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Táxis dão trabalho a milhares de jovens

António Canepa|Huambo

Os táxis continuam a ser a principal oferta de transportes públicos na cidade do Huambo e na província.

Os taxistas começam a sua actividade ao nascer o dia e só terminam ao fim da tarde quando fazem contas com o patrão
Fotografia: Francisco Lopes

Os táxis continuam a ser a principal oferta de transportes públicos na cidade do Huambo e na província. Com este serviço nasceram profissionais que além de cobrarem os “bilhetes” são também angariadores de passageiros.

Começam os seus pregões quando nasce o sol e se calam quando o carro “encosta”, ao início da noite. Trabalham muito, ganham pouco, mas ainda conseguem custear os estudos ou ajudar no sustento das famílias.
O mercado da Quissala ou da “Alemanha”, nos arredores da cidade do Huambo, é o destino dos táxis porque é o maior da província. Os angariadores esgotam os lugares nos táxis, num abrir e fechar de olhos. O melhor período vai do nascer do sol às dez da manhã, quando milhares de vendedores levam as mercadorias para as suas “bancadas”. Depois dessa hora o movimento é feito com clientes.
À tarde, entre as 15 e as 18 horas os passageiros de táxis são outra vez os vendedores, que regressam a casa com as mercadorias que não venderam. Nas “horas de ponta” não é preciso fazer grande esforço para chamar os clientes e esgotar a lotação dos táxis. Os angariadores têm de fazer um grande esforço nas horas mortas. Eles sabem onde estão os clientes que precisam de viajar na sua rota e convencem-nos a viajar nos seus táxis.
O taxista Alberto Kossengue diz que para o êxito da actividade conta muito a audácia, mas “a esperteza e a forma de ser do cobrador é fundamental. A lotação rápida da viatura é da sua responsabilidade e depende da sua habilidade apresentar o dinheiro ao patrão antes do tempo estipulado”.
Quanto mais cedo o taxista e o cobrador conseguirem apurar a verba do patrão, mais tempo têm para fazer viagens cujo produto é exclusivamente para eles. Ao fim da tarde têm de entregar o táxi e acabou o negócio.
"Os valores que temos de entregar ao patrão variam entre 14 e 15 mil kwanzas. Temos de apurar essa verba o mais cedo possível para depois facturarmos. Isso depende da forma como o cobrador exerce o seu trabalho", afirmou.

O bom cobrador

Um bom cobrador deve ser rápido, perspicaz, atento e educado: “o cobrador tem de respeitar os clientes, ajudá-los a colocar as suas mercadorias dentro do táxi, porque senão muitos fogem”, diz Alberto Kassongue.
Um pormenor importante nesta actividade é a relação entre o motorista e o cobrador. Alfredo Adão, angariador de clientes e cobrador diz que os dois têm de ser “amigos, verdadeiros irmãos, caso contrário o trabalho não corre bem. Não pode haver tensão entre os dois, e também os clientes devem sentir paz, harmonia e um ambiente familiar na viatura”.
Os clientes queixam-se da falta de respeito por parte de muitos cobradores, que utilizam uma linguagem pouco urbana nas viaturas e apresentam-se mal vestidos e sem cuidados de higiene.
Angariar clientes é difícil porque há cada vez mais táxis no Huambo. Por isso, nas principais paragens da província há grandes brigas entre angariadores. A disputa pelos passageiros é feroz.
Além dos conhecidos pregões, os angariadores utilizam”truques” para chamar os clientes, diz o cobrador Joaquim Domingos. Os táxis são o principal meio de transporte para os trabalhadores, funcionários públicos, clientes de mercados ou estudantes. Há medida que circulam na cidade mais “Hiace” também são criados mais postos de trabalho. Enquanto a indústria no Huambo espera pela energia eléctrica com regularidade. É preciso trabalhar no que aparece. E angariar clientes para os táxis é a saída para milhares de jovens.

