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Homens e animais selvagens lutam pela sobrevivência

Ferraz Neto | Licua

O Licua regista a perda de vidas humanas devido a ataques de leões, jacarés, elefantes, rinocerontes, hipopótamos e cobras venenosas. As pessoas são atacadas nas lavras e no rio. As feras destroem as lavras e estão na origem da fome que assola a região.
                                                           

Os rinocerontes estão entre os animais selvagens que frequentemente abandonam o seu habitat para atacar seres humanos no Licua
Fotografia: Nicolau Vasco

O conflito entre seres humanos e animais selvagens na comuna do Licua, município de Mavinga, está no auge. As feras destroem as lavras e estão na origem da fome que assola a região.
Semanalmente, o Licua regista vítimas mortais de ataques de leões, jacarés, elefantes, hipopótamos e cobras venenosas. As vítimas são atacadas nas lavras e quando vão ao rio para tomar banho ou acarretar água. Por causa dos ataques de animais selvagens, várias famílias que residiam nos arredores do Licua foram forçadas a abandonar as suas residências.    
No Licua, o cenário é preocupante. Casas abandonadas e lavras destruídas. Quanto mais isolada a casa, maior é a facilidade dos animais selvagens atacarem. O cenário é mais preocupante com o aproximar da época das chuvas. Todos temem o pior.
“Se na época seca é assim, no tempo da chuva vai ser pior”, diz Samuel Domingos, ex-militar, que reside na comuna do Licua desde os anos 90 e vive da pastorícia e da criação de animais domésticos.
Andar pelo mato com os rebanhos faz parte do seu dia-a-dia. Agora, tem medo de levar o gado a pastar. Recentemente Samuel Domingos foi atacado por leões: “fui atacado mas consegui escapar com vida porque os leões preferiram matar um dos animais”.
Por isso, nos últimos dias, circular com o gado distante da comuna é uma aventura.  Muitos pastores saem com o gado e já não regressam vivos.
Os animais selvagens têm tirado o sono aos habitantes do Licua. Há pouco tempo um jacaré matou uma menina. A irmã esperou durante uma semana, no leito do rio, até o jacaré aparecer e matou-o. A carne foi distribuída pela comunidade.
Um camponês regressava da lavra com galinhas do mato que apanhou nas armadilhas. Uma onça atacou-o. As unhas da fera causaram ferimentos graves na face e na cabeça do homem.
Licua é uma zona onde as comunicações não existem e as estradas são precárias. Por isso, as notícias de que os animais atacaram ou mataram levam semanas e por vezes meses a chegar. Na época das chuvas, o caudal dos rios sobe e a vegetação fica mais densa. O perigo para as pessoas aumenta. “A nossa grande preocupação é o tempo das chuvas. Os leões e os elefantes, por causa do capim alto, montam emboscadas mesmo próximo das zonas habitadas. Quando não encontram os animais no curral, tudo lhes serve para comer”, refere Samuel Domingos.
 
Mulheres atacadas
 
As mulheres são presas fáceis para os animais ferozes porque vão trabalhar todos os dias para as lavras. Eunice Junju, 28 anos, explica que as feras têm lançado o medo e o pânico no seio dos moradores que vivem na periferia de Licua: “nenhuma mulher aceita ir à lavra sozinha”.
Eunice Junju refere que as mulheres são apanhadas com os seus bebés às costas: “recentemente tivemos óbito no bairro da Boa Esperança, onde os leões comeram a mãe e o seu bebé de meses”, disse Eunice Junju. Uma das suas vizinhas, no bairro do Biete, foi apanhada de surpresa por um jacaré à beira do rio, quando estava a lavar roupa. Ficou gravemente ferida.
José Pelembe, ex-militar, disse que já existiu um programa de abate selectivo de algumas espécies de animais ferozes: “como serviam também de alimentação, eram abatidos. Por isso, fugiam para as matas, distantes do olhar dos homens”, afirmou.
Nos dias que correm, os animais tendem a aproximar-se das zonas onde as pessoas cultivam as lavras. O ex-militar afirma que a explicação está no longo conflito armado que o país viveu. As espécies multiplicaram-se, o que tem complicado a vida aos habitantes do Licua.
José Pelembe pediu à administração comunal para acautelar a situação. “É verdade que a paz é uma realidade e as marcas da guerra ficaram para atrás, mas os animais ferozes tiram o sono a qualquer habitante desta localidade”, disse.
 
