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Campos agrícolas e casas inundados no Mulondo

Estanislau Costa e Domingos Mucuta | Lubango

O bairro da Tchatumba confunde-se com um lago onde os casebres de pau a pique cobertos com capim parecem armadilhas de pesca. Este cenário é o efeito das inundações provocadas pelas fortes chuvas que caem com frequência na comuna do Mulondo, município da Matala.

Os barcos movidos a motor ou a remos distribuídos no quadro do projecto de incentivo à pesca fluvial, estão a facilitar a circulação
Fotografia: Jonal de Angola

O bairro da Tchatumba confunde-se com um lago onde os casebres de pau a pique cobertos com capim parecem armadilhas de pesca. Este cenário é o efeito das inundações provocadas pelas fortes chuvas que caem com frequência na comuna do Mulondo, município da Matala.
São dezenas de casas inundadas. As cheias destruíram haveres, tornando as vias de acesso intransitáveis. Muitos animais morreram ou desapareceram levados pelas enxurradas. O pior só não aconteceu porque homens, mulheres e crianças se refugiaram em zonas mais seguras da aldeia.
Avó Valassa está desanimada porque perdeu quase tudo. A força da água destruiu o silo onde tinha seis toneladas de milho, levou as galinhas, cabritos e porcos. O nível da água subiu rapidamente e surpreendeu os aldeãos no momento em que dormiam.
“Quanto acordei, por volta das duas horas, a água estava na altura dos meus joelhos e gritei. Ao sair vi que os meus vizinhos já tinham arrumado as trouxas, recolhido os animais e foram para lugares onde a água não chegou”, contou avó Valassa.
Zé Calepi, neto da avó Valassa, explicou que quando os animais deram sinais de pânico, pensei que a sua aflição era motivada pelo perigo de cobras ou bichos selvagens. Afinal era a água que estava a subir. O nosso colchão não molhou porque está em cima de uma cama improvisada de paus”.
 Quando vimos o perigo da água, continuou, “recolhemos rápido as roupas e bacias e corremos para o monte onde estavam os outros. Esperamos até ao amanhecer para salvar os poucos animais que sobreviveram e o milho.
 As cheias, além de Tchatumba, provocaram também danos nos bairros da Tchinengue e Vilemba Vival, circunscrições de Mulondo que dista 120 quilómetros da sede da Matala.
As cheias foram boas para a barragem hidroeléctrica, porque a água encheu a albufeira e durante vários meses tem água suficiente para produzir energia eléctrica.
Os habitantes da comuna do Mulondo viram destruídos os seus bens e todas as suas economias familiares. As colheitas estão comprometidas em consequência da água ter devastado os campos de lavoura de milho, massango, massambala, feijão e outros produtos.
O corte de estradas e as inundações nas aldeias impedem a circulação de pessoas e mercadorias e muitas escolas fecharam. “Professores, alunos não podem prosseguir com aulas enquanto durarem as cheias”, disse um professor.
Os apoios tardam a chegar às populações sinistradas, o que leva ao desespero de dezenas de famílias com dificuldades para se alimentarem, terem assistência médica e de se abrigarem condignamente.
 
Circular de canoa
 
Muitos camponeses usam barcos e canoas para se deslocarem. Os barcos movidos a motor ou a remos distribuídos no quadro do projecto de incentivo à pesca fluvial, estão a facilitar a circulação dos sinistrados das cheias.
O administrador da comuna do Mulondo, Zeca Mupinga, percorreu de barco várias áreas para averiguar os prejuízos, apurar o estado actual das pessoas sinistradas, dos doentes e conceber um programa para solucionar com urgência os problemas que afligem a população local.
 Zeca Mupinga está preocupado com a situação dos afectados pelas cheias. Disse à nossa reportagem que “urge que as equipas da Protecção Civil e da Assistência e Reinserção Social actuem rápido para evitar outros dissabores”.
 O administrador da comuna disse ainda que “os alimentos começam a escassear dia após dia, já há adultos e crianças doentes, razão para lançarmos um grito de socorro às entidades da província para acudirmos as famílias afectadas e evitar males maiores”, sublinhou. />O levantamento preliminar efectuado, afirmou o administrador, apurou 118 casas inundadas e 34 casas ruíram. As pessoas que ficaram sem casa necessitam de tendas para se abrigarem provisoriamente, de cobertores e de roupas.
Acrescentou que os danos das enxurradas atingiram também 85 hectares de terras cultivadas. Os camponeses estão de braços atados porque os campos até ao momento estão submersos. “As plantações de milho, massambala, massango e feijão estão a deteriorar-se por causa da água excessiva”, disse o administrador Zeca Mupinga.
 Pelo desenrolar da situação, afirmou o administrador da comuna do Mulondo, a campanha agrícola está comprometida e os produtos da primeira colheita estão perdidos. “Os camponeses estão desesperados porque muitos desenvolveram a lavoura com sementes e alfaias adquiridas a crédito”, disse o administrador Zeca Mupinga.
           
Apoios tardam a chegar
           
As famílias foram provisoriamente alojadas num dos edifícios da comuna que resistiu às cheias e em áreas mais seguras, enquanto aguardam pela chegada das tendas. Os técnicos da Protecção Civil estão a preparar uma operação de socorro às vítimas.
O administrador lançou o “grito de socorro” às autoridades competentes e às organizações humanitárias para apoiar as famílias, numa altura em que a comuna do Mulondo está isolada.
As unidades sanitárias da comuna confrontam-se com a falta de técnicos para atender o fluxo de pacientes que procuram os serviços de saúde e medicamentos. É necessária uma ambulância para evacuar os doentes para o Hospital Municipal da Matala.
Neste momento, para levar os pacientes com complicações de malária e outras doenças, é utilizada uma viatura sem condições para o transporte de doentes. O percurso de 95 quilómetros até Capelongo (Matala) e o mau estado da via faz com que alguns pacientes não resistam e acabam por morrer.
 O administrador afirma que são necessárias quatro unidades sanitárias e nove técnicos de saúde. Estas infra-estruturas devem abranger os sectores do Matundu e Quiteve para evitar que as pessoas usem apenas o tratamento tradicional.
 O Programa de Investimentos Públicos contemplou para Mulondo a construção de várias infra-estruturas sociais, com realce para um posto de saúde, duas escolas do I e II ciclo, casas para professores e técnicos de saúde.
 Uma das escolas, com sete salas de aulas, vai ser construída na localidade de Lumanha. A população fornece os adobes e o governo apoia com chapas e mobiliário para o apetrechamento.
Constam ainda no pacote de projectos da administração comunal, a identificação de mais espaços para a plantação de capim elefante para pasto do gado, definir áreas para fazendas e delimitar os baldios para a transumância e reservas fundiárias.
           
Roubo de gado
 
A população de Mulondo dedica-se principalmente à agricultura e à criação de gado.
A riqueza ganadeira propicia o roubo, sobretudo de gado de bovino, facto que tira o sono às autoridades e aos criadores tradicionais.
O ano passado, a administração registou mais de 150 roubos de cabeças de gado, e no primeiro trimestre do corrente ano, houve 40 roubos representando 700 animais roubados.
 A causa principal do furto tem a ver com a falta de uma esquadra policial na comuna. “Precisamos de uma esquadra da polícia em Mulondo”, disse o administrador Zeca Mupinga.

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