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Memorial do Cuito Cuanavale pronto para inauguração

Lourenço Manuel | Cuito Cuanavale

Um imponente edifício de aproximadamente 35 metros de altura, sob a forma de pirâmide, erguido de raiz logo à entrada da sede municipal do Cuito Cuanavale, com a denominação de “Monumento Histórico”, é sem margem de dúvidas a maior dádiva do Governo angolano para honrar a memória de todos aqueles que lutaram para defender aquela localidade da ocupação sul-africana.

Estátua simbolizando o heroísmo das forças armadas de Angola e de Cuba
Fotografia: Lourenço Manuel

Um imponente edifício de aproximadamente 35 metros de altura, sob a forma de pirâmide, erguido de raiz logo à entrada da sede municipal do Cuito Cuanavale, com a denominação de “Monumento Histórico”, é sem margem de dúvidas a maior dádiva do Governo angolano para honrar a memória de todos aqueles que lutaram para defender aquela localidade da ocupação sul-africana.

As obras de construção da mega infra-estrutura, que comporta dois pisos, um terraço e sustentado por três vigas de betão armado, e que lhe conferem a forma de uma pirâmide, estiveram a cargo da construtora chinesa “Sinohydro”, que executou a empreitada em 18 meses. O moderno edifício está equipado com um elevador com capacidade para transportar cinco pessoas.
Logo à entrada do pátio do monumento histórico, o visitante tem como cartão de visita uma gigantesca estátua de dois soldados, sendo um combatente das ex-FAPLA e outro cubano, com os punhos erguidos em sinal de vitória no fim dos combates da já conhecida, nos quatro cantos do mundo, “Batalha do Cuito Cuanavale”, que se desenrolou no dia 23 de Março de 1988.
No mesmo perímetro estão a ser construídos também uma biblioteca e um museu, este último, onde será exposto uma parte das armas capturadas durante os combates, do material utilizado pelas extintas FAPLA e das tropas cubanas. As empreitadas estão em fase de acabamento e antes do final do primeiro semestre deste ano, a construtora chinesa vai proceder a entrega das mesmas.
Para perceber melhor a dimensão do monumento histórico, uma equipa de reportagem do Jornal de Angola visitou recentemente o local na companhia de dois engenheiros da construtora chinesa na qualidade de guias. As cinco casas protocolares com uma estrutura arquitectónica moderna de se lhe tirar o chapéu foram o nosso primeiro destino.
Os engenheiros chineses, que preferiram não se identificar, asseguraram à nossa reportagem que a Sinohydro vai construir no local mais 20 residências do mesmo modelo, no decurso deste ano, para poder corresponder ao número de pessoas que se espera venham a visitar aquele marco histórico durante a sua inauguração, aprazada para o próximo ano.
Com as ruas de acesso bem asfaltadas, fomos conduzidos de imediato a visitar de perto as duas naves preparadas especificamente para acolher a cerimónia de inauguração do memorial.
Segundo explicações recebidas no local, cada nave tem duas salas vastas e está equipada com uma cozinha e restaurante capacitado para atender 1.200 pessoas.

Exposição de armamento

Segundo uma fonte do Jornal de Angola, o armamento utilizado pelas ex-FAPLA e pelas tropas cubanas para a exposição já está concentrado nas proximidades do memorial. “Vamos agora encetar alguns contactos com a África do Sul para o fornecimento, nem que seja por meio de fotografias, das armas utilizadas pelo seu exército nos combates para que os visitantes tenham uma ideia concreta da dimensão da guerra que se travou no Cuito Cuanavale. Para a nossa fonte, a “Batalha do Cuito Cuanavale” é considerada das mais violentas registadas na face da terra depois da Segunda Guerra Mundial, que se desenrolou entre 1939 e 1945. “Tendo em atenção o tipo e calibre do armamento utilizado nos combates, então é necessário preservar isto para que as gerações vindouras saibam também o que se passou em Angola”, declarou a fonte.
Na batalha, que se desenrolou no dia 23 de Março de 1988, estavam lado a lado efectivos das FAPLA coligadas com as Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FARC) e do lado sul-africano o 82º Regimento Presidencial e o 32º Batalhão Búfalo, que eram auxiliados por milhares de tropas da UNITA, removidas de vários pontos do país.
Esses combates, que terminaram com uma retumbante vitória das FAPLA e das FARC, abriram as portas para a ascensão da Namíbia à independência, a abolição do regime do apartheid da África do Sul e a consequente retirada das tropas cubanas de Angola, no âmbito dos acordos de Nova Iorque (EUA).