Um novo Licua
 
Para observar de perto a realidade da população, esteve recentemente na região a assessora para área social do Presidente da República, Rosa Pacavira. Acompanhada por representantes e técnicos de vários ministérios e do comando-geral da Polícia Nacional, Rosa Pacavira auscultou os problemas da região, ofereceu roupa usada, material de carpintaria, sapataria, alfaiataria, moinhos, sementes e ferramentas profissionais.  Nestas paragens do extremo sudoeste anoitece muito cedo. De noite, o Licua fica às escuras. António Mundjanga, administrador comunal do Licua, é um homem humilde. Recebeu a equipa de reportagem do Jornal de Angola em sua casa, uma das poucas que tem luz eléctrica.
O Licua de hoje já não guarda as marcas do passado. “Notamos uma mudança significativa. Antigamente não havia desenvolvimento e o povo estava fora do controlo do governo. Hoje, a realidade é diferente. A mudança permitiu que a comuna ganhasse infra-estruturas e serviços sociais”, afirmou.
Constituída pelos bairros 4 de Abril, Boa Esperança, Paz, Tchulo, Biete, Munhe 1, Munhe 2 e Licua sede, a comuna tem novos equipamentos sociais: a nova residência do administrador comunal, as instalações da administração, esquadra policial, uma escola com três salas de aulas e um centro médico.
O Licua deixou de ser um aglomerado de casas de capim.  Das obras em construção, num esforço do Executivo angolano, destaque para a construção de 24 casas para professores e oficiais superiores das Forças Armadas Angolanas (FAA).

Isolamento extremo

Do Licua à sede municipal de Mavinga, são 140 quilómetros. A via está degradada. Durante mais de 20 anos, a estrada foi invadida pela areia e até árvores cresceram no meio da faixa de rodagem. Até as viaturas todo-o-terreno têm dificuldade para ultrapassar as barreiras. A viagem de carro do Licua a Mavinga chega a durar um dia. Para os habitantes da comuna viajar de carro é uma utopia. O administrador comunal disse que os habitantes viajam em carroças puxadas por animais. Com estas carroças a viagem do Licua a Mavinga dura, no mínimo, uma semana: “a população sofre muito com a falta de estradas”, realçou o administrador António Mundjanga.
A situação tem afectado o escoamento dos produtos agrícolas, sobretudo o milho.
As áreas da saúde e educação apresentam igualmente sérios problemas. Há na comuna 22 técnicos de saúde. Mas há oito anos que não recebem salários.
No domínio da educação, 820 alunos frequentam a escola, onde leccionam 45 professores. Apenas o director recebe o seu salário. Os restantes, trabalham com promessas de salários. Mas a esperança dos funcionários nasce, morre e renasce todos os dias. Só assim se justifica a sua persistência.
A comuna do Licua fica a Sul do município de Mavinga e faz fronteira com a comuna do Mucusso e com o município do Dirico, o chamado “bico de Angola”. A zona é rica em fauna e em terrenos férteis. A população trabalha a terra essencialmente nas margens dos rios. Cultiva particularmente arroz, milho, mandioca e cana-de-açúcar.
De Janeiro a Julho deste ano, as culturas ficaram gravemente afectadas pelos estragos feitos por hipopótamos, elefantes, javalis e jacarés. Das plantações pouco resta para colher. A situação é agravada pelo isolamento quase extremo. Hoje, há fome. As pessoas pouco têm para comer. 

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