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Mavinga trilha o caminho do desenvolvimento

Carlos Paulino | Mavinga

O município de Mavinga, a cerca de 400 quilómetros da cidade de Menongue, província do Kuando-Kubango, está a conhecer um desenvolvimento socioeconómico acelerado, com a construção e reabilitação de várias infra-estruturas sociais, fruto da atenção especial que a localidade está a merecer ao Executivo e que está a conferir uma melhor dignidade aos seus habitantes.

Para acabar com o fenómeno de crianças fora do sistema de ensino são necessários 400 salas de aulas em todas as comunas e aldeias
Fotografia: Nicolau Vasco|Mavinga

O município de Mavinga, a cerca de 400 quilómetros da cidade de Menongue, província do Kuando-Kubango, está a conhecer um desenvolvimento socioeconómico acelerado, com a construção e reabilitação de várias infra-estruturas sociais, fruto da atenção especial que a localidade está a merecer ao Executivo e que está a conferir uma melhor dignidade aos seus habitantes.
 Mavinga, que na língua local nganguela significa “Terra preferida para se viver”, foi um dos grandes palcos da guerra que assolou o nosso país. Mas, com a conquista da paz efectiva e a reconciliação nacional alcançada em 2002, o município é hoje um verdadeiro canteiro de obras, apesar das enormes dificuldades que ainda enfrenta, com realce para a falta de vias de acesso.
Durante os oito anos de paz, Mavinga passou a ter um hospital municipal, comando da divisão da Polícia Nacional, edifício da delegação dos Serviços de Inteligência e Segurança do Estado (SISE), gabinete eleitoral, cinco escolas, quatro casas sociais, dois postos médicos, duas pontes rudimentares sobre os rios Kuweyo e Lomba, residência do administrador comunal do Licua, um quartel das Forças Armadas Angolanas (FAA) e sistema de abastecimento de energia eléctrica e água potável.
Actualmente, está em curso a construção de uma agência do Banco de Poupança e Crédito (BPC), uma esquadra da polícia nacional, um quartel militar na sede municipal, residência do administrador e em carteira encontra-se a edificação de 10 escolas com duas salas de aula cada e igual número de postos médicos com 15 camas, entre outros projectos, no âmbito do fundo de gestão municipal e de projectos do Governo Central, que estabelece a melhoria e aumento da oferta dos serviços sociais básicos às populações.
A reportagem do Jornal de Angola falou com alguns munícipes sobre a actual situação socioeconómica de Mavinga e estes não esconderam a sua satisfação, dizendo que o município está a melhorar substancialmente e que alguns problemas que afligiam a população, e que levou muita gente a abandonar a circunscrição, estão a ser resolvidos.
Quem viu Mavinga antes e o visita agora, apesar do muito que ainda há por fazer, notará a existência de um grande esforço do Executivo angolano para tornar o país num verdadeiro espaço de harmonia e paz, estando a ser dados passos com vista à melhoria das condições de vida das populações.
Ao Jornal de Angola, o administrador municipal, João Francisco Cameia, afirmou que o município está a ganhar uma nova dinâmica em relação aos anos anteriores, que eram de grande apatia. “Neste momento, estão a ser construídas muitas infra-estruturas, principalmente escolas, postos médicos, habitações, sistemas de fornecimento de água potável e de energia eléctrica”, disse.
 
Dificuldades de acesso
 
Apesar de haver um grande esforço do Executivo no sentido de melhorar cada vez mais os níveis de vida das populações, uma das grandes dificuldades que tem retardado o desenvolvimento socioeconómico do município prende-se com as vias de acesso, praticamente inexistentes para se chegar a outras localidades da província, com realce para a cidade de Menongue.
As ligações por via terrestre, feitas através de picadas abertas ao acaso, têm sido uma verdadeira aventura para os automobilistas. Muitas viaturas chegam a ficar pelo caminho, devido ao areal, e outras devido às minas.
Por este motivo, a população pede ao Executivo e às instituições afins que seja programado um voo semanal para o município das diversas companhias de aviação existentes no país, e que o aeródromo da localidade seja reabilitado, devido às péssimas condições que apresenta e que põe em risco a aterragem e descolagem de aviões e pelo perigo que correm as populações que construíram junto à pista.
Outra situação que tem preocupado as autoridades locais é a existência de 56 enfermeiros e 92 professores no sistema salarial, que já vem de 2006, e que tem debilitado os sectores da saúde e educação, uma vez que boa parte dos técnicos têm preferido abandonar os seus postos de trabalho, para procurarem outro emprego para a sua sobrevivência.
A mesma situação, disse João Francisco Cameia, se passa com as autoridades tradicionais, visto que dos 230 sobas que a administração controla, apenas 137 são remunerados. 
 
