Queimadas e desflorestação prejudicam produção de mel
Victória Quintas | Huambo
As queimadas e a desflorestação são apontadas como as principais causas pela fuga e morte das abelhas em várias regiões na província do Huambo. A situação provoca danos à flora e às árvores de fruto, responsáveis pela criação de pólen para as abelhas, o que dificulta a produção de mel na região do Planalto Central.
Pesquisadores na província do Huambo estão a averiguar se as espécies de abelhas na região continuam a ser as mesmas Fotografia: DR
Max Vicente, produtor de mel, considera que o cenário é negativo. “Tenho andado pelos municípios e os apicultores reclamam que já não vêem enxames a sobrevoar, como acontecia antigamente”, queixou-se.
Em busca de algum equilíbrio, em função das queimadas e da desflorestação, os produtores locais têm, periodicamente, plantado eucaliptos, girassóis e outras espécies para dar um ambiente favorável às abelhas. Max Vicente, detentor de um apiário localizado na aldeia de Mbembwa, município da Chicala Choloanga, garante que a produção de mel é um processo longo. Tudo começa no campo, com a colocação de colmeias, depois vem a fase da colheita em recipientes higienizados. Depois o produto é transportado para o laboratório onde é feita a extracção e o processamento. De seguida, é feita a separação do mel dos favos e a filtragem para eliminar os resíduos sólidos e para que o produto esteja pronto para o consumo. “O mel, antes de ser embalado, tem de ser testado no laboratório para que sejam efectuadas as análises microbiológicas e de proteína. Só depois é embalado, sem aditivos, em frascos esterilizados”, especifica o produtor, que, diz, para além de adoçar os alimentos, o mel contém proteínas, enzimas e sais minerais benéficos à saúde. No apiário de Max Vicente são produzidas, anualmente, duas toneladas de mel, que, depois de embaladas, são distribuídas para as grandes superfícies comerciais, nesta fase circunscritas apenas à província do Huambo. Outras empresas já manifestaram interesse em comercializar o produto, mas as dificuldades na importação e aquisição de material para o maneio e embalagem tem inviabilizado as negociações.
Exportação no horizonte
Em tempos, a Agência de In-vestimento Privado e Promoção das Exportações (AIPEX) realizou, na Faculdade de Ci-ências Agrárias do Huambo, um encontro nacional sobre apicultura, que reuniu os produtores locais de mel. Na ocasião, ficou vincada a necessidade da criação de instrumentos jurídicos e comerciais para se efectuar a exportação do produto para diversos países do mundo. O produtor Max Vicente manifesta-se esperançoso com esta iniciativa, assegurando que as perspectivas são elevadas. “Há padrões internacionalmente exigidos para a exportação do mel e, por enquanto, ainda são poucos os produtores que levam o mel para ser testado em laboratório e os que primam pelas boas práticas de maneio”, apontou. A criação de um sistema de controlo de qualidade, alega o apicultor, é fundamental para evitar a sua contaminação. A exportação requer ainda, para
além do acompanhamento ao apicultor, algum investimento e processos industriais competitivos. “É preciso ter em conta que, em alguns países, o mel é cotado em bolsa. Se o preço não for competitivo não se consegue vender. Os produtos agrícolas têm que vir de fora e não há apoios dos bancos para a aquisição de divisas. O recurso tem sido no mercado informal. No final, o mel encarece e o custo de produção pode ser superior ou igual ao preço do produto importado, o que é um problema sério para os apicultores”, clarificou. No encontro nacional promovido pela AIPEX,no Hu-ambo, ficou a recomendação para que os produtores mais experientes na matéria apoiem os restantes, sobretudo no escoamento da produção. "Não é só pegar o mel do produtor e levar para um armazém”, disse. O sistema de apicultura, para Max Vicente, deve ser alterado: ao invés de se colher o mel "apenas uma vez por ano", devia-se criar condições, nos apiários, à semelhança de outras paragens, "para colher duas ou três vezes por ano, para que haja capacidade de fornecimento para o mercado interno e externo".
Papel das universidades
O sucesso da produção do mel necessita da intervenção das universidades na elaboração e divulgação de estudos, como veículo de elucidação dos apicultores sobre o estado das abelhas. A última publicação data do tempo colonial, na década de 60. Max Vicente, que também é docente de Zootecnia na especialidade de apicultura, avança que nas Faculdades de Medicina Veterinária e de Ciências Agrárias há disciplinas e docentes que carecem de recursos para efectuarem as pesquisas. “Já não sabemos o estado das abelhas, o comportamen-to delas, se as espécies conti-nuam as mesmas, se houve algum cruzamento com outras espécies ou se são híbridas. Por isso, precisa-se de uma pesquisa mais detalhada sobre as doenças e pragas que pairam no mundo desses insectos. É necessário um investimento nesta área do saber”, apelou. A universidade deve desempenhar o seu papel investiga-tivo e levar os resultados para o campo, para a apicultura crescer e solucionar os problemas que a actividade enfrenta, apresentando, também, como solução, a criação de um centro de reprodução e melhoramento genético das abelhas, para fornecer enxames aos produtores de mel, de forma a puderem, trimestralmente, colher em grande escala. Na actividade apícola, disse Max Vicente, são várias as questões a ter em conta para que possamos ter uma produção de qualidade, à semelhança de países como Brasil, Quénia, Uganda, entre outros, que têm na exportação do mel uma fonte de arrecadação de divisas.