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Novas profissões ocupam milhares

Estácio Camassete | Huambo


A economia informal continua a garantir postos de trabalho a milhares de pessoas, na província do Huambo. Novas profissões, como as de “lotador” e cobrador, garantem o sustento de muitas famílias. Os primeiros têm como função encher os carros dos candongueiros que partem para os diferentes destinos. Pelo trabalho feito, recebem 50 a cem kwanzas. 

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Fotografia: Jornal de Angola

“Lotadores” e cobradores trabalham no transporte de pessoas e mercadorias. Os “lotadores”, que se concentram desde muito cedo nas principais paragens de táxi, têm como função encher os carros dos candongueiros que vão partindo para os diferentes destinos. Lotada a viatura, recebem do cobrador ou táxista entre 50 a 100 kwanzas pelo trabalho feito.
São na sua maioria jovens, e com o que ganham vão sustentando a família. A reportagem do Jornal de Angola procurou saber um pouco sobre a vida dos “lotadores” e cobradores. Pelo caminho ouviu também um ajudante de alfaiate, uma zungueira, um moto-taxista e uma empregada de lanchonete.
António Antunes é “lotador” de táxis no mercado do bairro de São Luís há mais de dois anos. Disse ter optado por esta actividade “para não ficar em casa de mãos a abanar”. Sem emprego e estudando no período nocturno, achou que o tempo de ócio podia ser preenchido chamando passageiros para encher os carros dos candongueiros. “Prefiro ficar aqui a ganhar algum dinheiro para o meu sustento do que ficar em casa ou andar a vadiar”, disse sorridente. Ele afirma que com o dinheiro que recebe já consegue resolver alguns problemas pessoais e ajudar a casa.  Como António Antunes, vários jovens e adolescentes têm na lotação de viaturas o seu ganha-pão. Aglomeram-se nas principais paragens de táxis, normalmente localizadas nos mercados, fora da cidade, cobrando por cada lotação o valor equivalente a uma passagem.
Há entre os motoristas e os “lotadores” acordos que as partes se obrigam a cumprir. Quando o motorista recusa pagar ao “lotador”, é uma grande confusão no local. Os “lotadores” juntam-se e impedem a saída do carro. Mas são raros os casos em que um motorista se nega a pagar o que é devido ao “lotador”.
 Os “lotadores” no Huambo e um pouco por todo país são praticamente os donos das paragens. Segundo António Antunes, por dia, consegue encher entre sete e oito veículos, o equivalente a 700 ou 800 kwanzas. Alguns, jogam “kixiquila” e assim resolvem as suas necessidades do mês. A paragem dos “lotadores” do mercado de São Luís é constituída por sete elementos. “Dizem que somos fomentadores da confusão, mas eu digo que não é verdade, porque isso só acontece quando o taxista se furta a pagar os devidos valores, depois de encher o seu carro”, rematou.

A luta dos cobradores

No mesmo mercado trabalha também Gervásio Samongua, mas como cobrador. Diz que o trabalho é muito duro, porque não tem carro fixo. Sai com o primeiro motorista que aparece e o convida. Trabalha durante o dia todo e, descontando o almoço e o mata-bicho, no fim da jornada pode levar para casa 1000 kwanzas ou um pouco mais.
Gervásio Samongua disse que com as poupanças feitas já comprou uma motorizada e pretende continuar nesta vida por mais algum tempo, para poder ajudar os “manos lá em casa” e sobrinhos em dificuldades.
“Existem aqueles cobradores que trabalham num único carro, com um ponto de concentração, onde se encontra com o motorista todos os dias, mas no nosso caso, como eventuais, é preciso levantar muito cedo e controlar os carros que não têm cobradores”, disse.  
 
Bares e lanchonetes

Na Cidade Alta localiza-se o mercado Himalaia, onde se juntam logo pela manhã muitos jovens, que oferecem a sua força de trabalho em troca de alguns trocos. As mulheres trabalham nas lanchonetes e outros locais improvisados para servir refeições ou vender mercadorias. />Joana Maria trabalha numa lanchonete há mais de um ano. O seu trabalho consiste em acarretar água, limpar o local, confeccionar refeições e atender aos clientes. Além desse trabalho, Joana Maria vai aos locais de maior aglomeração de pessoas para angariar clientes para a lanchonete ou para vender alimentos.
A lanchonete onde trabalha é frequentada, na sua maioria, por trabalhadores da Administração Municipal do Huambo, da Empresa de Electricidade, vendedores do mercado, cobradores, lotadores e kinguilas. Todos a conhecem e são atendidos com profissionalismo: “os clientes, quando não têm possibilidades de chegar até aqui, encomendam as refeições, que eu levo para o seu local de trabalho”, realçou.  
Celestina Nangayafina, a patroa, garante que é um prazer trabalhar com Joana Maria, porque cumpre todas as suas obrigações e tem habilidades natas para atender e deixar o cliente satisfeito. “No futuro, se as coisas continuarem a correr bem, gostaria de empregar mais pessoas com o comportamento da minha empregada”, disse.
Antes de trabalhar na lanchonete de Celestina Nangayafina, Joana transportava água para as famílias que vivem nos prédios da cidade do Huambo e quando viu que o transporte de água estava a dar-lhe cabo da saúde, para evitar o pior, preferiu trabalhar com a sua actual patroa, onde o trabalho não é muito pesado e ganha um pouco melhor.
 “Tenho filhos que estudam e preciso de comprar o material didáctico e este trabalho é o que me dá mensalmente algum dinheiro para cuidar dessas coisas”, disse Joana Maria.
Zeferino Epalanga trabalha há um ano numa alfaiataria no mercado. Diz que de momento está a aprender a profissão, mas no fim do dia já leva algum dinheiro para sustentar a família.
Antes de ser ajudante de alfaiataria era ajudante de pedreiro, mas como o trabalho nas obras é muito desgastante decidiu empregar-se na alfaiataria e aprender uma profissão que lhe dê alguma garantia de um futuro melhor. Zeferino Epalanga diz que aprendeu a coser na velha máquina Oliva do seu mestre e vizinho.
Hoje, diz que já faz medição de peças de roupa, moldes de costura e outros trabalhos mais complexos, embora não seja ainda um mestre na verdadeira acepção da palavra.
 
Zungueiras de roupa
 
No mercado informal da Quissala, Madalena Nangasole vende roupa usada desde 2008. O negócio não é dela e a patroa paga por cada peça vendida 100 kwanzas.
Madalena Nangasole confessa que existem momentos em que vende um pouco mais caro algumas roupas em relação ao preço determinado pela dona do negócio, e quando isso acontece o lucro do dia sobe e consegue facturar pouco mais de mil kwanzas. Mas nem tudo é um mar de rosas neste trabalho, porque muitas vezes, quando chega a hora de fazer o balanço das vendas, falta dinheiro e é obrigada a pagar.  A equipa de reportagem do Jornal de Angola falou com Matias Constantino, que faz o trabalho de kupapata há dois anos, para um patrão que tem na praça seis motorizadas e emprega igual número de jovens. “Por semana, o patrão cobra 50 dólares e todas as sextas-feiras levamos o dinheiro a sua casa”, disse Constantino.
O moto-taxista garante que o patrão deposita plena confiança nos seus trabalhadores e não interfere no trabalho.
Num bom dia pode arrecadar mais de dois mil kwanzas. Quando tudo corre bem, consegue o dinheiro do patrão em três dias, ficando com o resto da semana para ele. “Em dois anos consegui comprar um terreno no meu bairro e espero trabalhar mais para no próximo ano construir a minha casa”, disse a concluir Matias Constantino.

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