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Universidade em expansão

Fernando Cunha | Huambo

A construção da cidade universitária da Universidade José Eduardo dos Santos encontra-se em fase de estudos. Em entrevista ao Jornal de Angola, o reitor Cristóvão de Carvalho Ferreira Simões disse que o campus está a ser projectado para albergar mais de 30 mil alunos.   

Magnifico Reitor da UJES Cristóvão de Carvalho Simões
Fotografia: Fernando Cunha | Huambo

A Universidade José Eduardo dos Santos pertencente à quinta Região Académica do Ensino Superior que engloba as províncias do Huambo, Bié e Moxico. O orçamento anual é de 300 milhões de kwanzas. Em entrevista ao Jornal de Angola, na cidade do Huambo, o reitor, Cristóvão de Carvalho Ferreira Simões, garantiu que se nos próximos anos a verba for atribuída com regularidade a “Região Académica” pode atingir, até 2015, sete mil alunos e é possível criar quatro cursos de mestrado nas áreas das Ciências Jurídicas, Económicas, Engenharia Florestal e Medicina Veterinária. A universidade foi criada em 12 de Maio de 2009.

Jornal de Angola – Quanto necessita anualmente a Universidade José Eduardo dos Santos para pôr a funcionar as suas oito unidades orgânicas e desenvolver novos projectos de investigação científica?

Cristóvão Simões – A Universidade José Eduardo dos Santos necessita, nestes seus primeiros anos de existência, anualmente, de 300 milhões de kwanzas. Cada uma das suas oitos unidades orgânicas necessita de dez milhões de kwanzas por mês para ter os seus cursos a funcionar sem quaisquer percalços. Para 2011 a proposta orçamental é a mesma e se as verbas forem atribuídas, são empregues no desenvolvimento das nossas unidades orgânicas com a montagem de novos laboratórios e na formação de professores, apoiando-os nos seus cursos de mestrado e doutoramento e na melhoria das condições de trabalho.

JA – Como decorre a inserção regional da universidade?

CS – O processo de implantação decorre de acordo com os planos e objectivos traçados pelo Executivo, independentemente das dificuldades que foram surgindo ao longo deste primeiro ano de vida. Dificuldades estas que têm a ver com alguns factores que são cruciais ao desenvolvimento da universidade. Temos dificuldades com o corpo docente, que é maioritariamente formado por professores estrangeiros, grande parte de nacionalidade cubana, que asseguram em quase 100 por cento os cursos de Medicina, Enfermagem e Engenharia. Até nos cursos de Economia e Veterinária, onde já leccionam alguns angolanos, temos professores estrangeiros. Isso só no Huambo. Nos Institutos Superiores do Bié e Moxico, o corpo docente é todo composto por professores de nacionalidade cubana. Temos pela frente o grande desafio de formar, o mais aceleradamente possível, professores angolanos.

JA – O que é preciso fazer para que o corpo docente seja formado, maioritariamente, por professores angolanos?

CS – Estamos a dar passos muito concretos para atingir esse objectivo. Temos muitos quadros com qualidade para a docência, mas não é fácil enquadrá-los porque são obrigatórios concursos públicos para a sua contratação. Isso não depende da universidade, mas sim do Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social, do Ministério das Finanças e do próprio Ministério do Ensino Superior. Se tivermos necessidade de contratar professores fora do âmbito do concurso público, temos de ter meios financeiros próprios para poder pagar os seus honorários, e neste momento a universidade não tem meios s financeiros próprios para o efeito.
JA – Qual o número actual dos docentes da Universidade José Eduardo dos Santos?

CS –
Temos actualmente 232 docentes para um universo de 3.372 alunos inscritos neste ano lectivo. Em relação aos docentes, nós temos um pouco de tudo, desde licenciados com médias igual ou superior a 14 valores, que são a maioria e alguns mestres e doutores que constituem a parte pequena do nosso corpo docente. Temos em marcha um projecto que visa aumentar o número de professores com mestrados e doutoramentos. Sabemos que é um processo que leva tempo, por isso mesmo, nos próximos cinco anos ainda vamos funcionar com o auxílio de muitos licenciados, alguns mestres e poucos doutores.

JA – Que medidas foram tomadas para resolver a falta de professores na Faculdade de Direito no Huambo?

CS -
Recorremos às instituições do Estado da província em que há juristas, que foram recrutados em regime de colaboração para leccionar na Faculdade de Direito. Para alguns temas mais específicos que requerem especialistas com bastante tarimba, a Faculdade de Direito da Universidade José Eduardo dos Santos ainda depende de professores que vivem em Luanda, na sua maioria ligados contratualmente à Universidade Agostinho Neto. Mas estamos melhor que no passado, porque os alunos eram obrigados a deslocar-se a Luanda para prestar provas. Nos dias que correm fazemos deslocar os professores ao Huambo, para aqui ministrarem as aulas e realizarem as provas. A Faculdade de Direito da Universidade José Eduardo dos Santos realiza toda a sua actividade lectiva no Huambo. Os alunos, as provas e os programas já não vão a Luanda.

JA – O que se passa, concretamente, na Faculdade de Direito também ocorre nas outras unidades orgânicas da Universidade José Eduardo dos Santos?

