Províncias

Produção agrícola na Huíla está em grande

Estanislau Costa | Lubango

Os golpes com um cajado de quase dois metros de comprimento para descascar o milho são feitos com perícia por vários rapazes e raparigas espalhados em diversos pontos do quintalão da vovó Joana Kamutale, na comuna do Sendy.

No quintalão de vovó Joana Kamutale o milho é transformado em fuba para ser vendida nos principais mercados da região
Fotografia: Estalisnau Costa | Lubango

Os golpes com um cajado de quase dois metros de comprimento para descascar o milho são feitos com perícia por vários rapazes e raparigas espalhados em diversos pontos do quintalão da vovó Joana Kamutale, na comuna do Sendy.
Ensopados de suor face ao sol abrasador, os jovens, em troca de dois quilos de cereal por dia, procuram evitar que os grãos de milho soltos do caroço se danifiquem, actividade que é animada com cânticos em umbundu e nhyaneka.
Vovó Kamutale, sentada numa cadeira branca de plástico, observa com atenção o movimento dos sete jovens que separam o milho do caroço, ensacam, cosem, enquanto outro grupo de seis, trata de arrumar os sacos de 100 quilos num armazém improvisado.
Vovó faz tudo para evitar desperdícios provocados por algum mau jeito de descascar o milho e possíveis “desvios” do produto.
Joana Kamutale nasceu e vive numa das povoações do Sendy, município de Quipungo, 90 quilómetros a leste da cidade do Lubango. A anciã, que vive com os filhos, noras e netos, dedica-se à agricultura, lavrando milho em grandes quantidades. Também produz hortaliças mas apenas para variar e enriquecer a dieta familiar. Explicou ao Jornal de Angola que o milho só é debulhado agora por causa da muita procura, que obrigou o preço do quilo a subir 15 para 20 kwanzas.
Nesta época, chegam às zonas produtoras de cereais de Quipungo, Matala, Cacula, Caluquembe e Caconda negociantes oriundos de Benguela e Lubango. Vovó Kamutale está associada à cooperativa de agricultores 1º de Maio, que tem 145 camponeses. Ela afirmou que a reactivação da lavoura tem muito a ver com o trabalho desenvolvimento pela cooperativa em parceria com o Programa de Extensão e Desenvolvimento Rural (PEDR).
Com a Estação de Desenvolvimento Rural, disse a anciã, os produtores são acompanhados desde o início da campanha agrícola até à etapa das colheitas. “Temos recebido muitos apoios mecanizados, alfaias agrícolas, sementes, fertilizantes, animais para tracção e outros meios”.
João Correia, produtor de batata, salientou que os apoios são disponibilizados a crédito. “Na época das colheitas, reembolsamos com milho, massango, massambala, feijão ou batata tudo o que recebemos por empréstimo”.
O agricultor enalteceu o programa do governo local, que incidiu na entrega dos produtos do campo a crédito, por envolver novos e antigos produtores na actividade agro-pecuária. “As famílias que perderam tudo por causa da guerra, hoje, estão a reconstituir-se com a prática da agricultura”, disse João Correia.
 
Contas da campanha
 
Mais de 300.000 toneladas de milho, massango, massambala e outros produtos do campo foram já colhidas, até agora, por camponeses, grande parte deles associados em cooperativas agrícolas.
O número de famílias envolvidas na campanha agrícola passada, na província da Huíla, ascende as 195.000 e lavraram uma área de 598.000 hectares. A regularidade das chuvas garantiu o sucesso da produção.
Para prevenir a carência de sementes e meios agrários, foram distribuídas às famílias camponesas associadas em cooperativas 445 ­toneladas de sementes de milho, feijão, massango, massambala, enxadas, catanas, machados, charruas e semeadores manuais, gado para tracção animal e 3.500 toneladas de fertilizantes.
No município da Chibia, localizado 45 quilómetros a sul da cidade do Lubango, os produtores colheram 52.000 toneladas de alimentos com destaque para cereais, uma quantidade que ultrapassa a cifra prevista que era de 29.000 toneladas.
A Estação de Desenvolvimento Rural trabalha na Chibia com 18 cooperativas compostas por pequenos e grandes agricultores, envolvendo ao todo 50.000 pessoas.
As colheitas registadas na província da Huíla reanimaram os novos e antigos postos de venda, onde é visível a exposição, sobretudo de milho, massambala, massango, feijão e ginguba, nos pequenos mercados informais localizados próximos da estrada que liga o Lubango a Quipungo, Matala e Jamba. Os mercados à beira da estrada entre o Lubango e Chicomba e Lubango, Cacula, Caluquembe e Caconda também estão repletos de produtos do campo.
Grandes quantidades de cereais são diariamente transportadas das zonas produtivas para os mercados formais e informais para comercialização. As indústrias transformadoras de milho, nomeadamente a Nova Cimor e a Moagem Moatrimil absorvem parte da produção.
 
