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Jovens formados em artes e ofícios

Estanislau Costa | Kuvango

Um total de 127 jovens do município do Kuvango, na Huíla, receberam formação nas áreas de construção civil, informática, alvenaria e agricultura.

Kassanga e Ndala são hoje mestres de obras numa empresa local de construção civil
Fotografia: Arão Martins

Paulo Kassanga, Maria Mutango e Alfredo Ndala, com idades compreendidas entre os 18 e os 22 anos, são três jovens empreendedores que aos poucos ganham espaço no mercado do Kuvango, prestando serviços nas suas áreas profissionais.
Kassanga é pedreiro, Mutango domina a informática e Ndala aprendeu o ofício de carpinteiro. Eles exercem as suas actividades com perfeição e qualidade. É por isso que duas empresas de construção civil aproveitaram os serviços de Paulo Kassanga e Alfredo Ndala, contratando-os com a categoria de mestres de obras. Os dois jovens trabalham na construção de empreendimentos públicos e privados no âmbito do Programa de Intervenção Municipal (PIM).
Estes técnicos de construção civil, além de trabalharem em tempo integral nas empreiteiras do município, realizam, aos fins-de-semana, pequenos biscates: “fazemos as obras da empresa e aos sábados e domingos construímos anexos, arranjamos portas e janelas”, disse Alfredo Ndala.
Maria Mutango optou por constituir a sua pequena empresa de prestação de serviços na área de informática. Ela faz trabalhos escolares para os alunos, informatiza documentos, descarrega as fotos de cartões dos fotógrafos ambulantes do Kuvango e envia-as para o Lubango onde são impressas em papel.
A eficiência e cumprimento dos prazos de entrega das encomendas da pequena empresa da jovem Mutango são factores que aumentam a procura de clientes e fazem crescer a facturação: “na nossa vila as pessoas procuram a minha Konica para informatizar os trabalhos de grupo dos alunos, tirar fotografias e mandar revelar os postais”.
A sede do município, explica a jovem, não tem uma casa de impressão de fotos. “Os fotógrafos ambulantes trazem-me os cartões, descarrego as fotos e coloco-as num disco ou pen-drive e envio-as para Matala ou para o Lubango. Em menos de três ou quatro dias as encomendas estão prontas a serem entregues”, disse Maria Mutango.
Com esta eficiência, a jovem consegue fazer receitas razoáveis que já lhe permitiram adquirir duas maquinas fotocopiadoras, uma máquina de fotografar, três computadores e impressoras, comprar material e pagar os ordenados a duas irmãs que com ela trabalham.
O sucesso dos três jovens deve-se à formação adquirida no Pavilhão de Artes e Ofícios, um projecto do Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social que tem dado oportunidades de formação profissional sobretudo aos jovens e adolescentes.
O Jornal de Angola soube que o pavilhão de artes e ofícios chegou à sede do município do Kuvango há cinco meses, e vários candidatos inscreveram-se na primeira fornada de formação, com duração de três meses. 

Formação de técnicos
 
Kassanga, Mutango e Ndala estão entre os 127 jovens formados com êxito nos cursos de construção civil, informática, alvenaria, agricultura, realizados no Pavilhão de Artes e Ofícios do município do Kuvango.
O Pavilhão de Artes e Ofícios, instalado num camião, funciona com quatro salas de aulas equipadas com pequenos laboratórios que permitem aos formandos aliar os conhecimentos teóricos à prática.
O treino dos alunos com trabalhos práticos é um método reconhecido pelos instruendos por permitir o contacto directo com o equipamento, melhorar o seu manejo, cuidados e até fazer reparações em caso de se registar alguma avaria.
De acordo com o professor Abílio Luanga, as experiências ajudam à compreensão e assimilação dos conteúdos e têm ainda a vantagem de permitir que na conclusão da formação os jovens sejam capazes de fazer algo relacionado com a sua profissão.
O sucesso da formação, explicou o professor, está no recrutamento rápido dos técnicos pelas empresas de construção civil privadas, agro-pecuárias ou exploração de madeiras.
Os jovens formados estão a dar o seu contributo na execução de diversos programas e a criar condições para melhorar as suas próprias condições de vida. Muitos já estão avançados nos seus  projectos de constituir família, ter filhos ou ajudar os pais. 
O director do Pavilhão de Artes e Ofícios, Pedro Nala, considerou positiva a forma como os alunos se envolvem nas aulas teóricas e nos trabalhos práticos: “é notável em cada participante o desejo de aprender uma profissão para encontrar um emprego ou montar o seu próprio negócio”. O esforço feito por aqueles que já conseguiram montar o seu negócio ou enquadrar-se numa empresa, e os consequentes ganhos, têm sido uma alavanca para os outros jovens que inicialmente se desinteressam da formação, sublinhou Pedro Nala.
 