CS – Existem problemas mas em escala reduzida. A faculdade que mais se aproxima à de Direito é a de Economia, mas em percentagem mais reduzida. As Ciências Agrárias e Veterinária deixaram de viver esta situação ainda no tempo em que estavam ligadas à Universidade Agostinho Neto.

JA – Como funcionam os cursos ministrados nas outras unidades orgânicas?

CS –
Vão decorrendo dentro do perspectivado, apesar de algumas dificuldades. O curso de Medicina é o que vai melhor porque ainda está no seu começo, com apenas alunos do primeiro e segundo anos. No primeiro ano temos 70 alunos e no segundo 75. Tem um corpo docente 100 por cento cubano e as aulas funcionam regularmente no Hospital Universitário. Temos problemas com o equipamento da faculdade. Faltam laboratórios para as aulas práticas. Quando chegarmos ao terceiro ano, aí sim, vamos ter muitos problemas. E digo-lhe isso porque sou médico. Os alunos vão necessitar de trabalhar em ambiente clínico hospitalar. O hospital da faculdade ainda não está equipado. Vai levar anos a equipar. E nós, já a prever isso, firmámos um convénio com o Hospital Central do Huambo, que vai apoiar na docência do terceiro ano. Os professores que vão leccionar o terceiro ano de Medicina são incluídos no ambiente do Hospital Central e os nossos alunos vão trabalhar lá com eles.

JA – Os cursos de Enfermagem Superior e de Laboratório Clínico continuam vinculados ao Instituto Superior Politécnico?

CS - Também é nossa intenção juntar ao curso de Medicina, o de Enfermagem Superior e o de Laboratório Clínico, que estão no Instituto Superior Politécnico. Já em 2012 pensamos desenvolver um curso de Arquitectura no Instituto Politécnico do Huambo, com o apoio da Faculdade de Arquitectura do Porto (Portugal), e mais tarde introduzir os outros ramos de engenharia de construção. Para a Faculdade de Ciências Agrárias, além do curso de Agronomia, que é um curso clássico, introduzimos este ano o curso de Engenharia Florestal, que conta com o apoio da Universidade de Córdoba, Espanha, ao passo que em relação ao de Veterinária, além do curso clássico, vamos implantar um projecto sobre Tecnologia Alimentar, que vai dar origem a um mestrado na área de Tecnologia dos Alimentos, que tem o apoio da Universidade de Madrid. Para a Faculdade de Economia, é nossa intenção introduzir no seu programa cursos de pós-graduação em Gestão e Administração, a exemplo da Faculdade de Direito, mas com o apoio de uma Universidade de São Paulo, Brasil.         

JA – Em que situação se encontram as unidades orgânicas no Bié e Moxico?

CS – A do Bié apresenta menos problemas, já que tem apenas o curso de Enfermagem Superior, com 67 alunos e um corpo docente inteiramente composto por professores cubanos. Felizmente, temos no Bié muito boas instalações, bem apetrechadas para o funcionamento do curso, um mérito do Governo Provincial. No Moxico, a situação é diferente, porque o núcleo de lá começou a trabalhar com mais de um curso, Enfermagem Superior, Laboratório e mais quatro cursos de educação, Física, Química, Geografia e Matemática. Tudo isso na Escola Superior Politécnica, perfazendo um total de 476 alunos. Houve uma grande ansiedade com a chegada do ensino superior ao Moxico, o Governo Provincial preparou, com muita seriedade, esta nova era para a província e está a construir um complexo escolar que vai ser equipado em consonância com os cursos que já são ministrado no núcleo do Moxico.

JA – Este ano lectivo a universidade tem mais de três mil alunos. Qual a meta a atingir nos próximos cinco anos?

CS - Só neste primeiro ano de actividades admitimos mais de mil alunos, que juntando àqueles que absorvemos da Universidade Agostinho Neto, perfaz um total de 3.372 alunos na Região Académica, que engloba as províncias do Huambo, Bié e Moxico. No próximo ano lectivo, a estes 3.372, é nossa intenção acrescentar mais 1.000 a 1.500 novos alunos, o que nos faz prever um aumento geral para quase cinco mil. Em 2012 desejamos chegar à casa dos 6500 alunos e dentro de cinco/seis anos é nossa pretensão atingirmos os dez mil. Mas tudo isso vai depender do investimento em infra-estruturas, incentivos financeiros que possam servir para aumentar o nível académico dos nossos professores e materializar o grande sonho de construção do Campus Universitário.

JA – E para quando a construção do Campus Universitário?

CS – Já temos identificado o terreno para a implantação do futuro Campus Universitário. São mais de 700 hectares na área da Comuna da Calima, que nos foram atribuídos pelo Governo Provincial. Neste momento estão já em curso os estudos de viabilidade do projecto para a sua construção. Está a ser projectado para albergar mais de 30 mil alunos, números que a Universidade José Eduardo dos Santos pretende atingir nos próximos 15 anos. Vai albergar todas as faculdades que temos e aquelas a criar; instalações desportivas, lares de estudantes e ainda zonas experimentais para as faculdades que necessitam de trabalhar os solos. Isso vai mobilizar, seguramente, enormes recursos financeiros, mas se o curso projectado for seguido sem muitas interrupções, auguramos ter o nosso Campus Universitário no ano de 2020.

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