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Cuito Cuanavale ganha nova vida

Ferraz Neto | Cuito Cuanavale

Os bairros de Sã Maria e Cambamba, arredores da sede municipal do Cuito Cuanavale, província do Kuando-Kubango, vão passar a dispor, dentro em breve, de novos empreendimentos sociais edificados no âmbito do Programa de Intervenção Municipal. Paulatinamente, o sonho renasce no município.  

Com a construção de novos sistemas de captação melhorou o abastecimento de água
Fotografia: Ferraz Neto|Cuito Cuanavale

Os bairros de Sã Maria e Cambamba, arredores da sede municipal do Cuito Cuanavale, província do Kuando-Kubango, vão passar a dispor, dentro em breve, de novos empreendimentos sociais edificados no âmbito do Programa de Intervenção Municipal. A pouco e pouco, o sonho renasce no município. 
Sã Maria e Cambamba são lugares de referência na história recente de Angola. Lá tombaram valiosos filhos de Angola, que se bateram pela integridade territorial do país durante a célebre Batalha do Cuito Cuanavale. Tanques de guerra e carros queimados ainda jazem à beira das estradas, meio cobertos pelo capim e poeira. Mas aos poucos o cenário está a mudar. Um pouco por todo o lado de Sã Maria e Kambamba surgem obras construídas de raiz. 
Esta realidade tem estado a facilitar a vida dos habitantes e das autoridades administrativas locais, que outrora se viam a braços com inúmeras dificuldades para verem solucionados alguns dos problemas prementes da comunidade. 
A estrada que liga a sede municipal do Cuito Cuanavale aos bairros de Sã Maria e Kambamba é de terra batida. A grande dor de cabeça reside nos buracos. Os solavancos são enormes.
No auge da guerra, ir de carro da sede municipal até Sã Maria ou Kambamba era uma empreitada extremamente difícil. A distância é mínima mas, em tempos idos, a deslocação de uma localidade a outra durava dias e até mesmo semanas. As colunas de automóveis enfrentavam combates renhidos e eram amiúde bombardeadas pela artilharia das forças do apartheid sul-africano.
A reportagem do Jornal de Angola constatou que andar por estas localidades ainda é difícil e, de certo modo, perigoso. A ameaça vem agora das bombas, munições, minas e granadas que foram enterradas ao longo dos vários anos de conflito armado. Mesmo com os trabalhos aturados das equipas de desminagem, muitas minas continuam escondidas, prontas a explodir ao contacto com o cidadão mais incauto ou azarado. Aliás, os acidentes com minas continuam a mutilar pessoas e a matar animais. 
“Pise apenas no trilho deixado pelo homem da frente”, adverte um dos membros da caravana, ex-militar das extintas FAPLA, agora jornalista ao serviço da Rádio Nacional de Angola (RNA), durante a caminhada a pé pelo interior de Sã Maria. Diante de tantos riscos, o percurso, por mais curto que seja, faz os forasteiros suarem a estopinhas. “Ao mínimo descuido, já eras”, volta a avisar o colega da RNA.

