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Estradas da Huíla reforçam economia

Estanislau Costa| Lubango

A província da Huíla está com mais de 1.100 quilómetros de estradas reabilitadas, atravessadas todos os dias por dezenas de veículos ligeiros e pesados. Por recuperar, estão ainda 1.500 quilómetros.

A reabilitação das vias está a facilitar o tráfego de autocarros de passageiros no município da Jamba
Fotografia: Arimateia Baptista|Lubango

A província da Huíla está com mais de 1.100 quilómetros de estradas reabilitadas, atravessadas todos os dias por dezenas de veículos ligeiros e pesados. Por recuperar, estão ainda 1.500 quilómetros. As vias reparadas e construídas mudaram, significativamente, a vida de muitas famílias e reanimaram a situação socioeconómica das comunas, das povoações e das zonas mais recônditas das terras da Chela.
Joana Maria, 24 anos, é especialista em gestão de empresas. Goza do privilégio de residir na cidade do Lubango e trabalhar numa agência bancária da sede do município do Quipungo, localizado a 90 quilómetros da capital da Huíla.
A jovem faz o trajecto diário de 180 quilómetros de autocarro, no conjunto da ida e volta. Não está preocupada com a distância, porque o veículo e o bom estado das vias oferecem segurança e conforto aos passageiros, além de que fica muito mais barato utilizar os transportes públicos.
“O governo fez uma boa aposta na reparação e construção das estradas da província, assim como de outros pontos do país e, também, por ter disponibilizado autocarros que em boa altura reactivaram a circulação interprovincial e municipal. As carreiras já circulam como antigamente”, disse.
Como a jovem Joana, milhares de outros angolanos circulam livremente e em condições dignas nas estradas da Huíla e são transportadas mercadorias diversas. Os autocarros, táxis e camiões de longo curso trilham, hoje, milhares de quilómetros, em vias que deixaram de causar danos aos veículos. As novas estradas estão a facilitar o escoamento dos produtos dos agricultores das localidades mais recônditas, razão que incentiva os camponeses a alargarem os campos de cultivo, criar animais e diversificar a produção nas zonas rurais.
Por exemplo, partem dos municípios da Humpata, Chibia, Matala para várias zonas do país quantidades consideráveis de batata rena, frutas, hortaliças e animais diversos. Os preços módicos motivam a presença constante de negociantes.
As boas condições das estradas da Huíla começaram com a concretização do programa de construção e reparação de mais de mil quilómetros, instalação de sistemas de drenagem e sinalização, aproximando as zonas mais recônditas das terras da Chela.
Os dados do Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA) na Huíla atestam que estão totalmente reparados e com trânsito fluido os troços Lubango-Namibe-Tômbwa, Lubango-Chibemba, em direcção à província do Cunene, Lubango-Quipungo-Matala-Jamba-Kuvango, em direcção à província do Kuando-Kubango e Lubango-Cacula.
A empresa local Planasul efectua, neste momento, os acabamentos das obras de construção e reparação dos troços Cacula-Caluquembe-Caconda, em direcção à província do Huambo e Caconda-Chipindo. A construtora brasileira Andrade Guttierrez-Zagop está, por seu lado, a concluir as obras da via expresso do centro da cidade do Lubango até ao aeroporto internacional da Mukanka.
 
Vilas reanimadas
 
As vilas e povoações da província estão agora reanimadas e mais dinâmicas, com a reparação e construção das principais estradas, e a terraplanagem das vias secundárias e terciárias.
O movimento fluido de veículos de grande e pequeno porte fez com que o comércio ganhasse um novo fôlego, fundamento para a diversificação dos produtos industriais e do campo e para provocar a redução considerável dos preços.
Alberto Mumbombo, 49 anos, é agricultor e tem quatro hectares de terras cultivados com hortaliças nas margens do rio Caculuvar, arredores da comuna do Poiares. Afirmou que quando retomou o cultivo, em finais de 2005, produzia apenas um hectare.
“A produção de tomate, repolho, couve, cenoura, cebola e alho era baixa, porque não havia mercado, um facto agravado com a degradação das vias”, disse, acrescentando que com a conclusão de alguns troços, houve melhorias no escoamento e conquista de novos mercados.
Alberto Mumbombo está hoje a produzir quatro dos 15 hectares de terra que possui. Conta que todas as manhãs desembocam no pequeno armazém dezenas de carrinhas com negociantes, principalmente mulheres, para comprarem produtos do campo, que agora esgotam. Esta novidade anima o agricultor, que pensa aumentar a área de cultivo na campanha agrícola 2010/11. “Vou lavrar mais dois hectares com culturas de milho”, disse.
A reconstrução das estradas e a execução com êxito de acções de impacto socioeconómico no campo deu nova vida às comunas do Ndongo, Qhuita, Hoque, Ngola e Capelongo.  Na comuna do Galangue e Vicungo, os produtores agropecuários também testemunham a benesse proporcionada pelas novas vias de comunicação. “A falta de estradas em condições atrapalhou o escoamento dos bens do campo”, afirmou Carlos Viheca.
Conta que antes eram muito poucos os clientes que aceitavam o desafio de enfrentar os buracos e pontes destruídas para atingir Vicungo. Os programas de fomento agrícola não atingiam, na devida altura, as zonas rurais, facto que atrapalhava a actividade agrícola. Como consequência, explicou, os camponeses eram obrigados a reduzir as áreas de cultivo. Quando havia excedente de milho, ginguba e feijão, para evitar a sua deterioração, transportavam os produtos em carroças para zonas cuja distância do povoado era 50 e 100 quilómetros.
O soba Inácio Bacia descreve as vicissitudes por que passavam antes da reparação e construção de estradas: “houve momentos em que para aparecerem aqui clientes oriundos do Lubango esperávamos 10 a 20 dias. Hoje, a situação é completamente diferente, todos os dias temos clientes”.
           
Quilómetros por reparar
 
Ao todo, 1.500 quilómetros de estradas estão por reparar. As autoridades já lançaram o desafio às construtoras locais e de outros pontos do país e do estrangeiro para apresentarem propostas.
As obras de restauro dos 1.500 quilómetros de estradas em referência vão envolver novos investimentos, recursos humanos e materiais. Nos 1.100 reparados estiveram envolvidos, segundo o INEA, milhares de pessoas, na sua maioria jovens com idades compreendidas entre os 19 e 35 anos.
Os jovens, grande parte dos quais com cursos de formação profissional, aproveitaram a oportunidade para conseguir o primeiro emprego e aperfeiçoar as suas habilidades na construção civil, dominar uma obra de construção de estradas e aprender novas técnicas.
O processo de ensino e aprendizagem foi facilitado por especialistas estrangeiros ligados às áreas da mecânica, condução de máquinas pesadas, pedreiros, análise e implantação de solos argilosos, entre outras.
Alguns deles estão ansiosos pelo recomeço das obras de construção e reparação dos 1.500 quilómetros de estrada, assim como da montagem de três pontes metálicas no troço Kuvango-Chipindo, municípios distanciados entre si em 105 quilómetros. As actuais pontes que ligam os dois municípios são de troncos de madeira e estão envelhecidas, facto que torna a travessia insegura para automóveis ligeiros e desaconselhável a camiões carregados.
O Jornal de Angola apurou que as novas pontes metálicas, com capacidade para suportar até 40 toneladas, terão uma extensão de 20 a 40 metros. Para a instalação dos artefactos vão ser necessárias gruas, camiões basculantes, retro-escavadoras e a preparação de toda uma logística para a empreitada no local.

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