Cronologia da batalha

 De acordo com fontes militares no Kuando-Kubango, o Governo angolano organiza em Outubro de 1987, a partir do Posto de Comando Avançado (PCA) das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), situado nos arredores do Cuito Cuanavale, uma mega ofensiva contra as posições da UNITA em Mavinga e Jamba, denominada “Operação Saudemos Outubro”, integrando a 21ª, 25ª, 47ª e 59ª brigadas, e o primeiro e o segundo grupo tácticos. Nos dias subsequentes, até finais do mês de Novembro de 1987, a operação corre o seu curso normal e as forças governamentais atingem as margens do rio Lomba, que fica a pouco menos de 24 quilómetros da sede municipal de Mavinga, causando pesadas baixas no seio do movimento do Galo Negro.
Pressionado, Jonas Savimbi, acusando um forte temor de perder Mavinga, lança um “SOS” a entidades do regime do apartheid da África do Sul, que ocupava ilegalmente a República da Namíbia, país onde detinham um forte dispositivo militar ao longo da fronteira com Angola.
Em Dezembro de 1987, os sul-africanos enviam o seu Batalhão 32 Búfalo, que se encontrava estacionado na região namibiana do Rundu, para socorrer as forças militares da UNITA em debandada. Apesar do seu forte poderio militar, com técnica de guerra de última geração, incluindo equipamentos electrónicos de visão nocturna, o Batalhão Búfalo encontra uma forte resistência das FAPLA.
Alarmados com a situação, as chefias militares do exército do apartheid reforçam o seu contingente, enviando para o teatro das operações militares o 82º regimento presidencial equipado com os sofisticados canhões de longo alcance G-5, G-6 e esquadrilhas de aviões de combate, incluindo aviões não tripulados carregados de bombas e que eram teleguiados até ao objectivo pretendido. Face a esta superioridade numérica e tecnológica das forças sul-africanas, que viram o seu leque reforçado ainda com 23 batalhões semi-regulares da UNITA e 18 regulares (comandos) que Jonas Savimbi movimentou de outras regiões do país, as forças governamentais iniciaram de forma organizada a sua retirada das posições assumidas para o Cuito Cuanavale, de onde haviam partido.
Maravilhados com a vitória de Pirro provocada pelo recuo para posições estratégicas das forças governamentais, Jonas Savimbi e o então ministro da Defesa do regime racista do apartheid enviam mais tropas para as linhas de combate e traçam como primeiro objectivo a tomada do Cuito Cuanvale, a partir do qual pensavam criar um corredor até Luanda, tomando pelo caminho as províncias do Bié, Huambo, Benguela e Kwanza-Sul.
Nos arredores da sede municipal do Cuito Cuanavale, onde os efectivos das FAPLA tinham recuado, com muitos prejuízos pelo caminho, criou-se uma forte defesa para se conter o avanço das tropas invasoras. Informado da superioridade numérica dos sul-africanos, o Governo de Angola pede apoio a Havana e as tropas cubanas da 70ª brigada estacionadas nos arredores da cidade de Menongue avançam para o Cuito Cuanavale.
Dia 23 de Março de 1988 eclodiu então a histórica “Batalha do Cuito Cuanavale”, durante a qual as tropas sul-africanas utilizaram todo o tipo de armamento, incluindo bombas tóxicas, travaram-se combates aéreos entre esquadrilhas cubanas e sul-africanas, usou-se artilharia de calibres diversos, durante quase todo o dia, e os combates duraram até o dia seguinte, com as forças sul-africanas e seus aliados da UNITA a retirarem-se em debandada.

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