Construção de silos
 
A rede de armazenamento de cereais começou a ser melhorada durante este ano, na província da Huíla, com a construção de silos com capacidade para 1.500 e 2.000 toneladas. O programa concebido pelo governo da província visa concentrar e conservar os cereais produzidos pelos camponeses.
Com a rede de armazenamento de cereais implantada em vários pontos da Huíla, há locais específicos para comercialização, principalmente de milho, valorização e uniformização dos preços e está garantida a conservação dos cereais.
O soba grande da Huíla, Joaquim Huleipo, disse que a construção dos silos é muito importante para os pequenos e grandes agricultores da província. “Temo-nos confrontado com a falta de locais para armazenar e comercializar melhor o milho”, disse. Os produtores, sublinhou, perdem grande parte das colheitas por serem conservadas em locais que permitem a entrada das águas da chuva. “Com os silos, os camponeses vão sentir-se aliviados no momento de conservar os produtos”.
Domingos Manuel, um comerciante de milho, disse que os silos, que já existiam na época colonial, surgem em boa altura, uma vez que se regista um aumento considerável dos campos de cultivo e das colheitas. Para adquirir milho e outros cereais, “os comerciantes sacrificam-se muito, percorrendo várias localidades à procura da melhor qualidade e preço. Com o surgimento dos silos, o preço vai ser uniformizado e não é necessário procurar muito”, disse Domingos Manuel à nossa reportagem.
Os agricultores, afirmou o produtor Carlos Vassapa, tinham de fazer praticamente tudo. Preparar a terra, cultivar, colher e ainda armazenar os produtos colhidos, escoar e comercializá-los. “Os silos vão aliviar a nossa missão de produzir”, disse.
Esta forma de organizar a agricultura, levada a cabo pelo governo da província, explica Carlos Vassapa, do município de Chicomba, revitaliza a ligação entre o campo e a cidade, melhora o controlo das colheitas e acaba com a especulação de preços.
Defendeu que a construção de silos deve ser um processo contínuo para abranger, numa primeira fase, as áreas mais produtivas e, depois, as menores: “É preciso também fomentar a construção e instalação de câmaras frigoríficas para conservar os produtos horto frutícolas”.
                          
Triângulo do milho
           
Chicomba, Caluquembe e Caconda são municípios conhecidos como o “triângulo da produção de cereais”, por causa da dedicação e empenho dos agricultores e das quantidades colhidas no final de cada campanha agrícola.
Para reactivar o “triângulo do milho”, as autoridades provinciais, através da sua Direcção da Agricultura, Desenvolvimento Rural e das Pescas, estão a investir com instrumentos agrícolas, envolvimento de mais camponeses, distribuição de terras para lavoura e outras condições para reconquistar as performances anteriores.
Em 2009, o “triângulo do milho” teve êxitos visíveis com o alcance de colheitas satisfatórias. Os dados indicavam 187.939 toneladas de alimentos produzidos, sendo 35.238 no município de Chicomba, 53.526 em Caconda e 65.175 no Caluquembe. Na campanha agrícola 2009/2010, as colheitas suplantam as da época anterior, fruto do envolvimento de famílias camponesas, distribuição de sementes, meios, fertilizantes e terras para o cultivo.
O município de Caluquembe colheu, numa área cultivada de mais de 52.000 hectares de terras, 73.650 toneladas de diversos alimentos, com realce para o milho, massango, massambala, feijão, amendoim, mandioca e batata.
A campanha contemplou, neste ano, mais de 17.000 famílias nas localidades de Ngola, Calepi, Kusse e outras zonas. Foram distribuídas mais de 30.000 toneladas de sementes, meios de trabalho e fertilizantes.

Tempo

Multimédia