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Idosos festejam Natal no comboio da paz

Domingos Mucuta | Lubango

Os cânticos começaram na sala de espera da estação ferroviária central do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes (CFM) no Lubango. A música “Mboio”, interpretada pela cantora Pérola, original do conjunto Duo Canhoto, foi a mais cantada durante a viagem do Natal dos idosos.

Os idosos ficaram satisfeitos por andarem pela primeira vez de comboio e outros por voltarem a viajar nele muitos anos depois
Fotografia: Dombele Bernardo | Lubango

Mais de 100 anciãos ocuparam as carruagens disponibilizadas pela administração do CFM para proporcionar momentos de alegria e descontracção. A mais velha Juliana Sokopia, 103 anos, é a última da fila e segue com passos lentos a caminhada dos outros idosos.
Juliana Sokopia já não tem a mesma acutilância da juventude, por isso segue devagar. A vida ensinou-lhe que não precisa de correr contra o tempo.
A anciã preferiu sentar-se ao lado da janela para reviver a sensação de viajar de comboio. A última viagem aconteceu antes da independência. O tempo apagou da sua memória o dia e o ano.  Apesar do peso da idade, que a obriga a caminhar devagar e apoiada por uma bengala, Juliana Sokopia tem a lucidez suficiente para notar a diferença entre o comboio da era colonial e o de Angola em paz.
A idosa, natural do Bailundo, a­companha o ritmo do grupo que continua a cantar “Mboio”.  No intervalo da cantoria garante à nossa reportagem que as carruagens ­oferecem mais conforto do que as dos comboios que circulavam antes da independência. “Este comboio é muito diferente. Não faz barulho como antes. As cadeiras parecem colchões. Está muito bonito”, diz a mais velha com um sorriso de satisfação. E lembra que a sua última viagem, antes da Independência Nacional em 1975, foi do Lubango até à antiga cidade de Moçâmedes, hoje Namíbe.
A viagem de comboio está integrada no Natal do Idoso. Na carruagem também embarcou a vice-governadora da Huíla, Maria João Chipalavela, que conviveu, lanchou e dançou com os anciãos.  Outros mais velhos manifestaram também satisfação por andarem no comboio que depois de uma viagem agradável parou na estação de Canguinda, nos arredores do bairro do Tchioco, onde está o lar da terceira idade, que acolhe 64 idosos
Os idosos ficaram satisfeitos por andarem pela primeira vez de comboio e outros por voltarem a viajar muitos anos depois. Juliana Sokopia agradeceu a iniciativa: “estou muito feliz e agradecida. Precisamos ter fé e esperança de que o futuro será sempre melhor que o presente e o passado”. Juliana Sokopia continua a cantar e contempla pela janela a paisagem. Depois exclama: “está ali o Cristo Rei”.Gervásio Lindilandila, de 78 anos, disse que já não entrava num comboio há muitas décadas.
Ex-funcionário público, Gervásio, natural da província do Cunene, vai começar a receber a pensão a que tem direito como reformado. Quando isso acontecer, deixa o lar da terceira idade e parte para a terra natal, onde quer viver ao lado da família. O viúvo, que perdeu dois filhos na guerra, quer mudar de vida e gozar com dignidade os benefícios do seu esforço ao longo de anos de trabalho. Nascimento Sambungo, 89 anos, considerou a viagem maravilhosa: “este comboio é melhor do que um avião. Não treme e faz pouco barulho, gostei muito”.

Assistência social

A directora provincial da Assistência e Reinserção Social disse que a viagem de comboio visou proporcionar momento de lazer, convívio e socialização aos idosos, além de mostrar os ganhos da paz e a dinâmica de desenvolvimento do país.Maria Casimiro disse que no quadro da política de apoio à Terceira Idade, 21.275 idosos da província da Huíla beneficiam de assistência social no lar e nas comunidades da província.
“Continuámos a trabalhar para apoiar os idosos. Um lar não é suficiente para garantir assistência e acolher todos carenciados da nossa província. Por esta razão, idosos das comunidades têm sido acompanhados pelos técnicos”, referiu.
Acrescentou que além de assistência material os idosos beneficiam também do programa de terapia ocupacional que tem como objectivo valorizar os anciãos “Quando o idoso fica sem fazer nada tem a sensação de que é uma pessoa inútil o que não corresponde à verdade.
A ocupação do idoso em trabalhos artesanais devolve-lhes a esperança numa vida risonha”, afirmou.

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