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Jovens toxicodependentes reabilitados em Menongue

Carlos Paulino | Menongue

O centro de acolhimento e reabilitação de toxicodependentes, afecto à Cruz Azul de Angola (CAA), situado no bairro Castilho, arredores da cidade de Menongue, na província do Cuando Cubango, reabilitou, desde Janeiro, mais de 50 adolescentes e adultos dependentes do álcool e outras drogas, provenientes de várias províncias do país.

Parte frontal do centro de acolhimento e reabilitação que precisa de mais espaço para acolher toxicodependentes
Fotografia: Nicolau Vasco | Edições Novembro

A informação foi tornada pública na sexta-feira, na cidade de Menongue, pelo director da  instituição, Aires Tchilemo Manuel, durante a cerimónia do segundo aniversário da criação do centro, 23.º da CAA em Angola e 141.º  no mundo.
O responsável da CAA disse que o centro de acolhimento e reabilitação de toxicodependentes de Menongue, construído em 2016, já reabilitou 124 adolescentes e adultos, dos quais 37 mulheres, das províncias do Cuando Cubango, Uíge, Bié, Huíla, Benguela, Huambo, Moxico e Cuanza-Sul.
Aires Tchilemo Manuel realçou que o estabelecimento tem capacidade para albergar 30 pessoas, mas, devido ao trabalho de referência que tem prestado, regista actualmente o internamento de 62 pacientes, com idades compreendidas entre os 11 e os 60 anos.
Aires Tchilemo Manuel explicou que durante seis meses os pacientes com problemas de consumo exagerado de bebidas alcoólicas, estupefacientes, vulgo liamba, e outras drogas ficam internados no centro e recebem aulas relacionadas com assuntos religiosos, sociais e económicos, para que tenham uma boa reintegração na sociedade, depois de serem reabilitados.
Aires Tchilemo Manuel disse que, devido à falta de financiamento, os familiares dos pacientes são obrigados a dar uma contribuição de 21 mil kwanzas, para custear as despesas de alimentação, aquisição de combustível e manutenção do gerador que fornece energia ao estabelecimento e compra de medicamentos.
Aires Tchilemo Manuel solicitou o apoio do Governo da província para o fornecimento de energia eléctrica ao centro, assistência médica e medicamentosa, atribuição de pelo menos uma viatura e de bens de primeira necessidade, assim como a construção de um outro centro mais espaçoso e com estrutura própria, distante dos bairros periféricos da cidade de Menongue, para que se faça um trabalho digno de reabilitação dos toxicodependentes.
Aires Tchilemo Manuel disse que o uso de substâncias psicoactivas constitui na actualidade uma ameaça para a Humanidade e para a estabilidade das estruturas familiares e valores políticos, económicos e sociais da sociedade. O responsável da CAA frisou que o alcoolismo provoca diversas consequências, tanto para o consumidor quanto para os que estão ao seu redor, como por exemplo a violência doméstica, acidente  de viação, impotência sexual, desemprego, pobreza extrema na estrutura familiar, entre outros prejuízos.
Aires Tchilemo Manuel acrescentou que o álcool é uma substância venenosa que está a destruir e a matar mais homens e mulheres do que a guerra. Salientou que o álcool ou as drogas possuem substâncias capazes de produzir alterações no funcionamento do organismo humano.
“O álcool e as drogas em Angola são os principais causadores do aumento do índice de criminalidade, gravidez precoce, prostituição, desemprego, violência doméstica, desestruturação das famílias e acidentes de viação.” 
Aires Tchilemo Manuel alertou, por este facto, o Executivo angolano para tomar precaução em relação à socialização dos jovens e ao uso do álcool, porque está a mutilar o futuro do país e acrescentou que a nível de Angola o negócio fácil, com muito lucro, é o álcool, tendo em vista que até há restaurantes que só vendem bebidas alcoólicas.
“As drogas lícitas são as que estão a desestabilizar o desenvolvimento da economia, razão pela qual o Estado angolano tem de tomar medidas de controlo da venda do álcool”, disse. 
Aires Tchilemo Manuel recordou que a Cruz Azul de Angola é uma instituição não-governamental, apartidária e filantrópica de solidariedade social, ligada à Cruz Azul Internacional, fundada no dia 21 de Setembro de 1877, na Suíça, e que está expandida por  51 países do mundo. A CAA é a união das igrejas IECA, ICA, IERA e IESA, que trabalham para a reabilitação física e espiritual das pessoas que têm problemas com bebidas alcoólicas e outras drogas.
Armando Docas, de 42 anos, um dos indivíduos que deixou de depender do consumo excessivo de bebidas alcoólicas, disse que começou a consumi-las de forma exagerada quando tinha 32 anos e que o vício lhe impossibilitava de trabalhar e/ou sustentar a família.
Enfermeiro de profissão e funcionário do Hospital Geral do Cuando Cubango na área de hemoterapia, Armando Docas explicou que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas tinha tomado conta da sua vida e que todos os dias preferia beber do que ir trabalhar.
“Agora que fui curado, a minha vida mudou para melhor e adeus ao mundo do álcool”, disse Armando Docas, acrescentando que a partir de agora vai procurar prestar maior atenção à família e trabalhar para dar o seu contributo no desenvolvimento da província.  
Teresa Nascimento, de 13 anos e natural do Bié, disse que entrou no mundo do álcool e das drogas muito cedo, com apenas 12 anos, por influência de amigas e que este vício fez com que parasse os seus estudos. Teresa Nascimento disse que todos os dias bebia cerveja, whisky e fumava liamba, que atrofiava a sua mente.

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