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Curar doenças com as plantas

Domingos Mucuta| Lubango

Muitas pessoas, pelo mundo, acreditam no poder de cura de plantas. Na província da Huíla também há gente que aposta no tratamento de doenças com recurso a pós, raízes, folhas, cascas de árvores e até argilas. Não admira, pois, que vendedores de ervas medicinais na província sejam muito procurados.

Desde que o mundo existe, o homem sempre procurou na natureza os meios para a sua sobrevivência, entre os quais os remédios para os malefícios do corpo e da alma.  Pós, raízes, folhas, cascas de árvores e até argilas são produtos ainda hoje utilizados em grande escala para tratar doenças.
  Os repórteres do Jornal de Angola foram ao mercado informal João de Almeida, o segundo maior da cidade do Lubango, contactar ervanários e saber um pouco mais  das plantas com poder de cura. O bloco de vendedores das ervas medicinais fica separado dos outros, como mandam as regras da organização dos serviços comunitários da administração municipal.
O “saqueiro” Joaquim guiou os repórteres até aos vendedores de ervas. Nas barracas cobertas de lonas encontrámos pós, raízes, folhas, cascas de árvores e produtos “estranhos”. Há remédios para a dor de cabeça, hepatite, paludismo, furúnculos, febre tifóide, conjuntivite, cólicas, enxaquecas, doenças sexualmente transmissíveis e até para o mau-olhado, que é uma doença que em princípio a medicina convencional não consegue tratar.
A ervanária Adélia Polonga é proprietária de uma das 16 barracas de produtos misteriosos. Apesar da diversidade de medicamentos, Adélia Polonga explica detalhadamente a aplicação de cada folha, casca, raiz ou pó.
São 17 anos de actividade, tempo suficiente para passar uma receita em dosagem adequada para sarar qualquer doença, mesmo as enfermidades provocadas por forças ocultas, como a tala ou mina tradicional e o mau-olhado.
“Nós curamos todas as doenças. Os ervanários aqui na praça são pessoas do bem, porque só vendem medicamentos. Os que fazem magias estão em casa, muitos deles são kimbandeiros ou adivinhos”, explicou Adélia Polonga, que também é parteira tradicional.
 
De geração em geração

 
O conhecimento do valor curativo das ervas é transmitido de geração em geração.Os ervanários passam o saber aos jovens. A ervanária Juliana Mbassana revelou que aprendeu a conhecer as plantas medicinais com a avó, já falecida.
“A minha avó levava-me às matas para me mostrar as plantas. Ela ensinou-me também a fazer as composições necessárias e a receitar as doses para cada doença. Aprendi tudo com ela e hoje consigo ajudar aqueles que procuram ajuda”, explicou, orgulhosa.
Juliana Mbassana sublinhou que a sua filha mais velha já começou a “beber ” a experiência. “Não podemos morrer com estes conhecimentos. Temos a responsabilidade de ensinar também aos nossos filhos e netos para continuarem o trabalho. É pena que muitos jovens não se interessem pelas plantas mesmo sabendo da utilidade na salvação de vidas”, disse.
A ervanária Adélia foi formada num seminário sobre plantas medicinais, por uma estrangeira. A formação aconteceu nos anos 80. De lá para cá, além de fazer partos, ela orienta os doentes e dá-lhes os melhores medicamentos para curarem as enfermidades.
“Muitos doentes ou familiares conhecem os medicamentos, porque quando chegam perguntam pelo nome da planta. A quem não sabe, nós temos que explicar e indicar a maneira de preparação e tomar”, afirmou.
 
Poderes da mandioca

 Uma certa qualidade de mandioca tem características especiais. Dizem os entendidos e os que já experimentaram que é um afrodisíaco poderoso, por isso é muito procurada pelos homens que pretendem melhorar o desempenho sexual. Esta raiz abençoada é proveniente das florestas do município de Caluquembe e de várias zonas do Planalto Central. Pode ser mastigada simples ou tomada com outros produtos como o lutikitiki, uma planta também com propriedades afrodisíacas.
“Se o homem tem problemas sexuais esta mandioca ajuda. Basta comer ou ferver e tomar o líquido. Não falha”, garante a ervanária, que ofereceu um pedaço ao repórter para depois experimentar. Mas nisto da mandioca, nós não vamos além do funge.
As plantas medicinais mais conhecidas são a kwanana e ekaya, apontadas como cura-tudo, excepto, é claro, o mau-olhado. Bulututu (ou brututu) para a dor de bexiga e estômago. Filanganga para as lombrigas, chenguete e folha de eucalipto para a tosse e dor de peito, desde que a dor não seja de amor. A oferta de medicamento vai até óleo de baleia utilizado para tratamento de inflamações, dores de ouvido, feridas e problemas estomacais e o chioco, que é um marisco com efeitos medicinais. As mulheres encontram nas ervanárias do mercado João de Almeida muitas ervas medicinais muito eficazes para regularizar o período menstrual, desde que a irregularidade não tenha sido provocada por uma gravidez.
 
Mortes por intoxicação
 
O Hospital Central do Lubango continua a registar mortes por intoxicação, resultantes de tratamentos com ervas medicinais. Dos 103 doentes atendidos no ano passado na urgência, 60 morreram em consequência de ingestão de chás de ervas, dos quais 31 homens e 29 mulheres.
O psicólogo do Hospital Central do Lubango, Martinho Angelina, considerou que a medicina tradicional ou alternativa desempenha um papel crucial no tratamento de muitas doenças por ser um complemento da medicina científica.
Para Martinho Angelina, esta área é tão importante que ajuda a ultrapassar as dificuldades económicas e financeiras da população rural na aquisição de fármacos industriais.
“Se quisermos desfrutar da riqueza que a natureza nos dá, em termos de plantas medicinais, é necessário investir na formação dos ervanários e curandeiros para o conhecimento das doenças e na aplicação de doses e efeitos colaterais”, defendeu.
 
Malefícios do feitiço
 
“Há quem duvide da existência da feitiçaria, bruxaria e magia. A verdade é que, aceitando ou não, qualquer posição a respeito é como nadar contra a corrente universal que nos envolve”, disse Vitorino do Rosário, 78 anos.
Este especialista falou do tema “impacto dos malefícios da feitiçaria (superstição) na comunidade”, diante de uma plateia constituída por ateus e cristãos, na igreja da Imaculada Conceição.
Vitorino do Rosário disse que a ciência tenta explicar todos os fenómenos afins da magia, tais como adivinhação, os augúrios, os encantamentos, os sortilégios e o espiritismo como fenómenos naturais ou paranormais.
O ancião da paróquia da Imaculada Conceição alertou que o feitiço é uma armadilha perigosa: “é uma ratoeira que nos pode apanhar se fizermos experiências imprudentes”, afirmou.
 Acrescentou que o fenómeno social e cultural da feitiçaria, bruxaria e da magia negra é comummente aceite. Para o avô de bengala na mão,  que em muitas línguas nacionais é denominado por Uanga, “o feitiço existe mas não deve ter desenvolvimento”.
E acrescentou que “há intelectuais que defendem que o feitiço merece ser desenvolvido e estudado profundamente. São insinuações perigosíssimas porque a feitiçaria, por natureza, encerra malefício, visto que é algo indefinível que actua na matéria e no corpo sem ser substância”, esclareceu.
Vitorino do Rosário apontou as razões que levam algumas pessoas a recorrerem à feitiçaria.
 “A curiosidade, o desejo desenfreado do poder, dominação, chefia sem eleição, a vingança, desforra, orgulho, o ódio, a ambição desmedida, a inveja, a insatisfação”, precisou.

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