A nova vida
 
Sã Maria e Kambamba são povoações, do ponto de vista demográfico, virgens, como soe dizer-se. Durante os anos da guerra, eram praticamente apenas os militares que circulavam por aquelas paragens. Hoje, ambas as localidades são habitadas maioritariamente por jovens. O grosso da população viveu dispersa pelas matas do Cuito Cuanavale, durante anos a fio, e foi literalmente arrasada do ponto de vista psicológico e social. Hoje, graças à paz, a maioria dessas pessoas vê os seus sonhos renascerem. 
A Kambamba de hoje está voltada para o futuro. A população recusa resignar-se aos problemas impostos por um passado de dor e sofrimento. É uma terra de gente humilde, dedicada à agricultura e à criação de gado.
Fátima Rebeca, mãe de quatro filhos, sente-se regozijada pelo esforço empreendido pelo Executivo angolano para mudar, para melhor, o quadro social e económico em que se move a população local. Refere que, hoje, a realidade é diferente. Escolas e um posto médico são algumas das obras de vulto que orgulham os moradores do bairro da Kambamba. “Notamos, nos dias de hoje, uma mudança bem visível nas nossas vidas. Não tínhamos água tratada, hoje temos. E até fica difícil acreditar que não tínhamos escola!”.
Jeremias Relógio, 32 anos, exemplifica, à sua maneira, como desde o alcance da paz a vida das pessoas mudou. “Antes carregávamos água directamente do leito dos rios Cuito ou Cuanavale”. Hoje, vários fontanários estão instalados e funcionam em vários pontos da comunidade. Populares e líderes tradicionais não cabem em si de contentes e não se cansam de elogiar o Governo pela iniciativa.
Os ganhos são vários, mas claro que ainda há muito por fazer. Nem tudo é um mar de rosas. No sector da educação, onde praticamente tudo teve de ser feito a partir do zero, as dificuldades são muitas.
Kambamba tem uma escola nova, mas ainda existem muitas crianças a estudar de modo precário. Pedro Samba, nove anos, está na terceira classe e estuda numa sala de aulas improvisada num templo religioso. Os assentos são latas de leite ou pedras de tamanho médio apanhadas no meio do capim. Os joelhos dos pequenos são a mesa em que apoiam os cadernos e os livros no acto da escrita e da leitura. É duro, mas é assim que muitos aprenderam a ler e a escrever.
Outra razão de queixa da população é a falta de centros de lazer e para a prática desportiva. As autoridades dizem que cada coisa vai ser feita a seu tempo. Num cenário em que os recursos disponíveis são escassos, os desafios da gestão pública são enormes.

O desbravar do Executivo
 
Joaquim Cabango Catema, administrador municipal do Cuito Cuanavale, é um indivíduo ciente dos desafios que enfrenta. Pessoa singela, de gestos simples, recebeu a equipa do Jornal de Angola em sua própria casa.
“O Cuito Cuanavale de hoje já goza de boa saúde. É um Cuito Cuanavale que está a crescer e que já não é o de ontem”, sublinhou Joaquim Catema. Segundo ele, várias acções foram programadas para a concretização dos projectos gizados pelo executivo provincial. “A construção de unidades escolares está inscrita no roteiro programático da administração municipal. Toda a atenção está dirigida para o sector da educação”.
Cerca de três mil crianças estão fora do sistema de ensino em todo o município, onde leccionam 270 docentes. “O salário e o acerto de categorias têm sido um problema sério e 60 professores não auferem os respectivos ordenados. Trabalham com promessas de salários”, desabafa o administrador.  
No próximo ano lectivo, os alunos das povoações do município vão contar com mais unidades escolares. Joaquim Catema faz questão de ir ao pormenor: “No bairro da Kambamba, no próximo ano lectivo, teremos uma escola com seis salas de aula. Segue-se o bairro Novo, onde uma escola construída de raiz desponta a céu aberto. Trata-se de uma escola do primeiro ciclo, que terá quatro salas de aula. A seguir vêm as localidades de Caqueque e Longa”.
A questão da acomodação dos quadros é outro problema sério enfrentado pelas autoridades municipais. Joaquim Catema realça que o primeiro passo para a resolução do problema é a construção de casas para os administradores comunais. Algumas dessas obras já estão em execução e deverão ser entregues até final deste mês de Novembro.  
O administrador adianta que, no âmbito do programa “Água Para Todos”, o município vai contar com mais dez fontanários. A inauguração destes furos (fontanários) está prevista para os meses de Novembro e Dezembro, e calcula-se que beneficiem cerca de cinco mil pessoas.
Tanto Kambamba como Sã Maria dispõem de uma vasta ligação fluvial. Os rios Cuito e Cuanavale são as grandes fontes de água e pescado.  
Os dois grandes rios da região estão repletos de espécies perigosas, que ameaçam a vida de qualquer ser humano que se aproxime demasiado. Muita gente frequenta o rio para lavar roupa e tomar banho durante a manhã ou ao final da tarde, mas o perigo está sempre à espreita.

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