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Áreas do Rivungo querem afirmação

Carlos Paulino | Rivungo

O município do Rivungo, incrustado na parte leste do território da província do Kuando-Kubango, é hoje uma localidade que luta pela sua afirmação e clama por uma intervenção urgente do governo para ver melhoradas as infra-estruturas sociais de apoio à população, deixadas em escombros durante o conflito armado, que remeteu a população a uma situação penosa.

Alunos da única escola do ensino primário de duas salas de aula construída recentemente na sede municipal do Rivungo
Fotografia: Nicolau Vasco

O município do Rivungo, incrustado na parte leste do território da província do Kuando-Kubango, é hoje uma localidade que luta pela sua afirmação e clama por uma intervenção urgente do governo para ver melhoradas as infra-estruturas sociais de apoio à população, deixadas em escombros durante o conflito armado, que remeteu a população a uma situação penosa.
Já o sol caminhava alto quando os dois helicópteros que transportavam a delegação governamental aterraram, na semana passada, num campo improvisado, defronte do Comando Municipal da Polícia Nacional, no interior da sede do município de Rivungo, pelo facto de o aeroporto local estar inoperacional. As obras de restauro foram pagas a 100 por cento, mas o empreiteiro abandonou-as sem qualquer motivo aparente.
No local, um aglomerado de populares dançava ao ritmo de cânticos tradicionais da região, em sinal de boas vindas à delegação visitante, que num futuro breve pode ser responsável pelo virar de página nas vidas das pouco mais de 70 mil almas que habitam aquela região do Sudeste de Angola e que todos os dias lutam pela sobrevivência.
Feitas as honras da casa pelo administrador municipal, Gabriel Tchitumbo, o governador Eusébio de Brito Teixeira apresentou o ministro dos Transportes e Comunicações da Zâmbia, Geofferey Lungwangwae, aos restantes membros da comitiva e explicou os objectivos da presença naquele local das eminentes personalidades.
O administrador municipal aproveitou para apresentar um memorando que espelha bem as enormes dificuldades e vicissitudes por que passa a população local, afirmando que no município falta quase tudo, desde bens de primeira necessidade a escolas, hospitais, lojas comerciais oficiais e técnicos para assegurarem o funcionamento das instituições de apoio aos habitantes do município.
Com uma extensão territorial de 29.510 quilómetros quadrados, a população do Rivungo tem na agricultura de subsistência e na pastorícia as suas principais fontes de rendimento. À falta de apoios, associa-se a devastação constante a que estão sujeitas as culturas por manadas de elefantes e de hipopótamos.
 
Educação e saúde à base de improviso
 
Um dos principais serviços do Estado no apoio às populações é exactamente a educação e a saúde, dois sectores vitais que no município do Rivungo funcionam de improviso, devido à falta de infra-estruturas adequadas e de técnicos capazes de pôr a máquina a funcionar.
Segundo o administrador, no município, com duas comunas, designadamente Luiana e Tchipundo, somente na sede municipal foi construída recentemente uma escola do ensino primário, com duas salas de aula, estando um universo de 14.142 alunos, matriculados no presente ano lectivo, sujeitos a estudarem debaixo das árvores.
Realçou que o ensino no município é assegurado por 47 professores, que leccionam do ensino de base até à 9ª classe, muito mais por amor à pátria, ou para não perder as suas aptidões, já que estes docentes não constam da folha de pagamentos do Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social (MAPESS), não sendo, portanto, pagos pelo trabalho que realizam.
Para o curso normal das aulas, os encarregados de educação de cada aluno contribuem, sempre que possível, com bens alimentares ao seu alcance para assegurar o sustento dos professores e evitar que estes não deixem de ensinar os seus filhos a ler e a escrever. Mesmo assim, o município tem cerca de 10 mil crianças fora do sistema de ensino.
Face a esta situação gravíssima, o governo da província realizou já um concurso no município no qual foram apurados 140 técnicos básicos e 10 médios, cujo processo de cadastramento está a decorrer a bom ritmo a nível do Ministério das Finanças, MAPESS e do Tribunal de Contas, situação que tem vindo a acalentar esperanças no seio dos professores do Rivungo.
Além da Educação, o sector da Saúde vive os mesmos problemas, notando-se uma gritante escassez de infra-estruturas, técnicos e medicamentos. A assistência à população é feita em locais improvisados, como cubatas de pau-a-pique cobertas de capim e nalguns casos ao ar livre.
Os casos mais graves são encaminhados para a sede municipal de Mavinga, que dista cerca de 410 quilómetros de Rivungo, mas devido ao péssimo estado das estradas muitos pacientes acabam por morrer pelo caminho, sendo este um dos principais problemas que deixa o administrador e o seu staff preocupados.

