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Uma aposta séria na alfabetização

Victória Quintas | Huambo

O número de mulheres interessadas em aprender a ler e escrever é cada vez maior no Huambo.

Mulheres numa sala de aula de alfabetização num dos municípios do Huambo
Fotografia: Victória Quintas

O número de mulheres interessadas em aprender a ler e escrever é cada vez maior. As salas de alfabetização, distribuídas pelos vários pontos da província do Huambo, acolheram entre 50 a 60 pessoas, 90 por cento das quais do sexo feminino, durante a primeira fase do Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE), de 2010, que terminou em Junho e alfabetizou, na província, 13 mil adultos.
“No princípio, os alfabetizandos são um pouco retraídos, mas com o passar do tempo ficam à vontade e mostram-se progressivamente mais interessados em aprender”, disse a professora Justina Candembo.  
“A agora já sei ler um pouco e quero continuar a assistir às aulas, para um dia ser também alfabetizadora e ensinar outras pessoas”, afirmou a jovem Adélia, que tem aulas na escola do bairro Benfica e considera ter concluído com êxito a primeira etapa.
Um dos poucos homens que a nossa reportagem encontrou a ter aulas na referida escola foi Germano, de 19 anos, que com alguma timidez contou que antes vivia em Luanda, onde nunca estudou. Agora está a recuperar o tempo perdido, aprendendo a ler e escrever “para ser alguém” na sociedade.     
Assim que terminam a primeira etapa, os instruendos são incentivados a avançar para o método seguinte, o “Sim eu posso” ou o pós-alfabetização, que vai da 2ª à 6ª classe.   
O programa abrange todos os municípios, comunas, povoações, aldeias e ombalas e prevê instruir, até ao fim deste ano, 27.600 adultos, de acordo com o chefe da Secção Provincial de Alfabetização e Educação de Adultos, Pedro Chiyaya.
 
Programa "Sim eu posso" 
 
O programa de alfabetização conta com o apoio de assessores cubanos, que introduziram a metodologia de auto-estima “sim eu posso”, cuja vigência se prevê, segundo Pedro Chiyaya, ser estendida até 2012, no quadro da parceria Angola/ Cuba.
No método “Sim eu posso”, que arrancou em Junho de 2009, os alunos aprendem a ler e a escrever através dos audiovisuais, com o acompanhamento de um facilitador, que explica e esclarece as dúvidas que vão surgindo.
Cada etapa de alfabetização tem a duração de três meses e neste período de tempo os alunos aprendem o alfabeto, os números e formam palavras, para depois construírem frases, formular perguntas, escrever solicitações e cartas.
“A segunda etapa de alfabetização começa agora em Agosto, com a perspectiva de melhorar a qualidade do ensino na vertente da educação de adultos, a metodologia e a formação de professores alfabetizadores”, disse Pedro Chiyaya. 
O programa tem igualmente o apoio de outros parceiros, como igrejas, Organizações Não-Governamentais (ADRA, a DW, através do projecto Omunga), JMPLA e Organização da Mulher Angolana (OMA). Em 2009, o PAAE alfabetizou 24 mil adultos.
 
Mestres voluntariosos
 
Cerca de dois mil voluntários asseguram o projecto de alfabetização e aceleração escolar, na província do Huambo, para além dos 466 contratados, esclareceu o responsável do sector.
A inexistência de infra-estruturas próprias faz com que em algumas escolas ou centros comunitários se improvisem turmas que funcionam debaixo das árvores. Segundo Pedro Chiyaya, o aperfeiçoamento e formação dos alfabetizadores pressupõe um fundo de maneio de que o programa não dispõe.
 “O número de alfabetizadores a formar é superior aos recursos de que dispomos. Faltam equipamentos e quando chega o televisor é necessário que se tenha um gerador de electricidade, ou uma placa solar”, acrescentou Pedro Chiyaya.

Verbas são exíguas

O programa conta com o apoio do Ministério da Educação, que disponibiliza uma pequena verba não especificada, mas este ano ainda não o fez. “Gostaríamos de poder contar com o apoio do governo da província, principalmente na aquisição de material, porque sem recursos teremos sempre constrangimentos”, disse.
A falta de transporte para facilitar a deslocação dos alfabetizadores é outra dificuldade com que o sector se debate. A última vez que dispuseram de uma viatura foi em 1996.
Para Chiyaya, apoiar a alfabetização é não só ensinar as pessoas a ler e escrever, mas sobretudo um grande contributo para o desenvolvimento sustentável do país porque, quanto mais pessoas forem letradas, menos o país gastará com a contratação de mão-de-obra especializada estrangeira.
Por isso, gastar hoje algum dinheiro para tirar esses milhares de pessoas do analfabetismo é o primeiro passo para se construir uma Angola mais capaz de enfrentar os grandes desafios do futuro, considera o responsável.
Pedro Chiyaya recordou que os países que hoje lideram o mundo, alguns sem quaisquer recursos naturais, como o Japão, apostaram na formação dos seus recursos humanos para serem o que são hoje: líderes mundiais. “Angola, com a maioria da sua população jovem, tem, pois, de apostar na formação para que o nosso futuro seja brilhante”, defendeu, apelando de seguida aos homens a seguirem o exemplo das mulheres e comparecerem em massa às aulas de alfabetização. “Deixem de ter vergonha e juntem-se às vossas parceiras nas aulas de alfabetização, porque o saber não tem idade e é um passo importante no combate à pobreza e à marginalização”, disse.  

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