Estrangeiros na própria terra
 
A miséria é ainda extrema no município de Mavinga, onde o grosso dos seus habitantes não tem sequer bilhete de identidade, uma vez que a maioria não tem dinheiro para pagar a passagem até à cidade de Menongue, onde funcionam os Serviços de Identificação, Conservatória e Registo Civil. Essa é a razão pela qual se pode dizer que Mavinga acolhe um bom número de angolanos que não o são, sentindo-se estrangeiros na sua própria terra, por não terem qualquer documento que os identifique como tal. 
Entre Novembro de 2009 e Janeiro de 2010, foi realizado o processo de reassentamento das populações dos municípios de Mavinga e Rivungo, que culminou com o alojamento de cerca 60 mil pessoas, agora concentradas em 60 aldeias, com destaque para o bairro 11 de Novembro, onde se encontram circunscritos mais três mil habitantes que vieram das matas, incluindo 575 mutilados de guerra.
Apesar dos enormes esforços do governo provincial e da administração municipal, não tem sido possível responder com celeridade às dificuldades que a população enfrenta, sobretudo no que toca ao abastecimento de água potável, energia eléctrica, postos de saúde, escolas, habitações, entre outros serviços essenciais.
 
Meninos ainda estudam debaixo das árvores
       
Segundo Francisco Cameia, devido à escassez de salas de aula e de professores, mais de 14 mil crianças ainda se encontram fora do sistema ensino, uma vez que para colmatar algumas lacunas grande parte dos alunos matriculados estuda em capelas e debaixo das árvores.
Para o ano lectivo findo, acrescentou, estavam matriculados 9.833 alunos no ensino primário, 577 no primeiro ciclo e 146 no segundo ciclo do ensino secundário. 
O administrador disse que para acabar com o fenómeno de crianças fora do sistema de ensino, que muito ainda se faz sentir no município, será necessário construir mais de 400 salas de aula em todas as comunas e aldeias reassentadas e edificar residências para professores, visto que a falta de acomodação condigna para os quadros dá lugar ao abandono de postos de trabalho na circunscrição.
A escassez de material didáctico e o elevado número de alunos que abandonam o ensino e a aprendizagem para trabalharem com os pais no pasto de gado e na agricultura, foram ainda apontadas como as principais dificuldades que o sector da educação enfrenta no município.
No que toca ao sector da saúde, a par dos enfermeiros que estão há quatro anos sem salários, enfrenta ainda dificuldades por falta de medicamentos, material gastável e meios de transporte, cujas consequências são os índices elevados de mortalidade. João Francisco Cameia salientou que as patologias mais frequentes no município são as infecções respiratórias agudas, gastrointestinais, diarreias e a malária.  
 
Faltam meios para a lavoura
 
Na área da agricultura, o município debate-se com a escassez de imputes agrícolas, charruas de tracção animal, sementes e tractores com as suas respectivas alfaias para o fomento das campanhas agrícolas e assim combater a fome e a pobreza.
Para a campanha agrícola 2010/­2011 foram desbravados mais de mil hectares de terras, que estão a ser atribuídos a 11 associações de camponeses, que tudo têm feito para o desenvolvimento da agricultura na localidade.
Francisco Cameia mostrou-se optimista quanto à campanha agrícola 2010/2011. “Será melhor em relação às outras, tendo em conta os incentivos em imputes agrícolas que os agricultores vão receber do governo da província, que está previsto serem entregues em breve, no âmbito do combate à fome e à pobreza”, disse.
O município de Mavinga, com uma superfície de 44.347 quilómetros quadrados, tem uma densidade populacional estimada em 34.066 habitantes, que têm a agricultura como a principal actividade. As culturas mais proeminentes são o milho, mandioca, massango, massambala, feijão, gengibre, batata-doce e cana-de-açúcar.

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