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Governo resgata população abandonada nas matas

Lourenço Manuel| Mavinga

O Executivo angolano está a desenvolver, na província do Kuando-Kubango, um programa de emergência para resgatar a população que vive nas matas.

As comunidades das aldeias 11 de Novembro e Cavungo são compostas por muitos antigos militares da UNITA
Fotografia: Lourenço Manuel

O Executivo angolano está a desenvolver, na província do Kuando-Kubango, um programa de emergência para resgatar a população que vive nas matas. A estimativa aponta para mais de 60 mil pessoas dispersas nos municípios de Mavinga e Rivungo, para onde tinham sido levadas, pela força das armas, a mando de Jonas Savimbi, durante a guerra que assolou o país.
São, na sua maioria, crianças raptadas nas províncias do Centro e Sul de Angola. Eram levadas à força para o quartel-general na Jamba (Rivungo) e para a base central de logística, que se situava no Licua (Mavinga). 
Muitas crianças já não se recordam dos familiares, nem sequer dos progenitores. Foram, literalmente, arrasadas psicologicamente. A paz foi assinada há oito anos mas a maioria destas pessoas não sabe para onde ir. Têm nas matas de Mavinga e Rivungo o seu "lar" e aqui cresceram, muitos sem família nem qualquer apoio social. 
Para avaliar a situação em que vivem estes cidadãos, o ministro da Assistência e Reinserção Social, João Baptista Kussumua, o governador do Kuando-Kubango, Eusébio de Brito Teixeira, e altas patentes das Forças Armadas Angolanas foram ao município de Mavinga. 
A comitiva de resgate das pessoas abandonadas foi recebida pelo administrador local, Francisco Cameia. Logo a seguir, o governador do Kuando-Kubango, Eusébio de Brito Teixeira, fez uma abordagem ao actual estado das vias rodoviárias da região Leste e Sul da província, onde, devido à existência de minas, a circulação é feita por caminhos sinuosos. "Vamos partir e todos vão ter a oportunidade de constatar isso mesmo", disse o governador.
O bairro 11 de Novembro, situado a 20 quilómetros da sede municipal de Mavinga, também conhecido por "Bairro dos Mutilados" por causa do elevado número de deficientes de guerra entre os seus habitantes, foi o primeiro a ser visitado. Milhares de pessoas entoavam cânticos de exaltação à reconciliação nacional. 
O ministro Kussumua, visivelmente comovido com o estado deplorável em que se encontram as pessoas, expressando-se em umbundo, saudou a população e apresentou os objectivos da visita. "Viemos aqui, mandatados pelo Camarada Presidente José Eduardo dos Santos, para vermos de perto como as nossas crianças, mães e os nossos pais estão a viver, desde que decidiram abandonar as matas e se juntaram à causa da reconciliação e reconstrução nacional. Pelo que estamos a ver, as coisas estão muito mal, uma situação que prometemos inverter em curto espaço de tempo", disse.
 
Entrega de bens

Com o propósito de atenuar o sofrimento das pessoas, o ministro Kussumua e o governador do Kuando-Kubango entregaram bens alimentares, ferramentas de mecânica, recauchutagem e serralharia, quatro moagens, máquinas de costura, charruas de tracção animal e reservatórios de água potável.
A acção estendeu-se à comunidade do Cavungo, estabelecida nas margens do rio Lomba, a 22 quilómetros da sede municipal de Mavinga. Foi feita a entrega de balões de roupas usadas, ferramentas de sapataria e de carpintaria para apoiar as 1.500 pessoas regressadas das matas.   
Na primeira intervenção feita pelo Governo, em finais de 2009, as autoridades levaram para as duas localidades um tractor com as respectivas alfaias, um moinho, uma embarcação para pesca artesanal, ferramentas profissionais, charruas e bens alimentares que contribuíram para o bem estar das pessoas.
A inserção dos antigos combatentes, professores e enfermeiros no sistema de pagamento do Estado, a construção de um posto de saúde e de uma escola do ensino primário, foram apontados como primeira prioridade.
As autoridades locais dizem que é necessário um camião todo o terreno para escoar os cereais das lavras para os mercados e o fornecimento de combustíveis e lubrificantes para os tractores e moinhos.
As comunidades pediram à comitiva gado bovino e caprino para criação, sementes de hortícolas, a instalação de um gerador de corrente eléctrica, a reparação da pista do aeroporto de Mavinga, viveiros de eucaliptos para arborização e licença para a exploração artesanal de diamantes. 
 
