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Queimadas prejudicam resultados agrícolas

Victoria Quintas | Huambo

A queimada é uma prática comum entre os agricultores, que através delas pretendem limpar os terrenos de cultivo ou criar pastos para os animais, mas as consequências desses métodos têm sido visíveis durante o desenvolvimento das culturas semeadas, ao fazerem com que os resultados das colheitas não sejam os melhores.

A queimada é uma prática comum entre os agricultores, que através delas pretendem limpar os terrenos de cultivo ou criar pastos para os animais, mas as consequências desses métodos têm sido visíveis durante o desenvolvimento das culturas semeadas, ao fazerem com que os resultados das colheitas não sejam os melhores.
Nesta época de cacimbo, os agricultores e criadores de gado utilizam diferentes técnicas para preparar as terras. Na região do Planalto Central, a queimada é a mais comum, por ser rápida e fácil. Boa parte dos agricultores e camponeses desconhecem as implicações económicas e ecológicas que esta prática acarreta para os solos e para o próprio meio ambiente.
Os agricultores João Kapingãla e Antonieta Joana sabem que, após a queimada, têm o solo limpo para a preparação do terreno, mas desconhecem o impacto negativo que tal prática pode provocar nas culturas. O vice-decano da Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo (FCA), Manuel Ginhas, referiu que as desvantagens das queimadas são superiores em relação às vantagens, tendo em conta que no solo existem microrganismos que morrem com o fogo.
O docente alertou para o facto das queimadas também diminuírem a humidade do solo e a matéria orgânica. “No Huambo, por exemplo, os solos têm uma baixa capacidade de reter os fertilizantes e aquilo que pode ajudar a matéria orgânica do solo a desenvolver-se é muitas vezes destruído durante as queimadas.”
Manuel Ginhas referiu que, além de diminuir os processos de oxidação e transformação dos nutrientes normais, pela diminuição da vida microbiana, o fogo também destrói sementes, plantas jovens, raízes, elimina vegetais, que geralmente não têm possibilidade de sobrevivência na área, a não ser por reintrodução posterior, através do homem, animais ou agentes físicos.
Com sucessivas queimadas, a matéria orgânica é destruída, disse o responsável, para quem a microfauna, fundamental para a decomposição de substâncias (detritos) orgânicas, que posteriormente são transformados em adubos naturais, e a microflora são eliminadas no local onde a queimada é feita. Esta situação faz com que o solo fique descoberto e provoca erosão, que facilita a lavagem dos solos através da velocidade da corrente da água, levando os nutrientes consigo e enfraquece o solo.

Terra produz alimento

Com a infertilidade, provocada pela falta de nutrientes e ¬matéria orgânica, a terra produz alimentos de menor qualidade e em menos quantidades.As queimadas têm grandes consequências, entre elas a desertificação. Além disso, o fogo altera a composição dos solos, causando, deste modo, efeitos químicos, físicos e biológicos, e prejudicando a reciclagem dos nutrientes.
Mas, a prática das queimadas não se restringe aos agricultores. Há outras pessoas que ateiam fogos nas florestas para a caça, ou até mesmo por mero descuido, e provocam a desmatação das florestas, situação que preocupa o Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF).
O director do IDF, Andrade Baú, salientou que as queimadas nas florestas estão a dar cabo das matas naturais e dos polígonos florestais (matas artificiais) que, quando ardem, já não se regeneram, estando em vias de extinção.
“Os que mais danificam as florestas são aqueles que vivem do ¬comércio de carvão e a maioria dessas pessoas está no meio urbano. O cidadão do meio rural não corta uma árvore para tirar lenha, ele recolhe os galhos já secos que, do ponto de vista ecológico, as queimadas eliminam as espécies, tanto animais como vegetais, que depois não têm capacidade de se regenerarem, de acordo com o chefe de departamento do Ambiente, Júnior Chinendele.
As queimadas provocam acumulação de gases, com elevadas concentrações de monóxido, dióxido e óxido de carbono, azoto e outros, que prejudicam a qualidade do ar das regiões. Deterioram, igualmente, a qualidade da água, devido às enormes concentrações de compostos químicos que, quando chove, são carregados para os aquíferos. Além disso, existem implicações económicas.O responsável acredita que muitas pessoas dependem das florestas para vários fins. É de lá que saem os frutos silvestres, a madeira e, em alguns casos, os medicamentos. “Quando queimam, o fogo leva tudo e as pessoas deixam de beneficiar desses bens que a natureza oferece”, explicou Júnior Chinendele.
Outra consequência é o assoreamento dos rios, porque as chuvas levam os sedimentos para o fundo destes cursos naturais, deixando-os mais rasos, até que desaparecem, provocando também alterações climáticas. Sem a floresta ou o cerrado, não há transpiração dos vegetais, o que altera o ciclo hidrológico e provoca a desertificação.  O aumento do teor do alumínio, que é altamente tóxico e aumenta a acidez do solo, também é resultado da prática de queimadas, e, com isso, a capacidade de retenção de água diminui drasticamente ao longo do tempo.

Consequências para a saúde


Ao queimar determinada área, pode haver no local diversos tipos de materiais, como plásticos, que libertam a dioxina, que é cancerígena. Portanto, esta prática também tem consequências directas para a saúde. “Daí a necessidade do Estado criar mecanismos de fiscalização eficientes, para que todas as forças sociais, como entidades tradicionais, administrações municipais e comunais e as populações, participem na sensibilização contra as queimadas”, afirmou Júnior Chinendele.
Esta prática liberta grandes quantidades de gases que contribuem para a destruição da camada de ozono na estratosfera e, assim, possibilitam que raios ultravioletas atinjam em maior quantidade a Terra e causem efeitos cancerígenos e mutagénicos.
Além disso, os gases que ficam concentrados na atmosfera absorvem a energia térmica dos raios infravermelhos reflectidos pela superfície da Terra, contribuindo para o efeito de estufa, que gera uma reacção em cadeia negativa para o planeta.

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