têm distribuído algum material didáctico a alguns grupos de crianças na cidade, mas isso não é suficiente.
“Nós queremos tirar estas crianças da rua. Queremos dar-lhes um lar onde possam aprender a ler e a escrever e alguma profissão que lhes garanta o futuro. Porque se continuarem assim, na rua, podem tornar-se potenciais criminosos”, disse.
Valentina Jeremias disse ter pedido vários apoios a algumas entidades para dar melhor vida a essas crianças, mas até agora tudo o que recebeu foram promessas que tardam em concretizar-se.“Temos de fazer alguma coisa urgente, porque estas crianças são exploradas pelos adultos.
 Realizam trabalhos pesados e não se alimentam em condições. É penoso ver crianças dos sete aos 12 anos já a viverem na rua sem um tecto, por isto temos pedido às pessoas de boa fé para nos ajudarem a minimizar as dificuldades delas”, clamou.
Valentina Jeremias prometeu não descansar enquanto não for dada a estas crianças a garantia de um futuro melhor. 

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