Grandes distâncias travam crescimento

Pelas dificuldades expostas, com realce para as grandes distâncias que separam as duas localidades, o administrador do Rivungo rogou às autoridades da província no sentido de intercederem junto de quem de direito para que seja construído um hospital municipal, que possa fazer face aos casos de malária, diarreias, vómitos, doenças respiratórias agudas, tosse convulsa, doença do sono e outras patologias.  No domínio do Programa de Intervenção Municipal (PIM), a administração foi contemplada com uma verba, que o administrador não especificou, mas garante que a mesma é irrisória para fazer face ao mar de dificuldades vividas pela população do Rivungo.
Ainda assim, disse, foi possível concluir as obras de reabilitação da casa de passagem da administração municipal, da residência do administrador comunal adjunto de Tchipundo, pagar aos serviços de monitorização dos projectos, ao fiscal das obras, à empresa Wetekela e os dois barcos para a travessia, que chegarão ao Rivungo em breve, através do distrito de Shangombo (Zâmbia).
Outros gastos cingiram-se essencialmente aos trabalhos de recuperação do sector de energia, destacando-se a colocação de postos de iluminação pública nas ruas da sede municipal e a extensão da linha de fornecimento de corrente eléctrica a residências de populares.
A referida verba serviu ainda para pagar, na ordem de 50 por cento, as obras de construção de duas residências do tipo T3 na comuna do Luiana, a reabilitação da casa de passagem para o sector da educação na sede municipal e a reconstrução de uma escola com duas salas de aula na comuna do Tchipundo.
 
Abertura do canal fluvial acalenta esperança de vida

A abertura de um canal fluvial sobre o rio Kuando, que doravante passa a ligar a sede municipal do Rivungo e a localidade zambiana de Shangombo, está a criar enormes expectativas no seio das populações, ávidas por uma via nova de locomoção para fazer compras na Zâmbia, o único mercado próximo e ao qual acorrem sempre.
Este foi, aliás, o principal objectivo da deslocação do governador provincial do Kuando-Kubango, Eusébio de Brito Teixeira, àquela localidade, acompanhado do ministro dos Transportes e Comunicações da Zâmbia, Geofferey Lungwangwa, que visitaram as duas localidades para avaliarem as reais necessidades para a concretização do projecto.
Durante a visita, que permitiu a assinatura de um memorando entre o governo do Kuando-Kubango e as autoridades da Zâmbia, ficou definido que o canal vai ter uma extensão de dez quilómetros ao longo dos quais os técnicos dos dois países deverão efectuar a dragagem das águas e construir infra-estruturas de apoio, como a ponte cais e um aeródromo em ambas as localidades.
O vice-ministro angolano dos Transportes, José João Kuvingua, o embaixador de Angola na Zâmbia, Pedro Neto, bem como o governador da província zambiana de Mongu, Masheke Kabayo, e o administrador de Shangombo, Ronalds Kaambwa, também visitaram o local onde vai passar o canal fluvial.
Gabriel Tchitumbo disse que este projecto é de capital importância para a população do Rivungo, como também para as de Shangombo, porque, além dos laços familiares existentes entre um e outro lado, vai facilitar a travessia do rio Kuando, que é muito extenso, e permitir, deste modo, que as pessoas possam adquirir bens diversos em território zambiano, enquanto se aguarda pela recuperação das nossas estradas.

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