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Segurança alimentar levada às áreas rurais

Victória Quintas | Huambo

O acesso a uma alimentação suficiente, segura, nutritiva e que atenda às necessidades e preferências do organismo, de modo a propiciar uma vida activa e saudável, pressupõe segurança alimentar, obtida através de boas práticas agrícolas.

Uma alimentação adequada e variada previne deficiências nutricionais e protege as pessoas contra doenças infecciosas
Fotografia: Victória Quintas | Huambo

O acesso a uma alimentação suficiente, segura, nutritiva e que atenda às necessidades e preferências do organismo, de modo a propiciar uma vida activa e saudável, pressupõe segurança alimentar, obtida através de boas práticas agrícolas. Para que esta seja um facto no seio das comunidades, especialistas em agronomia têm estado a prestar apoio técnico aos camponeses nas diversas localidades rurais da província do Huambo.
A Faculdade de Ciências Agrárias (FCA), com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura (FAO), no âmbito do projecto FAO – terra, criou, há dois anos, o Gabinete de Estudos para a Agricultura Camponesa, cujo objectivo é a extensão rural.
Nesse projecto, a FAO e a FCA prestam apoio aos camponeses, no sentido de os ajudar a seguirem boas práticas agrícolas, através de seminários, com vista à produção de alimentos em quantidade e com qualidade.
A experiência piloto foi lançada na comunidade de Ngongowinga, próximo da fazenda experimental da FCA, onde foram feitos trabalhos com os camponeses no âmbito da segurança alimentar.
De acordo com o decano da Faculdade de Ciências Agrárias, Guilherme Pereira, os trabalhos de boas práticas agrícolas são realizados nas lavras dos próprios camponeses.  
“Eles estão a sentir a diferença relativamente à produção que tinham anteriormente, e são sensibilizados no sentido de evitarem queimadas e outras práticas agrícolas que atentem contra o meio ambiente e possam fazer o uso mais racional dos solos e obter como resultado maior qualidade na produtividade, com menos gastos”, disse o decano.
Até agora, a agricultura praticada no Huambo tem sido de subsistência, disse Guilherme Pereira, acrescentando que a população precisa de incrementar, ter apoio do governo e de vários intervenientes, para que se passe dessa forma de produção para uma outra superior, com a qual o camponês, para além de produzir alimentos para consumo próprio, possa ter também alguma rentabilidade e melhorar o seu nível de vida.
 “No programa de segurança alimentar, o papel da Faculdade de Ciências Agrárias é o de produzir a massa científica, trabalhar com os pesquisadores que temos, tanto angolanos como estrangeiros, no sentido de dar uma formação mais integral aos futuros engenheiros agrónomos e florestais, para que possam desempenhar um papel transcendental no âmbito da segurança alimentar no futuro”, realçou.
          
Fazenda experimental

O decano da Faculdade de Ciências Agrárias da Chianga, no Huambo, disse que este ano, na fazenda experimental da faculdade, foram semeados mais de três hectares de hortícolas, que posteriormente serão comercializados para angariar recursos para a própria fazenda e conseguir com isso imputes agrícolas, principalmente o calcário para a correcção dos solos, já que não foi possível fazerem-se as análises ao solo na presente campanha, por falta de recursos de laboratório.
“Todos os estudantes da Faculdade de Ciências Agrárias estão vinculados à área experimental onde desenvolvem os seus projectos de pesquisa e produzem alimentos para auto-sustento da comunidade universitária e para a população da província”, disse.
O responsável revelou que estão a ser criadas condições na faculdade para a montagem de laboratórios e, em conjunto com o Instituto de Investigação Agronómica, serem feitas análises para que se possa ter culturas com maior qualidade e assegurar maior produção.
“Os futuros engenheiros agrónomos têm a responsabilidade de produzir alimentos de qualidade para a população, tendo em conta que um dos problemas que se vive em Angola é alimentar e a Faculdade de Ciências Agrárias é a responsável pela formação desses engenheiros”.
 
