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Vandalismo ameaça o verde no Jardim da Cultura do Huambo

O Jardim da Cultura, situado no ‘coração’ da Cidade Alta do município sede, Huambo, é um cartão de visita da província. O local conserva uma arquitectura moderna e dispõe de excelentes condições para o lazer em família e para a realização de actividades culturais. A versatilidade do espaço permite ainda que o mesmo sirva para sessões de venda de obras discográficas ou literárias, peças de artesanato, quadros e artigos similares.

Fotografia: Edições Novembro

“Quando se entra no perímetro deste jardim, pela quantidade de árvores, há uma sensação de paz, harmonia e tranquilidade, apesar do seu estado de abandono, fazendo-nos sentir como se estivéssemos no campo”, descreve um jovem que diariamente comercializa peças de artesanato no local.
Tal como este jovem tem no Jardim da Cultura o ponto ideal para a venda das suas obras, alguns fotógrafos, em busca de sustento, encontram no espaço um perfeito “estúdio fotográfico a céu aberto”, em que muitas pessoas, para eternizar os momentos vividos no local, contactam estes profissionais para sessões de fotos. Os preços dos retratos variam entre os 200 e os mil kwanzas, dependendo dos acabamentos, com ou sem molduras.
Porém, o Jardim da Cultura, para desencanto de muitos munícipes do Huambo e não só, caminha, a passos largos, para um notório estado de degradação em todos aspectos. Desde as componentes infra-estruturais, onde o sistema de irrigação e iluminação já não funcionam, à destruição dos assentos, cestos de lixo e relva, o que não funciona bem propicia “condições favoráveis”, como disse um jovem frequentador, para o surgimento de “outras actividades”, em detrimento daquelas para as quais o jardim foi idealizado.
“É desolador o estado de degradação do Jardim da Cultura. As autoridades da província têm de (dentro das políticas de investimentos públicos), procurar reabilitar ou requalificar este verdadeiro cartaz da Cidade Vida”, sugeriu um fotógrafo que por gentileza cedeu as fotos para ilustrar esta matéria.
Para os habitantes, a degradação da infraestrutura constituiu um verdadeiro retrocesso, porquanto, há alguns anos, passear pelo Jardim da Cultura representava, para milhares de munícipes, “um verdadeiro retemperar de energia e puro lazer, sobretudo à saída da periferia da cidade”, como reforça um vendedor de peças de artesanato. Infelizmente, nos dias que correm o espaço “tem sido alvo de vandalismo, não oferecendo as mesmas condições de atracção que apresentava há alguns anos, por falta de fiscalização”, lamentou.
Cláudia Sacondombolo e Paulo Nunda são munícipes e frequentadores assíduos do Jardim da Cultura, por motivos académicos. Consideram ser um espaço excelente para o lazer e recreio no centro urbano da cidade, mas “o tratamento que tem merecido, retirou-lhe o brilho de outros tempos”, enfatizam, ao mesmo tempo que se mostram desapontados pelo facto de o jardim se ter “transformado num mercado de venda de produtos diversos, o que acelera a degradação das infra-estruturas” perante o olhar impávido das entidades responsáveis.
Se os fotógrafos ainda têm no Jardim da Cultura um local de sobrevivência, graças aos turistas e populares que procuram os seus serviços, o mesmo não pensam algumas pessoas que se abstêm de continuar a guardar lembranças do espaço porque as mudanças que aconteceram reduziram-no a “um lugar vulgar, onde actividades como venda e consumo de drogas e prostituição se tornaram práticas comuns”.
“Há muitos jovens que fazem deste espaço um ponto de encontro para idealizarem acções criminosas. Algumas pessoas aproveitam para abandonar aqui crianças, em horas de pouco movimento. Há também crescente proliferação, sobretudo à noite, dos casos de prostituição, envolvendo menores”, relatam.

Aumentam os casos de menores no mundo da prostituição

Os casos de prostituição, que se verificam no Jardim da Cultura, no mercado do Himalaia e artérias da cidade do Huambo, revelam um dado assustador: o aumento de menores, algumas de 12 anos, neste sub-mundo. “São sobretudo crianças. Custa acreditar naquilo que está a acontecer nesses locais”, desabafou um cidadão que frequenta uma discoteca nas cercanias do Jardim da Cultura. Contactada pelo Jornal de Angola, a directora do Gabinete Provincial da Acção Social, Família e Igualdade de Género, Frutuosa de Jesus Cassinda, revelou números concretos de cidadãs que se dedicam à prostituição: “Trinta e duas mulheres estão catalogadas como sendo habituais nesta prática. Deste número, temos conhecimento que pelo menos doze meninas, com idades compreendidas entre os 12 e 17 anos, também vendem o corpo como forma de sustento. Essa situação é um perigo para a integridade física e moral das adolescentes, além de comprometer o futuro delas”, apontou.
“As igrejas, associações da sociedade civil, psicólogos, sociólogos, antropólogos, jornalistas e outras entidades devem unir sinergias no sentido de se trabalhar, de forma conjunta, na sensibilização das famílias para que promovam o diálogo e a convivência pacífica, visando a edificação de uma sociedade alicerçada nos valores éticos, morais e culturais”, apelou a directora.
A falta de emprego é apontada, na generalidade, por muitas destas jovens como a principal causa para enveredarem pela prostituição. “É fácil as pessoas, que não vivem as mesmas dificuldades que muitas de nós, apontarem-nos o dedo. Esta é a única forma que encontramos para sobreviver e não é por vontade nossa. Muitas das minhas colegas até têm famílias constituídas”, conta-nos uma jovem, de 24 anos, mãe de três filhos. “Minha irmã, esta vida é dura, mas não temos alternativa!”, disse.

Perder o brilho

Os munícipes do Huambo, abordados pelo Jornal de Angola, mostraram-se inconformados com o actual estado dos espaços verdes e de lazer, caracterizados por uma acentuada degradação, causada pelo mau uso das suas infra-estruturas e negligência dos próprios citadinos. Afirmam que, com tudo isso, a cidade “está a perder o seu brilho e beleza” de outros tempos.
A estufa-fria, outrora considerada um dos espaços verdes mais lindos da cidade, caminha para o mesmo descaso e degradação. O local pode conhecer outro alento, na opinião de um citadino, se os frequentadores do espaço se pautarem por boa conduta e responsabilidade enquanto usuários. O recado vai sobretudo para os estudantes que por aí ficam, durante várias horas.
“Se investirmos nos espaços de lazer da nossa cidade, estaremos a ganhar porque iremos com isso atrair e receber muitas visitas para a província e por via disso criar rendimentos”, disse Ricardo Paulino, que defende a necessidade de definir “os locais e eventos em que se permite a venda de bebidas alcoólicas. Isso não deveria acontecer em espaços cobertos de relva. Frequentemente danificam as plantas com quebras de garrafas em locais onde se deveria exigir outros cuidados”, concluiu.
Celina Vita, Ricardo Paulino Kapula e Maria Albina, esta última visitante proveniente do Namibe, são unânimes em assegurar que deve existir um trabalho de “cooperação com os serviços comunitários da administração para dar solução e melhorar a imagem da cidade”.
No seu entendimento, “o mau estado dos locais de lazer, principalmente o Jardim da Cultura, em nada dignifica o bom nome do Huambo”. Contactada pelo Jornal de Angola, para se pronunciar sobre o estado actual do Jardim da Cultura, a administração municipal do Huambo assegura que o plano de requalificação do espaço está sob a alçada do Governo Provincial.

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