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Cuito Cuanavale pode ser dividida

Ferraz Neto | Cuito Cuanavale


A sede municipal do Cuito Cuanavale, província do Kuando-Kubango, corre o risco de ser dividida em duas partes, caso não sejam tomadas medidas urgentes que sustenham as ravinas. Uma delas ameaça a estrada principal Menongue-Cuito Cuanavale e a continuidade das obras do aeroporto.   

As ravinas podem colocar em risco a existência da própria vila do Cuito Cuanavale obrigando a população a mudar de localidade
Fotografia: Nicolau Vasco| Cuito Cuanavale

A sede municipal do Cuito-Cuanavale, província do Kuando-Kubango, corre o risco de ser dividida em duas partes, caso não  sejam tomadas medidas urgentes que sustenham as ravinas. Uma delas ameaça a estrada principal Menongue-Cuito-Cuanavale e a continuidade das obras do aeroporto.
Os registos são trágicos. Na época chuvosa do ano passado, uma ravina avançou tão rapidamente que engoliu um edifício da igreja católica, cortou a estrada principal e chegou mesmo a atingir as proximidades das obras do futuro aeroporto.
O fenómeno geológico, que consiste na formação de grandes buracos causados pelas chuvas, não deixa tranquila a Administração local. Ao mínimo sinal de chuva, torna-se visível o desassossego das autoridades municipais. A inquietação é tanta, que já houve ocasiões em que membros do executivo local “tentaram” travar as chuvas recorrendo a invocações e rituais tradicionais oficiados pelo rei Bingo Bingo, o detentor do trono do sobado a nível do município.
Em finais do ano passado, foram feitos trabalhos paliativos de contenção das ravinas pela empresa de construção civil Imbondex. De nada valeram. As ravinas continuam a ameaçar entrar em progressão.
Joaquim Bango Catema, administrador municipal do Cuito-Cuanavale, explicou à reportagem do Jornal de Angola que os trabalhos de contenção paliativa consistiram na restituição de terra aos buracos. “Tratou-se de uma medida que visou apenas diminuir o avanço das ravinas”, declarou.
Em número de duas, as ravinas vêm em sentidos opostos. A primeira, e mais perigosa, surge da zona do rio Kuito em direcção à vila. A segunda progride em direcção à pista do aeroporto. Ambas caminham como se pretendessem unir-se.
Para além de pôr em risco as obras do aeroporto do Cuito-Cuanavale, o fenómeno tem causado danos imensuráveis. Está a destruir terras cultiváveis e contribui seriamente para o assoreamento dos rios Kuito e Kuanavale, facilitando deste modo o processo das enchentes e consequente destruição das plantações.
Joaquim Bango Catema explicou que são necessários trabalhos de grande profundidade, não só para conter as ravinas, mas para as travar definitivamente. “No ano passado a ravina engoliu a capela da igreja católica e esteve próximo de chegar às obras do aeroporto”, realçou, sem esconder a sua profunda tristeza.
Com a chegada da época chuvosa a preocupação é maior, pois ninguém está isento de ser afectado pela progressão das ravinas. Os ânimos dos munícipes já estão afectados com a perspectiva de fortes chuvadas que podem vir a desarticular todo o trabalho preliminar já realizado e provocar a interrupção da circulação das pessoas.
“Quando chove, a força das águas procura caminho por onde passar”, explicou o administrador municipal. “São as zonas entulhadas e terraplanadas que a água invade, o que faz com que os buracos tapados sejam novamente abertos. Por outro lado, a vegetação é escassa e não protege o solo, que fica susceptível de carregamento pelas enxurradas”, referiu Joaquim Catema.
As ravinas têm uma profundidade e largura inimagináveis para quem não as tenha visto com os próprios olhos. A imagem que nos ocorre é a de feridas abertas e profundas no corpo terrestre. Cabos de electricidade e telefónicos, condutas de água e os objectos domésticos mais inesperados são visíveis para quem se aventure a olhar à beira do abismo.

