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Boas colheitas no ano agrícola

Estanislau Costa| Lubango

As perspectivas para as colheitas de cereais e produtos hortícolas, desta época agrícola, são animadoras, graças à regularidade das chuvas. A avaliação é dos pequenos e grandes agricultores da Huíla, que lavraram mais de 598 mil hectares de terras.

Mais de 200 mil famílias associadas em cooperativas estão envolvidas no processo produtivo no triângulo do milho
Fotografia: Armateia Baptista

Os pequenos e grandes agricultores, que lavraram mais de 598 mil hectares de terras férteis em vários pontos da província da Huíla, consideram animadoras as colheitas de cereais e produtos hortícolas de 2009/2010, graças à regularidade das chuvas.
Nos municípios do Quipungo, Matala, Chicomba, Humpata, Chibia, Caconda e Caluquembe já há muitos produtores a colher milho, feijão, ginguba e tubérculos em quantidades que ultrapassam, de longe, as previsões.
A Direcção Provincial da Agricultura e Pescas na Huíla previa, para esta campanha agrícola, que fossem colhidas 345.946 toneladas de produtos diversos, com destaque para o milho, feijão, massango, massambala, batata-rena, mandioca e ginguba.
A regularidade das chuvas registadas, embora tenha devastado campos com várias culturas em algumas comunas e povoações, permitiu aos camponeses lavrar a terra duas vezes, com reflexos no aumento da produção.
Mais de 200 mil famílias, a maioria associada em cooperativas, estão envolvidas no processo produtivo, tendo recebido, a crédito, 445 toneladas de sementes de milho, feijão, massango, massambala e ginguba.
Além disso, receberam 208 mil enxadas tradicionais e europeias, limas, catanas e machados, quatro mil charruas, semeadores manuais, gado para tracção e 3.500 toneladas de fertilizantes.
O soba grande da Huíla, Joaquim Huleipo, considerou positiva a disponibilização pelo Governo Provincial de sementes, fertilizantes, gado para tracção, charruas e outros instrumentos de trabalho.
A produção agrícola na província, afirmou, confrontou-se, nos últimos dois anos, com casos de estiagens frequentes e pragas que causaram prejuízos avultados aos camponeses, com a deterioração de grandes quantidades de milho, massambala, massango e hortaliça.
“A regularidade das chuvas neste ano agrícola ajudaram muito os camponeses, porque, além de irrigar os campos de cultivo, reactivaram os riachos, chimpacas e outros reservatórios de água que estavam secos”, disse. Joaquim Huleipo elogiou o governo por reabilitar e construir novas áreas na barragem das Ngandjelas e canal de irrigação com uma extensão de 30.635 metros.  “Já foram loteados os espaços para produção, alguns camponeses já plantaram frutas e estão para breve as colheitas”, salientou.
Para se habilitar uma parcela de terra no perímetro irrigado das Ngandjelas, os interessados têm de contribuir apenas com uma jóia de 24 mil kwanzas.
 
Armazenamento de cereais
 
A rede armazenamento de cereais começa, este ano, a ser criada, com a construção de silos com capacidade para 1500 a duas mil toneladas, no quadro do Programa de Investimentos Públicos da província da Huíla de 2010.
Com o surgimento da rede de armazenamento de cereais, quantidades consideráveis de milho, massambala e massango vão ser conservados em condições apropriadas, aliviando a vida dos produtores. O agricultor Francisco Tchipica disse que a construção dos silos surge em boa altura, na medida em que “há mais apoios do Estado e vontade dos produtores alargarem as áreas de cultivo e aumentarem a produção”.
Os agricultores, lembrou, tinham de fazer praticamente tudo sozinhos, preparar a terra, cultivar, colher e, ainda, preocuparem-se em armazenar os produtos colhidos, escoar e comercializá-los. “Com os silos, vamos ficar apenas com a missão de produzir”, afirmou satisfeito. Esta forma de organizar a agricultura do Governo da província, explica Carlos Vassapa, produtor de milho, massambala, massango e feijão do município de Chicomba, revitaliza a ligação entre o campo e a cidade, melhora o controlo das colheitas e inibe a especulação de preços nos grandes centros urbanos. Carlos Vassapa disse que a construção de silos deve ser um processo contínuo, abrangendo, numa primeira fase, áreas de maior produção de cereais e, posteriormente, as menores. Urge também, frisou, fomentar a instalação de câmaras frigoríficas para conservar produtos horto frutícolas.           

Triângulo do milho
           
Os municípios de Chicomba, Caluquembe, e Caconda constituem um triângulo há anos reconhecido na produção de cereais. As autoridades apostaram com imputes agrícolas para a reconquista das colheitas anteriores.
Na campanha agrícola 20­08­/2­009, o triângulo já teve êxitos, registando números satisfatórios. Os dados indicam 187.939 toneladas de alimentos produzidos, distribuídos entre o município de Chicomba, com 35.238 toneladas, Caconda, 53.526, e Caluquembe, 99.175 toneladas.
Para o presente ano agrícola, as colheitas perspectivadas suplantam as da época anterior, fruto do envolvimento de famílias camponesas que estão a abandonar as zonas urbanas e a regressar às áreas de origem. O camponês António Carlos, 45 anos, é um dos exemplos da troca da cidade pela povoação do Cusse, comuna de Caconda. “Fugi daqui em 20 de Setembro de 1998, quando escutei que a comuna ia ser atacada pelo então movimento rebelde”.
“Regressei à minha terra há quatro anos por causa da paz e porque a maior parte da comuna do Cusse foi desminada. Estavam criadas as condições para reactivar a produção nas lavras e a Agricultura distribuiu sementes e alfaias”, declarou. A lavra de António tem seis hectares, onde cultivou milho, feijão, ginguba e outros cereais. As boas colheitas que teve no ano passado permitiram-lhe juntar dinheiro para alugar tractores, reembolsar os produtos recebidos a crédito e alargar a área de cultivo. O agricultor aconselhou outros camponeses a regressarem às áreas de origem para reactivarem a lavoura, produzirem alimentos e constituírem riqueza.
“É difícil adaptarmo-nos à vida da cidade porque lá compra-se tudo e no campo já não é assim”, afirmou, acrescentando não fazer “qualquer sentido permanecer lá onde, à partida, não há oportunidades de emprego porque não se tem estudos”.
 “O campo ainda é virgem e todos somos poucos para trabalhar e ganhar a vida de forma digna”, rematou o agricultor António Carlos.
Vários jovens desempregados contactos pela reportagem do Jornal de Angola, na cidade do Lubango, mostraram-se prontos a deixar a grande cidade e voltar a trabalhar a terra no campo, desde que criadas algumas condições mínimas para a sua readaptação.
“Estamos prontos a voltar às nossas terras de origem e trabalhar os campos, mas  é preciso que se criem condições para o nosso regresso”, disse João Manuel, acrescentando não ser fácil deixar as luzes das grandes cidades e voltar ao candeeiro a petróleo.
Para João Manuel, apesar das exigências serem menores no campo, não é fácil para quem tinha energia, água e via televisão todos os dias  adaptar-se a uma vida no campo sem que essas condições estejam criadas.
Outro jovem ouvido pelo Jornal de Angola, Ernesto Dala, acredita que, com a criação dessas condições pelo Governo e outros agentes públicos e privados, muitas pessoas vão preferir viver no campo do que nas grandes cidades, onde tudo custa os olhos da cara e a qualidade de vida nem sempre é das melhores.

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