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Fome leva crianças a abandonar a escola no município do Cuangar

Lourenço Bule | Cuangar

Centenas de crianças em idade escolar no município do Cuangar, província do Cuando Cubango, estão a deixar de ir à escola para acompanhar os pais nas matas, à procura de frutas silvestres, raízes e tubérculos, devido a penúria alimentar que se regista na localidade.

Fotografia: Edições Novembro

A informação foi avançada ao Jornal de Angola pela administradora municipal do Cuangar, Carla Cativa, acrescentando que muitas famílias foram obrigadas a abandonar a circunscrição para se refugiar na República da Namíbia, devido a seca severa que deixou a maior parte da população sem ter o que comer.

De acordo com a administradora municipal, a seca está a afectar, principalmente, as localidades do interior do município do Cuangar, onde não está a ser implementado o programa de merenda escolar. “Na sede municipal do Cuangar não temos registo de crianças que estão a desistir da escola, mas sim nas localidades do interior do município, onde existem escolas que não beneficiam do programa de merenda escolar e os pais ou encarregados de educação não têm como alimentar os filhos, devido a estiagem”, disse. Carla Cativa disse que no presente ano lectivo foram matriculados 12.015 alunos, da primeira à 9ª classe, que estudam em 15 escolas, asseguradas por 248 professores.
Fez saber que actualmente a Administração Municipal do Cuangar tem o registo de 875 crianças fora do sistema de ensino, por falta de professores e escolas. Acrescentou que o Cuangar prevê ganhar ainda este ano duas escolas de seis salas de aula cada.

Transumância

Carla Cativa disse que mais de dez mil cabeças de gado, provenientes de Namacunde, província do Cunene, e do Rundu (Namíbia), estão a emigrar para a região do Cuangar, em busca de água nos rios Cubango e Cuatir. Salientou que a transumância é um fenómeno que pode acarretar inúmeras situações, como a febre afectosa, apesar de ainda não existir registo de casos do género.
Acrescentou que é necessário fazer-se um cadastramento da população animal, para um maior controlo. Carla Cativa apontou como medidas para mitigar os efeitos da transumância o rastreio e cadastramento dos animais, visto que não se sabe em que condições de saúde chegam ao Cuangar, tudo porque a fronteira é bastante extensa e há um número bastante reduzido de técnicos veterinários.
O município do Cuangar conta com 48 enfermeiros e dois médicos de nacionalidade angolana, para prestar assistência médica e medicamentosa aos mais de 30 mil habitantes da referida localidade, muitos dos quais obrigados a recorrer à Namíbia onde pagam valores avultados. “Esperamos que o problema da falta de técnicos de saúde a nível do município, com realce para a classe de médicos, possa ser resolvido nos próximos concursos públicos”, disse a administradora.
Segundo a administradora do Cuangar, mensalmente são distribuídos medicamentos às unidades sanitárias da circunscrição.
Salientou que o município do Cuangar conta com oito unidades sanitárias, sendo cinco postos de saúde, dois centros médicos e um hospital municipal, assegurados por 48 enfermeiros e dois médicos de clínica geral. “Precisamos especialistas que possam dar resposta às áreas de maternidade, pediatria, tuberculose, lepra, malária e outras doenças infecciosas”.
Carla Cativa acrescentou que este ano foram notificados dez casos de lepra na comuna do Savate, mas, devido a falta de técnicos especializados, os doentes foram transferidos para a cidade de Menongue.
Segundo a administradora, a população tem tido inúmeros problemas na transportação de pacientes do mu-nicípio do Cuangar (Cuando Cubango) para a região do Rundu (Kavango Este) na Namíbia, visto que até ao momento há limitações no que tange à emissão de passes de travessia, que abrangem apenas 60 quilómetros de distância e as unidades sanitárias do país vizinho estarem localizados a mais de 80 quilómetros. A administradora Carla Cativa disse que a falta de infra-estruturas rodoviárias no Cuangar tem dificultado o desenvolvimento socioeconómico da referida região, onde a população tem encontrado inúmeras dificuldades para efectuar as trocas comerciais e o escoamento de produtos agrícolas do campo para a cidade.
“O limite implementado actualmente nos passes de travessia tem criado inúmeros transtornos aos munícipes do Cuangar, visto que os mesmos deslocam-se sempre até a região do Kavango Este, em busca de bens e serviços, para a melhoria das suas condições de vida”, disse a administradora.
Carla Cativa defende a construção de uma ponte, para ligar por terra a região do Kavango Este ao município do Cuangar, para mitigar o grau de dificuldades que as populações atravessam ao deslocar-se em busca de assistência médica e medicamentosa. Salientou que a conclusão da estrada internacional, que liga por estrada a província do Cuando Cubango (Angola) com a região do Kavango Oeste (Namíbia), vai incentivar o desenvolvimento económico e social do município do Cuangar.
“Almejamos que a referida infra-estrutura rodoviária possa ser concluída, ainda este ano, para que, em curto prazo, possamos alcançar índices de desenvolvimento consideráveis e que a população deixe de ter a falta de quase tudo para sobreviver”, concluiu.

 

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