Saúde clama por dias melhores

Depois de uma viagem de 189 quilómetros, à primeira vista a vila do município do Cuito-Cuanavale apresenta-se como agradável e acolhedora.
Defronte ao centro médico da sede municipal, às primeiras horas da manhã, encontramos Lothila Malilo aflita, uma avó que carrega às costas a sua neta. Aguarda pacientemente pela chegada do médico pediatra, um cidadão de nacionalidade norte-coreana. “Há uma semana que ela tem diarreia”, diz a mulher, com inquietação, à reportagem do Jornal de Angola.
A realidade do município no domínio da saúde inspira sérios cuidados. Os problemas vão desde a falta de ambulância até aos escassos medicamentos. Cada família “desenrasca” à sua maneira, como transferir o ente querido gravemente doente da sede municipal para a capital da província.
O director adjunto do único Centro de Saúde, Fernando Vicessa, disse que a grande preocupação, em termos sanitários, tem a ver com as doenças respiratórias, malária e diarreias agudas.
Com uma população estimada em cerca de 65 mil habitantes, a capacidade do centro municipal de saúde é diminuta, atendendo ao grande afluxo de pacientes.
Com 16 camas para internamento, um consultório médico, farmácia, salas de parto e de espera e gabinetes para serviços administrativos, o centro de saúde está claramente aquém das necessidades. Fernando Vicessa afirmou que a instituição hospitalar regista 20 consultas por dia.

Jovens são os mais afectados

Estão colocados no centro de saúde do Cuito-Cuanavale 18 técnicos de saúde angolanos, que têm como missão atender os doentes nas especialidades de clínica geral, laboratório, pré-natal e aconselhamento sobre as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DTS).
O director administrativo do centro de saúde referiu ao Jornal de Angola que há quatro médicos destacados na sede do município. Destes, três são oriundos de Cuba e um da Coreia do Norte. Conta ainda com um Centro de Aconselhamento e Testagem Voluntária (CATV).
Na zona traseira do edifício principal está o contentor do CATV. Nele encontramos Jacob Sumbu, o seu responsável. Durante o primeiro semestre de 2010, dos 948 indivíduos que se predispuseram a fazer o teste, 426 resultaram em negativo e 17 foram positivo, revelou Jcob Sumbu.
“Os casos positivos são, na sua maioria, de jovens, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos. Muitos furtam-se à medicação e desistem de frequentar as consultas semanais”, salientou.

Executivo atento

O administrador municipal, Joaquim Bango Catema, disse que, brevemente, novos ventos soprarão para o sector da saúde do Cuito-Cuanavale. “Na verdade, a realidade actual é dura”, desabafou o chefe do executivo municipal. “Em visitas de constatação ao interior do município, verificamos que há falta de técnicos”.
Joaquim Bango Catema disse que tem apelado às entidades de direito para prestarem atenção ao clamor dos habitantes. “Pedimos, sempre que possível, às entidades do governo provincial para que nos resolvam esse problema com urgência”.
Recentemente, o município recebeu, proveniente de Luanda, uma delegação do Executivo, que teve como missão identificar os locais para a construção do futuro hospital municipal. “Está para breve o lançamento da primeira pedra para a construção desta unidade hospitalar”, salientou Joaquim Bango Catema, agora radiante.
A quota orçamental municipal para aquisição e distribuição de medicamentos é de 600 mil kwanzas/mês. Este montante é exíguo atendendo ao crescimento populacional que o município tem vindo a registar nos últimos anos.
O Cuito-Cuanavale tem 35.610 quilómetros quadrados e cerca de 65 mil habitantes. É limitado a Norte pelos municípios de Luchazes, a Este pelo de Mavinga, a Sul pelo de Nancova e a Oeste pelos municípios do Menongue e de Chitembo. É constituído pelas comunas de Cuito-Cuanavale, Longa, Lupire e Baixo Longa.
Terra banhada por dois rios, o Kuito e o Kuanavale, o município tem o seu nome cativo na história de Angola, já que foi palco de algumas das batalhas mais decisivas pela manutenção da honra e soberania do país.

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