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Rainha do milho quer recuperar prosperidade

João Constantino | Huambo

Município satélite do Huambo, a Caála já deu muito que falar. Era um dos rostos mais visíveis, para não dizer um dos motores, da prosperidade que a região do planalto central já viveu.

Pormenor da rua principal da cidade satélite da Caála
Fotografia: João Constantino

Município satélite do Huambo, a Caála já deu muito que falar. Era um dos rostos mais visíveis, para não dizer um dos motores, da prosperidade que a região do planalto central já viveu. Hoje, praticamente livre dos escombros da guerra, lança-se, a todo o vapor, à reconquista de uma fama que fez justamente por merecer

A viagem de carro da cidade do Huambo para o município satélite da Caála, a cerca de 22 quilómetros, faz-se entre 15 e 20 minutos, num bom tapete asfáltico, que convida os automobilistas a acelerar. Daí, resulta um facto paradoxal: as condições de circulação automóvel melhoraram, os acidentes aumentaram.
Quem conhece bem a região depara-se com um cenário que pouco ou nada faz lembrar os anos de guerra. A Caála dos tempos de conflito armado está a desaparecer, dando lugar a uma nova vila. A antiga visão de ruínas, estradas esburacadas, residências destruídas e ausência de iluminação eléctrica é passado. Só resta na lembrança dos adultos. Emerge uma nova geração que nem suspeita, sequer, das agruras daqueles tempos.   
Apesar do atraso em algumas obras de reabilitação, a Caála é dos municípios que mais investimentos registam na província do Huambo, disse o administrador municipal Miguel Somakessendje.
“Até 2008 as obras públicas decorriam a bom ritmo. Agora, devido à crise económica e financeira que abalou o mundo, houve um pequeno recuo. Mas, estou em crer que, este ano, vamos ter muitos avanços na reconstrução”, adiantou Miguel Somakessendje.
 O ritmo das obras de recuperação das estradas, reconstrução e construção de escolas, postos de saúde, sistemas de iluminação e distribuição de água diminuiu. Tudo por falta de disponibilidade financeira. Tanto o Programa de Investimento Provincial (PIP) como o Programa de Intervenção Municipal (PIM) sofreram restrições na disponibilidade de valores.
“Como é natural, isto teve reflexos na quantidade de obras a executar”, referiu.
Nas ruas do município verificam-se trabalhos de recuperação de passeios não concluídos, ruas por asfaltar, restrições no sistema de abastecimento de energia e falta de água potável.
O município da Caála, com três comunas - Calenga,  Catata e  Cuima – tem 190.057 habitantes. 
 
Ainda há crianças sem escola

 Na véspera do início do ano lectivo, visitamos alguns estabelecimentos de ensino de vários ciclos. Na escola do I e II ciclos do ensino secundário “4 de Abril” a azáfama era grande. Os encarregados de educação tratavam das matrículas dos educandos. A escola é uma das melhores da Caála e foi construída de raiz no ano passado. 
Apesar dos esforços do Governo para construção e reabilitação de escolas, ainda há algumas crianças fora do sistema. O problema não é tanto a escassez de salas, mas a falta de professores. Estimativas da administração municipal referem a falta de 630 professores. 
O administrador municipal afirmou que, depois do Huambo, a Caála é o município em melhor situação quanto à disponibilidade de professores. Tem 1.712, 127 deles licenciados. 
“Temos, no ensino primário, algumas salas com 75 alunos. Há localidades, onde um professor lecciona da primeira à quarta classe”, lamentou.
No ano lectivo de 2009, havia 72 mil alunos - cerca de 35 mil do sexo feminino - nos 1.090 estabelecimentos de ensino existentes. 
Apesar destes números, ainda há crianças que estudam nas catequeses ou, mesmo, debaixo de árvores e em armazéns.
“Temos, ainda, um número de crianças em idade escolar que, por falta de professores e de escolas, estão fora do sistema de ensino. São cerca de mil, que pretendemos enquadrar. Vamos lutar para, nos próximos tempos, termos mais escolas e eliminar este problema”, frisou Miguel Somakessendje.
Quanto ao sector da Saúde, o paludismo e as doenças diarreicas são as mais predominantes. O município dispõe de 158 camas hospitalares, cinco médicos, três técnicos superiores de enfermagem, 173 enfermeiros gerais e 157 auxiliares.
“Estes números são de realçar porque nunca tivemos um número tão expressivo de técnicos de saúde. Posso dizer que estamos bem servidos, mas necessitamos de mais”, declarou.
Um hospital municipal e três centros de saúde atendem, regularmente, a população. Também existem postos de saúde nas umbalas para evitar que os pacientes façam grandes deslocações para receberem assistência.  
 
Sistemas  de energia e água

Com o programa de reabilitação do sistema de abastecimento em vigor, os munícipes estão privados de água canalizada desde 2009.
A população consome água proveniente das cacimbas, que secam no tempo do cacimbo. Água em abundância só depois de 2011, quando deve estar concluído projecto em curso.
“Além deste, há o projecto do Governo para construção de uma central de captação no rio Kunhungama, que vai fornecer água aos municípios da Caála e do Huambo. O futuro é melhor”, disse.
A energia no município é fornecida por um grupo gerador, que não cobre toda a cidade, que apenas tem energia pública em cinco ruas.
A esperança reside na conclusão da barragem do Ngove, cujas obras terminam em 2011.  
“Só vamos ter energia suficiente depois da entrada em funcionamento da barragem do Ngove. É grande a carência de energia tanto para a população, como para as indústrias que estão a ser construídas. Ante as boas perspectivas, quem quiser investir na Caála já pode fazê-lo sem sobressaltos”, frisou o administrador.  
 
Agricultura em crescimento 

O município da Caála também é conhecido como a cidade Rainha do Milho, não tanto por já ter sido o maior produtor de milho, mas por possuir um dos maiores celeiros do sul do país.
O milho está em primeiro lugar entre os produtos cultivados na região, mas, salientou Somakessendje, “o feijão, as batatas rena e doce e as hortícolas atingiram níveis de produção aceitáveis em relação aos anos anteriores”, congratulou-se.
“A Caála teve o nome de Rainha do Milho por causa dos grandes celeiros. O milho armazenado não era todo produzido na Caála. Algum vinha dos municípios da província da Huíla, sobretudo de Caconda. Como tudo era conservado aqui, a Caála ficou conhecida como a Rainha do Milho”, explicou.
 “O nosso município nunca foi o maior produtor de milho a nível nacional, mas produziu muito. Os vales do Calai, Cuima e Catata estão a aumentar cada vez mais os níveis de produção no município”, referiu.
A Caála, essencialmente agrícola, tem uma forte vocação para a pecuária.
 A sua população animal, entre bovinos, suínos e caprinos, ronda os 40 mil. As autoridades municipais têm a convicção que esse número pode crescer muito mais. E razões para tal não faltam. Uma delas é a recente criação do Centro de Formação Genética na comuna da Calenga, junto ao rio Calai.
“Este centro de formação genética tem como objectivo ajudar os criadores de gado a aprenderem novas técnicas de reprodução animal, sobretudo bovinos, devido ao cruzamento que pode resultar entre as diferentes espécies”, afirmou.
Com todas estas perspectivas, a Caála certamente vai voltar a ser um dos principais roteiros turísticos do Planalto Central. E com as novas estradas inter-provinciais o município está mais perto.

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