Mais técnicos

O empenho dos centros de formação públicos e privados culminou com a formação em artes e ofícios, na província da Huíla, de pelo menos seis mil pessoas, de 2008 a 2010, numa acção que envolve o Instituto Nacional de Formação Profissional e Emprego (INAFOP).
Entre as especialidades preferidas pelos contemplados, o realce vai para a construção civil, carpintaria, serralharia, electricidade, corte e costura, sapataria, mecânica e informática. O Jornal de Angola apurou que a corrida a estes cursos tem a ver com a facilidade de emprego.
A maioria dos técnicos recém-formados beneficiou dos programas do Instituto Nacional de Formação Profissional e Emprego realizados nos municípios de Cacula, Matala, Quilengues, Gambos, Caconda, Caluquembe, Chibia e Chicomba.
 Os dados indicam que 3.500 jovens foram inseridos em várias empresas. Outros, num número menor, criaram pequenas empresas. O processo de inserção e criação da própria empresa conta com a parceria de autoridades tradicionais e activistas de ONG nacionais.
Para a sustentabilidade da formação, vários organismos do Estado e empresas parceiras nacionais e estrangeiras oferecem ferramentas de carpintaria, serralharia e construção civil. Nalguns casos os profissionais que pretendem criar o seu próprio emprego recebem gratuitamente terrenos para construírem as instalações.
As direcções provinciais da Assistência e Reinserção Social, do MAPESS, da Juventude e Desportos e a ONG ADRA Antena Huíla, são as instituições empenhadas na distribuição de ferramentas às pessoas que concluem com êxito a formação.
O activista dos direitos humanos Fernando Costa sublinhou que a distribuição de ferramentas é importante para os jovens com formação técnico-profissional que não conseguem  emprego numa empresa.
“O mercado de trabalho não consegue absorver todos os jovens que concluem a sua formação, sobretudo na área profissional. Por isso, a distribuição de ferramentas tem sido uma alternativa”, afirmou.
 
Questão de sorte
 
A sorte de ser enquadrado num emprego nem sempre bate à porta de todos os jovens com habilidades técnico-profissionais na província da Huíla. São vários os que concluem os cursos e, embora batam a várias portas, nenhuma se abre para eles.
Carlos André, 23 anos, formado em alvenaria, está à procura de emprego há um ano e seis meses: “acabei o curso num centro de formação profissional do Lubango em princípios de 2009 e até agora não consegui emprego e continuo a viver à custa dos meus irmãos”, lamentou.
“A maioria dos meus colegas conseguiu emprego. Inscrevemo-nos juntos em várias empresas, fizemos o teste e nunca fui apurado”, disse o jovem desanimado.
Entre os centros de formação de artes e ofícios existentes na Huíla, o único com um gabinete criado para facilitar a inserção dos finalistas no mercado de trabalho é o Instituto Médio Politécnico. O Gabinete de Inserção na Vida Activa está a apoiar o enquadramento dos formandos.
A directora do Instituto, Constância dos Santos, esclareceu que o gabinete, que conta com  a parceria de empresas públicas e privadas, tem a missão de estabelecer contactos para facilitar o estágio dos alunos e a sua posterior contratação.
O gabinete tem alcançado resultados positivos. Muitas empresas de construção civil aproveitam alguns finalistas que demonstram empenho durante o estágio. Aos jovens que almejam constituir o seu próprio negócio, a instituição tem um projecto de criação de cooperativas, a sua legalização e aquisição de ferramentas profissionais.

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