Faltam ferramentas

O ministro João Baptista Kussumua ficou surpreendido com o nível de organização da aldeia de Cavungo, completamente limpa, com casas de pau a pique bem alinhadas. Prometeu que, com a maior urgência possível, vai enviar dez mil chapas de zinco. Mas outros aspectos chamaram, igualmente, a atenção do chefe da comitiva governamental: "notamos que aqui não há escolas para as nossas crianças, nem posto médico para garantir assistência sanitária à população. Os técnicos que me acompanham já estão a trabalhar no levantamento das necessidades para corrermos contra o tempo e, antes do final deste ano, termos aqui estas infra-estruturas".
O ministro da Reinserção Social garantiu que vai fazer chegar, através do governador do Kuando-Kubango, as ferramentas agrícolas solicitadas pela população. Apesar da maioria dos adultos ser portadora de alguma deficiência física contraída durante a guerra, a população mostra uma vontade férrea de trabalhar a terra.
O ministro Kussumua aconselhou os aldeões a irem ao encontro das pessoas que ainda teimam em manter-se escondidas nas matas, para que criem outras aldeias, como a 11 de Novembro ou Cavungo, para que se possam beneficiar dos bens e serviços que o Executivo e o Governo Provincial do Kuando Kubango está a colocar à disposição da população.

Serviços de identificação

A ausência dos serviços de identificação é um dos problemas que aflige a população que abandonou as matas. Além dos adultos não possuírem qualquer documento que os identifique como cidadãos angolanos, as crianças não têm cédulas de registo pessoal.
Um responsável da Direcção Provincial do Ministério da Justiça disse que o seu organismo tem condições para começar a identificar as pessoas. "O único senão é a falta de transportes para os técnicos se deslocarem a estas zonas de difícil acesso", afirmou.
"Estamos a catalogar as zonas e a registar as pessoas sem documentos, para podermos enviar dados concretos ao Ministério da Justiça, que deve estabelecer um calendário para a deslocação de equipas técnicas com a tecnologia necessária para fazer o registo. Mas à partida já se sabe que o número da população é muito grande", disse.
 
Políticos falhados 

As comunidades das aldeias 11 de Novembro e Cavungo são compostas por muitos antigos guerrilheiros da UNITA, que se dizem traídos pelos responsáveis daquele partido. "Durante 26 anos usaram-nos para atingir os seus objectivos e agora abandonaram-nos com as nossas famílias", disse um antigo militar.
Em carta endereçada ao Chefe do Estado angolano, as famílias que regressaram das matas pediram desculpas. No documento afirmam que só agora decidiram abandonar as matas, porque não tinham qualquer informação sobre o programa de assistência e reintegração social do Executivo: “fizemos os primeiros contactos e, felizmente, fomos bem recebidos”, lê-se na carta.
"Pedimos que se reforcem as equipas da Casa Militar com meios de transporte e logísticos, para continuarem com a sua tarefa de transporte de milhares de pessoas que ainda vivem em áreas inacessíveis nas matas, em condições péssimas, tudo por causa das mentiras e promessas falsas de alguns políticos falhados", escreveram.
Agradeceram ao Presidente da República, José Eduardo dos Santos, por tudo ter feito para o fim da guerra no nosso país, "uma guerra que já parecia interminável", e pelos feitos alcançados durante os oito anos de paz.

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