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Queimadas devastam as florestas

Victória Quintas| Huambo

Durante o cacimbo é prática corrente a limpeza de terrenos para o cultivo, ou formação de pastos para os animais, mas as consequências dos métodos usados nem sempre são as desejáveis.

A maior parte das florestas da província do Huambo estão a ser devastadas por pessoas que se dedicam à venda de carvão
Fotografia: Victória Quintas| Huambo

Durante o cacimbo é prática corrente a limpeza de terrenos para o cultivo, ou formação de pastos para os animais, mas as consequências dos métodos usados nem sempre são as desejáveis.
Nesta época, os agricultores e criadores de gado utilizam diferentes técnicas para a preparação de terras. Na região do Planalto Central, a queimada é a mais comum, por ser rápida e mais fácil. Porém, vários agricultores e camponeses desconhecem as implicações económicas e ecológicas que esta prática acarreta para os solos e para o próprio meio ambiente.  
O agricultor José Camota, como tantos outros, disse que queima os restos da lavoura para facilitar a limpeza do solo, pois deste modo, na próxima época agrícola, apenas terá de se dedicar a capinar o solo. No entanto, desconhece o impacto negativo desta sua prática.
O vice-decano da Faculdade de Ciências Agrárias, Manuel Ginhas, explica que as desvantagens das queimadas são superiores às vantagens, pois "no solo existem microrganismos que morrem com o fogo". Além disso, alertou para o facto de elas também diminuírem a humidade do solo e a matéria orgânica. "No Huambo, por exemplo, os solos têm uma baixa capacidade de reter os fertilizantes e aquilo que pode ajudar a matéria orgânica do solo a desenvolver-se é muitas vezes destruído durante as queimadas".
Além de diminuir os processos de oxidação e transformação dos nutrientes normais, pela diminuição da vida microbiana, o fogo destrói também sementes, plantas jovens, raízes, elimina vegetais, que geralmente não terão possibilidade de sobrevivência na área, a não ser por reintrodução posterior, através do homem, animais ou agentes físicos, disse Manuel Ginhas.
Com sucessivas queimadas, acrescentou, a matéria orgânica é destruída. A microfauna, fundamental para a decomposição de substâncias (detritos) orgânicos, que posteriormente são transformados em adubos naturais, e a microflora são eliminadas no local onde a queimada é feita, deixando o solo descoberto, o que provoca erosão, que facilita a lavagem dos solos através da velocidade da corrente da água, leva os nutrientes consigo e enfraquece o solo. Com a infertilidade deste, provocada pela falta de nutrientes e ­matéria orgânica, a terra produz alimentos de menor qualidade e em menos quantidade.
O pior é que esta prática não se restringe aos agricultores. Há outras pessoas que ateiam fogos nas florestas para caçar ou por mero descuido, situação que tem preocupado muito o Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), segundo o seu director, Andrade Baú.
Estas queimadas nas florestas, adiantou este responsável, estão a dar cabo das matas naturais e dos polígonos florestais (matas artificiais), que quando ardem já não se regeneram, estando em via de extinção.
"Os que mais danificam as florestas são aqueles que vivem do ­comércio de carvão, e a maioria dessas pessoas está no meio urbano. O cidadão do meio rural não corta uma árvore para tirar lenha, ele recolhe os galhos já secos que estiverem na mata", disse Andrade Baú. 

Consequências ecológicas

Do ponto de vista ecológico, as queimas eliminam as espécies, tanto animais como vegetais, que depois não têm capacidade de se regenerar, de acordo com o chefe de departamento do ambiente, Júnior Chinendele.
Provocam acumulação de gases, com elevadas concentrações de monóxido, dióxido e óxido de carbono, azoto e outros, que ­deterioram a qualidade do ar das regiões. Mas não só. Deterioram igualmente a qualidade da água, devido às enormes concentrações de compostos químicos que, quando chove, são carregados para os aquíferos.
Além disso, existem implicações económicas. “Nós sabemos que muita gente depende das florestas para vários fins. É de lá onde saem os frutos silvestres, a madeira e, em alguns casos, os medicamentos. Quando passa, o fogo leva tudo e as pessoas deixam de beneficiar desses bens que a natureza oferece”, explicou Júnior Chinendele.
Outra consequência  é o assoreamento dos rios, porque as chuvas levam os sedimentos para o fundo destes cursos naturais, deixando-os mais rasos, até que desaparecem, provocando também alterações climáticas. Sem a floresta ou o cerrado, não há transpiração dos vegetais, o que altera o ciclo hidrológico, provocando a desertificação. Outra consequência da queimada é o aumento do teor do alumínio, que é altamente tóxico e aumenta a acidez do solo. Com isso, a capacidade de retenção de água diminui drasticamente ao longo do tempo.
Ao queimar determinada área, pode haver no local diversos tipos de materiais, como plásticos, que libertam a dioxina, que é cancerígena. Portanto, esta prática também tem consequências directas para a saúde.
Daí a necessidade do Estado criar mecanismos de fiscalização eficientes, de forma a que todas as forças sociais, como entidades tradicionais, administrações municipais e comunais e as populações participem na sensibilização contra as queimadas, afirma Júnior Chinendele.  

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