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Chiengo também já tem o seu centro de saúde

Ferraz Neto | Chiengo

Pela primeira vez desde a sua existência como povoação, Chiengo, no município do Cuchi, passou a dispor de uma unidade sanitária, construída de raiz pelo governo da província do Kuando-Kubango.

O novo posto de saúde evita que os doentes caminhem a pé ou sejam carregados de tipóia 50 quilómetros até ao Cuvango
Fotografia: Nicolau Vasco| Chiengo

Pela primeira vez desde a sua existência como povoação, Chiengo, no município do Cuchi, passou a dispor de uma unidade sanitária, construída de raiz pelo governo da província do Kuando-Kubango. A falta de assistência médica levava os populares a andar mais de 70 quilómetros para serem assistidos no Cuvango, município da província da Huíla.
O sofrimento dos pacientes no Chiengo não residia apenas na falta de assistência médica, mas também no transporte inexistente. À falta de meios adequados, os doentes eram carregados de tipóia ou de carroça para o centro hospitalar do município huilano do Cuvango. 
Chiengo é uma terra destituída de quase todo o tipo de equipamento e serviços. Neste pedaço de Angola, de dificílimo acesso terrestre, as notícias do resto do país demoram semanas e até meses a chegar. Em termos de telecomunicações, não há absolutamente nada: nem telemóvel, nem o sinal da Rádio Nacional de Angola (RNA). 
A aldeia é constituída por casas de pau a pique com cobertura de capim. Os seus habitantes são, na maioria, crianças, jovens  e adultos que pertenceram anteriormente às colunas de abastecimento da UNITA. Lievela era então uma espécie de placa giratória das ex-forças militares dessa organização para as províncias da Huíla e Bié.
A maioria dos mais velhos foi arrebanhada das suas terras de origem. Transformados em meios de transporte logístico, os populares circulavam de uma região para outra: hoje podiam estar no Mumbué (Bié), amanhã no Galanga (Huíla) e depois numa outra localidade remota qualquer da Angola mais interior. Muitos já não se lembram dos familiares, esqueceram-se dos seus verdadeiros parentes.
Até aqui, a assistência sanitária era feita com recurso a plantas medicinais e a rituais tradicionais. Pelo facto de ser bastante penoso, só em casos extremos os doentes eram transportados para o Cuvango, onde, não raras vezes, chegavam já em estado terminal ou na condição de cadáveres.
“Nem sempre os pacientes aguentavam a caminhada. Muitas vezes acabavam por morrer”, afirma o regedor Miguel Elias, líder das autoridades tradicionais do Chiengo.

Com o coração nas mãos

Administrativamente, Chiengo depende da sede comunal do Cutato, município do Cuchi. Do Chiengo a Cutato são cerca de 75 quilómetros de matagal e estrada arenosa. A viagem é um martírio e não é para qualquer viatura. Nem para qualquer motorista. 
Vários riachos sem pontes cruzam a estrada e interrompem a viagem. As picadas, em mau estado de conservação desde a época colonial, tiram o sossego aos viajantes que, quase literalmente, “ficam com o coração nas mãos”.  
A localidade importante mais próxima de Chiengo é o município do Cuvango, a 50 quilómetros. Daí que os populares se desloquem para lá, não só para assistência médica mas também para aquisição de bens de primeira necessidade transformados.  
Ao longo da viagem a pé, os populares são frequentemente surpreendidos por animais selvagens que, ávidos de alimentação, os atacam. Caso a viagem seja feita em carroças puxadas por bois, o perigo é representado pelos elefantes. “Os elefantes destroem as árvores e fecham a via”, explica o regedor Miguel Elias.
 
O novo centro médico

Nos festejos do Dia do Herói Nacional, o 17 de Setembro, a inauguração do Centro de Saúde era a melhor prenda que os 1.780 habitantes da povoação do Chiengo podiam esperar. O Centro está modernamente equipado e foi construído com fundos do Programa de Investimentos Municipais (PIM).
A unidade sanitária, inaugurada pelo governador provincial do Kuando-Kubango, Eusébio de Brito Teixeira, tem um consultório, enfermaria, farmácia, laboratório, sala de espera e duas casas de banho. O custo da obra não foi especificado.
No acto inaugural, os habitantes e os visitantes provenientes de Luanda, Menongue e Cuchi quase não cabiam na pequena aldeia do Chiengo. A alegria transparecia no rosto de todos. “Estamos satisfeito por ganhar este lindo e bem apetrechado Centro de Saúde”, referiu Sebastião Benjamim, residente no Chiengo há cinco anos.  Apenas um enfermeiro está destacado no Centro de Saúde. Trata-se de Paulo Dias Samba, transferido da sede municipal do Cuchi, na segunda quinzena de Setembro. Apesar do curto espaço de tempo que passou desde que ali chegou, Paulo Samba não tem dúvidas e caracteriza a situação sanitária local como “bastante preocupante”. “Diariamente chegam ao Centro pessoas com diarreia de sangue, malária, pneumonia e bronquite aguda”, explica.
O consumo de água não tratada, recolhida directamente do rio, é uma das principais causas das doenças.  “A população consome água do rio, nos pontos onde os elefantes, hipopótamos, javalis, leões e outros animais também vão beber e recrear-se”, realça o enfermeiro Paulo Samba.
A saída, segundo Paulo Samba, reside na construção de poços, onde a população possa adquirir água com níveis de potabilidade aceitáveis.
Uma das missões incumbidas ao Centro de Saúde é a de trabalhar também na prevenção das doenças, educando a população sobre as melhores práticas para a prevenção de doenças.

Uma escola em construção
 
Quanto ao sector de educação, 226 alunos, da primeira à oitava classes, frequentam aulas em salas improvisadas à sombra de árvores. Cerca de três mil crianças estão fora do sistema de ensino. 
Uma escola com seis salas de aula está em fase de conclusão. A obra, que teve o seu arranque em Setembro de 2009, está a cargo da empreiteira DESIL.
Além das salas de aula, a instalação escolar terá uma sala para professores, dois gabinetes para os directores geral e pedagógico e oito quartos de banhos.
“Até Novembro deste ano, a escola deverá ser entregue ao governo provincial do Kuando-Kubango”, garantiu o encarregado da obra, Abel Manuel Segunda.
Jemita Mutangue, residente no Chiengo há 12 anos, tem bem presente na memória os anos de guerra. Do passado ao presente, realça as transformações que se operaram na vida dos habitantes desta parcela do território nacional. “No tempo da guerra a vila era capim. Hoje há hospital e teremos brevemente uma escola”.
Parecendo pequenas a um estranho, no contexto da povoação do Chiengo e dos seus habitantes tais mudanças são de enorme alcance, arrastam consigo outras e elevam a esperança e a forma de encarar o futuro. Apesar de isolada do resto do país, a população do Chiengo sabe que faz parte de um todo mais vasto chamado Angola e que se encontra num caldeirão de transformação. Muitos dos seus habitantes já pensam em aprender a ler e escrever.
“Estou nas aulas de alfabetização para aprender a escrever o meu nome e ler os livros”, salienta Jemita Mutangue. 

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