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Província da Huíla tem menos analfabetos

André Amaro | Lubango

Na Huíla, a exemplo do que sucede por todo o país, o combate ao analfabetismo não conhece tréguas.

Um factor determinante para a rápida aprendizagem dos iletrados na província da Huíla é o empenho dos alfabetizadores
Fotografia: Arimateia Baptista|Huíla

Na Huíla, a exemplo do que sucede por todo o país, o combate ao analfabetismo não conhece tréguas. Cada vez há mais adultos a atirar preconceitos para trás das costas e a abdicar de horas de descanso para aprenderem a ler e a escrever. Há mesmo quem de iletrado tenha passado a alfabetizador e frequente, mesmo, o ensino médio de Educação e Economia  
Nunca é tarde para aprender a ler e a escrever. Esta é a esperança que Juliana António alimentou desde a adolescência. Aos 48 anos, aprendeu, finalmente, o ABC e já lê o jornal e faz contas sem ter de recorrer à ajuda dos vizinhos ou dos filhos. Tudo isso foi conseguido graças ao Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE) lançado pelo Ministério da Educação para erradicar o analfabetismo do país.
Vendedora do mercado informal “João de Almeida” há mais de dez anos, Juliana António sempre quis estudar, mas circunstâncias da vida impossibilitaram-na de realizar o sonho.
Juliana nasceu na comuna do Galangue, onde não havia escolas e quando se mudou para a cidade, engravidou e teve de fazer negócios para dar de comer ao filho.
Depois vieram mais cinco e a separação do marido. As responsabilidades aumentaram, mas a esperança de apreender a ler e a escrever também.
Depois do lançamento do programa pelo Ministério da Educação no mercado “ João de Almeida”, foi das primeiras candidatas da 1ª classe. Três meses depois, já sabia ler, escrever e passou para a 2ª, onde, entre outras coisas, aprendeu a ler e a escrever os nomes do Presidente da República, de ministros, governadores provinciais, capitais de província.
 “Nós, que vendemos no mercado, não temos tempo para frequentar aulas na escola, mas com este projecto de levar os alfabetizadores ao nosso local de trabalho as coisas ficam facilitadas”, disse, radiante, ao Jornal de Angola.
António Jacinto, outro aluno, sente-se “mais valorizado pela sociedade e com a mente aberta ao conhecimento” desde que aprendeu a ler e a escrever no mercado do Calumbiro. Frequenta a 4ª classe e, garante, “está a valer a pena gastar uma hora todos os dias para assistir às aulas de alfabetização porque aprende-se muita coisa sobre o país e o mundo”.
 “Graças a este projecto e à paciência dos alfabetizadores, já sei formar palavras, escrever o meu nome completo, ler textos, identificar sinónimos e antónimos e outros conhecimentos gerais”, afirmou.
A ideia de que nunca é tarde para aprender é também corroborada por Mariana Cassova que, aos 51 anos, no bairro Comandante Cow-boy, na cidade do Lubango, onde reside, aprendeu a ler e a escrever emportuguês e  umbundu.
Durante os seis meses de frequência de aulas, já consegue escrever o nome completo, ler a Bíblia na Igreja e ensinar o ABC a outras pessoas.
 “Estou a dar o meu contributo para que outras mamãs e papás saiam das trevas e conheçam a verdade que nos rodeia através dos livros”, disse em umbundo.
 
Milhares de alfabetizados
 
Desde o início do Programa Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE), em 2007, pelo Ministério da Educação, 75 mil adultos aprenderam a ler e a escrever na província da Huíla. Para que isto fosse possível, a direcção provincial da Educação colocou nos 14 municípios da Huíla 450 alfabetizadores, que trabalham em parceria com instituições religiosas, Organização da Mulher Angolana e outras instituições da sociedade civil.
 O coordenador do Programa de Alfabetização na província, Marcos José, disse, ao nosso jornal, que o número de analfabetos diminui anualmente graças a projectos desenvolvidos pelo Executivo.
No âmbito do processo da reforma educativa em curso no país, lembrou, está previsto que o alfabetizado durante o ano lectivo pode fazer simultaneamente a 2ª e 3ª classes ou a 4ª e 5ª, o que corresponde a um ciclo formativo.
Esta facilidade, referiu, tem incentivado os analfabetos a aderirem aos projectos realizados pelo sector da Educação nos locais de maior concentração populacional.
 
Adesão 
 
Na Huíla, 46.194 pessoas, a maioria mulheres, frequentam aulas de alfabetização, que decorrem em todos os municípios.
O inspector chefe da Direcção Provincial da Educação na Huíla, Luís Kambinda, disse que “o processo está a decorrer melhor do que se esperava”, pois, todos os anos, aumenta o número de matriculados.
O governo provincial, afirmou, está preocupado em reduzir o número de analfabetos e por isso promove um conjunto de acções em parceria com instituições religiosas, Polícia Nacional e Forças Armadas Angolanas.
No presente ano, revelou, estão matriculadas no primeiro modelo (1ª e 2ª classes) 27.760 pessoas e 18.434 no segundo (3ª e 4ª classes), cujo aproveitamento é positivo. O processo de alfabetização, realizado a nível das escolas, mercados informais, instituições religiosas, quartéis, dispõe de 450 alfabetizadores.
 
Empenho de alfabetizadores
 
Um factor determinante para a rápida aprendizagem dos iletrados é o empenho dos alfabetizadores.
Albertino Ângelo declarou, ao Jornal de Angola, que a tarefa não é fácil por a maior parte dos alunos ter mais de 30 anos e poucos conhecimentos da língua portuguesa.
Mas, frisou, com o grande empenho de todos, alunos e professores, têm-se conseguido milagres.
Além da aprendizagem da escrita e da leitura, referiu, o processo de alfabetização ensina os alunos a protegerem o meio ambiente, a cultivarem hábitos de higiene e a observarem medidas preventivas de doenças.
Mariana Januário, alfabetizadora do bairro Nambambe, disse sentir-se satisfeita por ensinar tantas pessoas a ler e a escrever: 
“Os adultos têm muitos problemas em fixarem as palavras e, por isso, é preciso muita paciência, repetir as letras, pelo que, normalmente, levam três meses a aprenderem a ler e a escrever o nome completo”.
As pessoas, congratulou-se, estão afluir em massa aos locais de alfabetização, principalmente as mulheres, algumas das quais acabam por se tornarem formadoras.
“A alfabetização é feita em português e em nyaneka umbi e umbundo e ensinamos o nome de personalidades, como o Presidente da República, ministros e governadores provinciais, e de locais como as capitais de província”, referiu.

Benefícios
           
A directora da Educação para o Ensino Geral na província, Paula Jacob, disse serem “benéficos os resultados que o programa de alfabetização tem na vida das comunidades, sobretudo no desenvolvimento sustentável”.
 “As pessoas já têm a preocupação de tratar do Bilhete de Identidade e da Cédula Pessoal, de abrir conta bancária, de aceder a manuais com conteúdos sobre saneamento básico e prevenção de doenças”, disse, adiantando. No fundo, fruto da alfabetização, têm podido exercer a sua cidadania”.
Maria Joaquina, que foi aluna e é agora professora salientou que há quem não soubesse ler e escrever e frequenta agora o ensino médio de Educação e Economia.
“Quando um adulto aprende a ler e a escrever sente o desejo de continuar a estudar para contribuir para o desenvolvimento do país”, rematou.

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