Ganhos imediatos

Cobradores e taxistas preferem fazer este serviço porque os ganhos são imediatos. No final de cada jornada de trabalho conseguem amealhar mais de mil kwanzas o que ajuda a sustentar a família e custear despesas pessoais. Há casos de taxistas e cobradores que conseguiram empregos fixos mas regressaram rapidamente porque não tinham paciência para esperar pelo fim do mês para receberem o salário.
Joaquim Domingos, 18 anos, é cobrador de táxis há três anos. Escolheu esta actividade para não ficar em casa, uma vez que não tem emprego e tem de ajudar a família. O seu trabalho começa às seis da manhã, período em que se regista maior número de clientes, e só termina ao fim da tarde. Quando encosta o táxi leva para casa 1.500 kwanzas.  “Prefiro trabalhar como cobrador porque ganho dinheiro todos os dias”, disse Joaquim Domingos. 
Os cobradores também definem as rotas dos táxis e programam os horários dos percursos dos bairros para os principais mercados da cidade. Alguns jogam “kixiquila” e se tiverem sorte ao jogo conseguem dinheiro para realizar os projectos pessoais.
A maioria dos cobradores diz que as melhores rotas são as do São João e Bom Pastor para o mercado da “Alemanha” Mas há também aqueles que preferem rotas mais distantes, fazendo percursos intermunicipais, ou provinciais, como é o caso dos que fazem viagens entre a cidade do Huambo e o Bailundo, a 600 kwanzas por passageiro. Também fazem a rota para Waku Kungo, na província do Kwanza Sul, por 1.500 kwanzas.
Evaristo Pires, 22 anos, é cobrador há apenas três meses e antes de ser cobrador trabalhava como pedreiro com o irmão. Prefere fazer rotas longas para “fechar” o dia mais rápido. Enveredou pela actividade de cobrador porque lhe permite levar diariamente dinheiro para casa. Neste momento trabalha no “Hiace” do irmão mais velho e factura mil kwanzas por dia.
Justo Buta, 19 anos, é estudante da sexta classe no período nocturno, vive no bairro do Bom Pastor. Sai de casa às cinco da manhã para trabalhar no táxi e só termina por volta das 19 horas. Factura diariamente 1.200 kwanzas. O dinheiro dá para pagar a renda do quarto, comer, comprar vestuário e custear os estudos.
Moisés Arão, de 28 anos, é cobrador há quatro meses. Antes de ser cobrador, Moisés Arão vendia no mercado da Canata, no bairro de S. João, mas com a sua transferência para a área do Cambiote, arredores da cidade, decidiu trabalhar como cobrador no “Hiace” de um parente. Tem mulher e três filhos, por isso o que ganha no táxi “é curto” para fazer face às despesas. Anseia um emprego melhor, mas enquanto não aparece, vai chamando clientes para o táxi.
Nos dias que correm bem, Moisés Arão factura mais de mil kwanzas, principalmente nas rotas entre o mercado da “Alemanha” e o S. João ou o bairro da Chiva. Quanto ao dinheiro do patrão, Arão diz que até às 16 horas fica ganho. A partir dessa hora tudo o que entra é para a tripulação do táxi.
A maioria dos cobradores abordados trabalha num carro fixo, mas existem os que têm de procurar vaga nos táxis que por qualquer razão estão sem cobrador. Esses saem de casa ainda de noite para serem os primeiros a apanhar os lugares vagos.
Isaías Pinto é cobrador num táxi que faz a rota do Bairro de S. João para o mercado da “Alemanha”. Tem de sustentar a mulher e duas filhas: “o que ganho aqui é pouco mas mais vale este trabalho do que andar a roubar.  A paz que temos vai trazer mais oportunidades e então a nossa vida melhora. Temos de ser pacientes”.
Maximiliano Longondjo vendia refrigerantes e gelados na rua, mas os rendimentos eram diminutos. Foi para angariador e cobrador num táxi. Ao fim do dia leva para casa 1.500 kwanzas: "não chega para sustentar a família, mas as coisas estão a melhorar muito. Em breve vão aparecer empregos mais bem remunerados para todos. Eu tenho memória e sei que há quatro ou cinco anos estávamos muito pior".

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