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Jovens vindos do Congo trabalham nas estradas

Filipe Eduardo|

Dezenas de jovens repatriados da República Democrática do Congo (RDC) trabalham na reparação da estrada que liga Mbanza Congo ao Nzeto. A reportagem do Jornal de Angola constatou o ritmo acelerado dos trabalhos de asfaltagem da estrada num percurso de 150 quilómetros.

Nicolau Makaya e Jorge Lutala (direita) estão satisfeitos com o trabalho
Fotografia: Adolfo Dumbo

Dezenas de jovens repatriados da República Democrática do Congo (RDC) trabalham na reparação da estrada que liga Mbanza Congo ao Nzeto. A reportagem do Jornal de Angola constatou o ritmo acelerado dos trabalhos de asfaltagem da estrada num percurso de 150 quilómetros.
Pedro Simão, 30 anos, regressou ao país com a mulher e quatro filhos, com a mala vazia, e trabalha há seis meses na reabilitação da estrada. Disse à nossa reportagem que sente uma alegria dupla: “primeiro porque encontrei uma forma de sustentar a minha família e segundo porque é uma honra participar na reconstrução do país”.
Pedro Simão, de pá nas mãos protegidas por luvas, afirma que depois de ter abandonado a actividade de motorista numa empresa de transportes, na localidade de Lukala, a 150 quilometros de Kinshasa, só pensa em cuidar da família, sobretudo o mais novo dos filhos que na altura da expulsão da República Democrática do Congo tinha apenas dois anos.
“A minha esperança renasceu a partir do dia que comecei a trabalhar e faço tudo com afinco e dedicação, porque afinal de contas estou a construir a estrada por onde eu, a minha família e os angolanos de outras partes do país havemos de circular”, afirmou.
Outro motivo de satisfação, afirma Pedro Simão, é ver que todos os companheiros mostram interesse em aprender algo com os técnicos chineses, muito embora a língua dificulte um maior intercâmbio de ideias: “mas bem ou mal lá nos vamos entendendo”, disse.
Outro jovem repatriado e que encontrou emprego foi Nicolau Mavakala, 29 anos, pai de duas filhas. É o seu primeiro emprego em Angola. O salário é de 400 kwanzas por dia e à vontade de ganhar o pão de cada dia junta-se a necessidade de contribuir com o seu suor para a criação de vias melhores na região, para uma vida cada vez mais digna de toda a população.
Para quem regressou ao país sem a mínima preparação, diz Mavakala, a sua condição de trabalhador é motivadora, porque é com o seu trabalho que consegue sustentar a sua família.
Nicolau Mavakala está a aprender a português com um vizinho. Quando aprender a língua quer voltar a estudar e terminar o curso de contabilidade que começou na República Democrática do Congo, mas para já a sua maior atenção está concentrada na empreitada da estrada de Mbanza Congo ao Nzeto.
Jorge Lutala, o mais novo do grupo, 19 anos, veio para Angola com os pais, já de idade avançada. Diz que o trabalho é digno, apesar de ser duro e com uma remuneração fraca. Para o jovem, este trabalho é imperioso, pois vai trazer no futuro benefícios para todos. 

Barra do Dande-Nzeto

A reabilitação da estrada entre a Barra do Dande, na margem do rio Lufune, e a vila do Nzeto, num percurso de 170 quilómetros, está a ser aguardada com ansiedade pelos automobilistas e passageiros que se deslocam às cidades de Mbanza Congo e Soyo.
Francisco João Lopes, 40 anos, 18 dos quais dedicados à camionagem, faz o percurso entre Tomboco e Luanda pelo menos uma vez por semana. No Tomboco compra laranja, banana e carvão para depois revender no Mercado dos Kwanzas, nos arredores de Luanda.
Afirma que o mau estado da via provoca muitos problemas a quem vive do transporte de carga e passageiros. Para quem como ele faz mensalmente pelo menos quatro viagens naquele percurso, os rendimentos são reduzidos, porque grande parte dos lucros vão para a manutenção e reparação da viatura.
Francisco João Lopes afirma que quatro a cinco horas é o tempo mínimo para chegar ao destino, dependendo do tipo do veículo, se está carregado ou não e da habilidade do condutor. Francisco Lopes precisa de pelo menos seis a sete horas para percorrer os 170 quilómetros com a carrinha carregada. “O importante é chegar”, afirma o motorista.
Jorge João Makiesse, 60 anos, faz uma breve paragem na localidade dos Libongos para reorganizar a carga. A viagem é cansativa, mas requer paciência e calma. Jorge Makiesse tem como destino a capital da província do Zaire, Mbanza Congo.
Diz que o mau estado da estrada, sobretudo o desvio do Nzeto para a cidade do Soyo, está dentro das preocupações do Executivo e em breve vai conhecer melhorias.  Jorge Makiesse, com a sua carrinha carregada que nem uma montanha, afirma que a reabilitação da estrada que liga as províncias do Bengo e do Zaire vai dar maior impulso à actividade dos produtores agrícolas e facilitar a vida da população.
Bernardo Agostinho Banvo, ajudante de autocarro, que faz o percurso Soyo-Luanda, diz que enquanto decorre a reparação da estrada, à semelhança do que acontece com a via Mbanza Congo-Nzeto, a distância é sempre medida em horas. A programação do tempo de viagem é quase impossível.
Outra complicação tem a ver, segundo Bernardo Banvo, com a demora nos controlos da Policia Nacional, provocada particularmente pelos cidadãos que não se fazem acompanhar da devida documentação. Alguns passageiros, apesar dos transtornos, compreendem perfeitamente a situação.O problema, diz o jovem de 23 anos e pai de uma filha, tem a ver sobretudo com os passageiros estrangeiros e que às vezes tentam alcançar a capital do país sem obedecer aos pressupostos legais. Apesar da demora, Banvo diz que o trabalho de controlo se impõe. Uma viagem de autocarro no percurso Soyo-Luanda custa 3.000 kwanzas e Banvo transporta semanalmente 49 passageiros nos dois percursos.

Máquinas em movimento

Os preparativos para a reabilitação da estrada que liga o Nzeto ao Soyo estão em estado avançado. Ao longo da via podem ser vistos várias máquinas e estaleiros com materiais de construção para a reparação da via. Os trabalhos de terraplanagem estão concluídos e arranca agora a fase da colocação do tapete de asfalto.

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