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Sans inseridos em projectos agrícolas

João Luhaco | Lubango

Um total de 144 famílias da comunidade San, em três localidades dos municípios da Cacula e Quipungo, na província da Huíla, está inserido num projecto de melhoramento das unidades de produção agrícola, no âmbito do programa de “segurança alimentar e nutricional", avaliado em 190 mil euros.

Trabalho no campo está a permitir fazer com que vários membros da comunidade San deixem de ser nómadas
Fotografia: Cedida

O projecto, com um prazo de execução previsto para três anos, está incluído nas acções da Organização Cristã de Apoio ao Desenvolvimento Comunitário (OCADEC), em parceria com o Gabinete Provincial da Agricultura, administrações dos referidos municípios e suporte financeiro da MISEREOR, uma organização da Igreja Católica. 

A implementação do projecto teve início há dois anos e consiste no fornecimento de insumos agrícolas e acompanhamento técnico.
O coordenador da OCADEC , Benedito Quessongo, informou ao Jornal de Angola que no trabalho de melhoramento das unidades de produção fornecem às famílias culturas típicas da região, tais como sementes de milho, massango e massambala. Para mitigar os efeitos da seca que assolou as localidades têm introduzido sementes de hortícolas, além do apoio em ferramentas agrícolas, como charruas, enxadas e catanas.
Benedito Quessongo explicou que nos últimos três anos, com a parceria da MISEREOR , têm estado a trabalhar na promoção do acesso às terras para a prática da agricultura familiar, que era uma das queixas nas comunidades San, onde a fome atingia níveis muito altos, o que lhes devolveu a possibilidade de produzirem alimentos. Informou que antes deste projecto haviam já distribuído gado de tracção para a lavoura em duas comunidades, concretamente no Mutembati, município do Quipungo, e na Hupa, em Cacula. Garantiu que os animais continuam a ajudar na produção agrícola.

Socialização

O coordenador da OCADEC informou que a instituição está a trabalhar num processo de socialização, que visa integrar os San nas comunidades. As acções em curso abrangem 279 famílias, das quais 144 da comunidade San, nas localidades da Hupa, no município da Cacula, e duas em Quipungo, no Mutembati e Deruba. Segundo Benedito Quessongo, além de projectos agrícolas, outras actividades têm sido incentivadas, como, por exemplo, o trabalho de artesanato e a exploração de mel.
Informou que estão a trabalhar também para facilitar que as crianças das comunidades San sejam registadas, para que possam ir à escola. “Nos San ainda existem muitos pais que não são registados, o que dificulta o registo dos filhos. Então, primeiro registam-se os pais, depois as crianças”, disse.
Referiu estarem também abertos para a participação de pesquisadores. Disse que neste campo têm por exemplo alguns estudantes do Isced-Huíla, sobretudo os do curso de História, que têm estado a fazer algum trabalho de pesquisa, realizando estudos para ver como está o processo da interacção entre a família, a criança e a escola. “O objectivo é de tentar identificar as necessidades específicas dos professores, porque não é qualquer professor que deve lidar com as populações rurais”.
O coordenador da OCADEC disse que em Novembro do ano transacto foi realizada uma conferência provincial, no município do Quipungo, sobre a Inserção Social e Produtiva da Comunidade San, que, segundo informou, foi um momento que serviu para juntar o Governo Provincial, através do gabinete da vice-governadora para o Sector Social e Político, os gabinetes provincial da Agricultura e da Acção Social, administrações municipais e a coordenação do Parque Nacional do Bicuar, que possui uma vasta comunidade San ao seu arredor.
A conferência contou também com a participação de algumas comunidades San da Namíbia, que trouxeram as suas experiências no domínio da organização comunitária, liderança e cooperação dos governos com as comunidades, para facilitar todo o processo de reintegração.

Organização comunitária

A OCADEC e estudantes do Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA) estão a trabalhar na questão da organização comunitária, para transmitirem aspectos básicos às mulheres, tais como a maneira de cuidar da família, a preparação dos alimentos, a organização da casa, bem como ensinamentos sobre economia familiar, com realce ao tema de como poupar dinheiro, segundo Benedito Quessongo.
O responsável da OCADEC informou que já se pode encontrar resultados palpáveis de inclusão da comunidade San nas três localidades em que a instituição está presente, a nível da Huíla, nomeadamente no Mutembati e Deruba, município do Quipungo, e Hupa, na Cacula. “ Eles podem até ir caçar durante dois ou três dias e depois voltam. Encontramos também infra-estruturas, como casas e cubatas, que mostram que as pessoas estão aí e por muito tempo. Já não se trata de abrigos, feitos com material provisório, mas de construção de cubatas, que mostram que a pessoa vai e volta e está aí para ficar”, explicou.
Garantiu que as famílias têm unidades de produção agrícola, o que lhes dá motivos suficientes para ficarem. Apontou a existência de outras infra-estruturas, como por exemplo na localidade da Hupa, que, no âmbito de um projecto, em parceria com o UNICEF, conta com “Tendas Escolas”.

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