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De mendigos a sapateiros

Domingos Mucuta | Lubango

A mão que outrora dona Cândida estendia para pedinchar retira da forma metálica o couro de cabedal, para o fabrico de calçado. Com o alicate ajeita o prego na sola e pouco a pouco ganha configuração um sapato com as cores preta e branca.

Deficientes físicos formados em sapataria fazem diariamente mais de dez pares de sapatos na cidade do Lubango
Fotografia: Jornal de Angola


 
A mão que outrora dona Cândida estendia para pedinchar retira da forma metálica o couro de cabedal, para o fabrico de calçado. Com o alicate ajeita o prego na sola e pouco a pouco ganha configuração um sapato com as cores preta e branca.
Do rosto de dona Cândida, 54 anos, brota um sorriso contagiante. É o segundo sapato que ela fabrica ao meio da manhã de um dia que promete bons resultados.
Ela consegue provar na prática que adquiriu habilidades profissionais, durante seis meses de formação intensiva, na fábrica Tip-Top, no bairro do Tchioco, arredores da cidade do Lubango.
“Filho, aprendi alguma coisa no curso! Nunca pensei que uma Candinha, como eu, poderia fabricar sapatos interessantes. Estou muito satisfeita, porque agora tenho uma profissão”, disse sorridente. Dona Cândida prefere agora esquecer a dura rotina nas ruas do Lubango, onde caminhava de lés-a-lés para conseguir pão para sustentar a família. As circunstâncias daqueles momentos obrigavam-na a pedir esmola.
Conta que “não era fácil conseguir trocados suficientes para sustentar os 10 membros da família. Mas reconhece existir “muita gente solidária” na cidade, que não se cansa de estender a mão a quem precisa.
A nova sapateira pede aos colegas de batalha que procurem a direcção do MINARS para inseri-los no curso e beneficiarem de outros apoios, já que acredita nas vantagens da formação. “Durante o curso, fiz sapatos para gente famosa e pagaram a um preço bom”. Actualmente, disse, os nossos sapatos são procurados por muita gente. Não tenho palavras para agradecer o governo por ter dado a oportunidade às pessoas portadoras de deficiência física.
Isaac Filipe, 30 anos, era um homem feliz no fim do curso. Depois de receber o seu certificado de formação profissional em sapataria, agradeceu o empenho do governo na resolução dos problemas de pessoas com necessidades especiais e não só.
Filipe reconhece as experiências bem sucedidas levadas a cabo pelo governo, como a reabilitação baseada na comunidade, que criou o micro-projecto de sapataria, moto-táxi, agropecuária e de gestão de pequenos negócios.
A experiência de formação profissional dirigida aos portadores de deficiência física, recolhidos das ruas do Lubango, insere-se nos programas de reintegração sócio-económica levado a cabo pela Assistência e Reinserção Social.
Dez portadores de deficiência física foram abrangidos. A segunda fase, iniciada em Julho, com termo em Dezembro, contempla outros deficientes que aprendem as técnicas de sapataria.
 
Kits profissionais e cesta básica
 
A direcção da Assistência e Reinserção Social na Huíla ofereceu kits profissionais de sapataria a todos os finalistas. O kit possui formas de ferro, alicates, tesouras, limas, pomadas, escovas e meia solas.
As pessoas com necessidades especiais recebem uma cesta básica mensal, constituída por uma unidade de óleo, massa, arroz, farinha de milho, feijão, açúcar e sal.  A directora da Assistência e Reinserção Social na Huíla, Catarina Manuel, disse que o governo apoia com bens de primeira necessidade para melhorar a dieta alimentar e evitar que os formandos regressem à rua para mendigar.
Catarina Manuel reconhece que a quantidade de mantimentos é ainda insuficiente em função do número de pessoas com necessidades especiais, por isso defende a mobilização de mais recursos para uma intervenção mais abrangente.
“Devemos mobilizar todos os actores da sociedade para colaborarem de forma mais actuante nos programas executivos do governo, com vista à protecção integral de pessoas com necessidades especiais. Esta camada pode também contribuir para o desenvolvimento económico do país e o bem-estar das próprias famílias”, destacou.
 
Dez pares de sapatos por dia
 
As técnicas e habilidades consolidadas pelos portadores de deficiência, permite- lhes fabricar, diariamente, cinco a dez pares de sapatos.
“O sapato para ter qualidade deve ser moldado numa máquina e os relaxantes precisam de passar por uma forma para sair perfeitamente”, sublinha dona Cândida.
Augusto Chongolola explicou que os conhecimentos adquiridos abrem novos horizontes em matéria de sapataria. Ele já pensa em montar uma oficina para servir os moradores do seu bairro.
“Posso produzir sapatos de alta qualidade”, sublinhou para acrescentar que está a organizar os documentos para a abertura de uma oficina de produção e conserto de sapatos no bairro.
Augusto Chongolola apontou a concessão de micro-crédito aos sapateiros recém-formados como uma forma de promover o auto-emprego e de diversificar as fontes de receitas, o que pode, também, contribuir para a auto-suficiência da família.
“Com financiamentos, seremos capazes de constituir galerias informais, onde poderemos prestar serviços de qualidade e aumentar o número de sapatos”, disse.
Domingos Leite, um dos formadores, enalteceu o empenho dos deficientes na aprendizagem da profissão. “Eles têm força de vontade em aprender um ofício. Mas é preciso que o apoio material e moral seja contínuo”, avançou.
“Foi uma formação útil e capaz de fazer destes homens e mulheres profissionais e mudar o seu nível de vida. A partir deste curso, eles têm habilidades para começar pequenos negócios, bastando que sejam apoiados”, disse. 
 
Discriminação

Considerar os portadores de deficiência como pessoas inválidas ou incapazes de realizar actividades úteis à sociedade é uma ideia que deve ser banida. “Muitas destas pessoas deram provas que estão aptas para o trabalho”, referiu Luís Martins, director comercial da Barco Trading.
“Não importa a forma, nem a aparência, mas o conteúdo. Ou seja, o mais importante é aquilo que cada um pensa, o que está na mente e no interior ou no coração. Todos valem por aquilo que são capazes de fazer”, diz um dos formandos.
A Barco Trading foi a empresa que se aliou às acções do governo para dar formação técnico-profissional aos deficientes físicos, assim como garantir a cesta básica aos formandos até atingirem a fase de auto sustento.
Luís Martins afirma que a empresa aceitou juntar-se à causa social para fornecer produtos de consumo no sentido de garantir a subsistência dos beneficiários. “Vamos continuar a apoiar os deficientes físicos”.
“Estamos com o governo e esperamos que outros projectos de formação técnico-profissional como corte e costura, informática, serralharia, dirigidos aos portadores de deficiência continuem”, afirmou.

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