ADRA apoia projecto

 
A Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA), antena Huambo, possui um programa de segurança alimentar que apoia a divulgação da Estratégia Nacional de Segurança Alimentar nos municípios onde funciona, de acordo com a directora da ADRA no Huambo, Maria de La Sallete.  
Anteriormente, a segurança alimentar era trabalhada na vertente da produção, para a qual forneciam instrumentos de trabalho, sementes e fertilizantes para que as famílias pudessem produzir.
“Se olharmos para o verdadeiro conceito de segurança alimentar, notamos que não passa simplesmente pela produção de alimentos, mas sim pelo acesso permanente a estes, com qualidade e em quantidade, de forma a que estejam sempre disponíveis, para que possamos garantir o direito humano à alimentação”, disse Maria de La Sallete  A ADRA, segundo ela, facilita o acesso aos meios de produção às populações rurais. Não distribuem directamente os imputes agrícolas, mas facilitam a aproximação, mediante o diálogo com as instituições que devem fazê-lo, como é o caso das Estações de Desenvolvimento Agrário, que existem para prestar assistência técnica aos camponeses.
“Nós facilitamos a ligação entre os camponeses e essas instituições, para que tenham acesso aos seus serviços. Por outro lado, facilitamos o acesso aos créditos, através dos bancos e outras instituições financeiras, como caixas de crédito, que se podem constituir a nível das comunidades. Os camponeses obtêm os imputes através dos créditos e a assistência técnica através das Estações de Desenvolvimento Agrário”, esclareceu a directora da ADRA antena Huambo.
Tal como outras Organizações Não-Governamentais, a ADRA trabalha na vertente da cidadania, que tem como objectivo dar a conhecer às pessoas que a alimentação é um direito, facilitar o acesso às leis, sobretudo no apoio à divulgação da estratégia de segurança alimentar, que é um documento que foi elaborado pelo Governo e que deve ser do conhecimento de todos.
A segurança alimentar, segundo disse La Sallete, não passa só pela produção de alimentos, mas também pela educação nutricional. As pessoas têm de saber como combinar os alimentos, para que tenham diariamente as calorias necessárias ao funcionamento saudável do organismo. “Sabemos que há uma corrida para a ocupação de terras, principalmente nas antigas fazendas. Os camponeses precisam de assegurar que a terra está disponível para produzir os alimentos e ter segurança alimentar”.
A ADRA trabalha com um total de 84 associações de camponeses nos municípios da Caála, Bailundo e Longonjo, beneficiando cerca de 13 mil famílias.
 
Mudanças no acesso à alimentação
 
Os especialistas consideram existirem mudanças significativas em relação ao acesso à alimentação, graças à paz, à livre circulação de pessoas e bens, bem como ao acesso às áreas de cultivo, que outrora estavam restringidas. 
A nível rural, os alimentos são produzidos e vendidos nos principais mercados da província. A directora da ADRA considera que a oferta alimentar cresceu significativamente. O aumento do número de empresários locais e estrangeiros fez também com que o volume de alimentos disponíveis para a população aumentasse. Á mistura com produtos importados, está disponível no mercado o que é básico, como o arroz, o açúcar e o óleo, que outrora escasseavam, e hoje, como a oferta é significativa, há uma tendência para a redução dos preços.
A ADRA trabalha em três programas: o de desenvolvimento rural, o de educação formal e o do desenvolvimento organizacional e projectos, que trabalha na temática de segurança alimentar. 
Ilídio Barbosa, representante da FAO no Huambo, considera que a nível da província a situação alimentar ainda não é tão estável como seria de desejar, razão pela qual existe ainda intervenção de muitos actores a apoiar o Governo no combate à fome e à pobreza.
O representante da FAO disse ser necessário maior incentivo do Governo à agricultura, aumentando o investimento no sector, tendo em conta que mais de 70 por cento da população do país é camponesa e necessita de apoio, que tem de vir de todo o lado, mas sobretudo do Executivo.
Ilídio Barbosa referiu que a FAO está a desenvolver um programa especial de segurança alimentar, que tem três componentes: a que funciona em Luanda, a das boas práticas de segurança alimentar e a de escolas de campo, que funcionam a nível das províncias do Huambo e Bié.
As boas práticas de segurança alimentar visam incutir técnicas de melhoria da produção alimentar. O projecto está a ser desenvolvido nas localidades do Bailundo, Caála, Longonjo e Ngongowinga, em parceria com a ADRA e o Instituto de Desenvolvimento Agrário.
Com as boas práticas de segurança alimentar podem ver-se culturas bem alinhadas, utilização do compasso, a densidade da sementeira melhorada, o camponês já faz cálculos para adubação e obtém melhores resultados na produção agrícola. Nessas acções de formação ensinam-se novas técnicas de produção.
“Temos escolas de campo em cinco municípios, mas a ideia é formar escolas de campo em todos os municípios, a pedido da direcção do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA). A metodologia foi aceite a nível do governo e dos camponeses”, disse Ilídio Barbosa. 

Combinação alimentar

Uma alimentação, quando adequada e variada, previne deficiências nutricionais e protege as pessoas contra doenças infecciosas, pois os nutrientes podem melhorar as defesas do organismo. Os alimentos devem ser bem combinados para uma boa saúde. Uma alimentação saudável deve conter fibras, hidrocarbonetos, proteínas, gorduras e colesterol.   
Os alimentos vegetais, como grãos, tubérculos e raízes, as frutas, verduras e legumes, contêm fibras, benéficas à função intestinal e reduzem o risco de doenças cardíacas.   As frutas, legumes e vegetais são ricos em vitaminas, minerais e fibras. O feijão, soja, grão-de-bico, lentilha, são fundamentais para a saúde, por serem alimentos ricos em proteínas vegetais.
As proteínas de origem animal, como carne, leite e derivados, aves, peixe e ovos, contêm todos os aminoácidos de que os seres humanos necessitam para o crescimento e manutenção do corpo. 
As gorduras são de diferentes tipos e podem ser, ou não, prejudiciais à saúde, dependendo do tipo de alimento. A gordura saturada está presente em alimentos de origem animal, razão pela qual o seu consumo deve ser moderado.

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