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Minas terrestres são desactivadas

Lourenço Manuel | Mavinga

Mavinga ainda carrega o fardo da guerra. Os exemplos mais relevantes são os campos de minas em áreas para a agricultura e indústria, o mau estado das estradas e a degradação da pista do aeroporto. 
         

O governador da província (à esquerda) com o administrador municipal (ao centro)
Fotografia: Lourenço Manuel

O administrador municipal de Mavinga, Francisco Cameia, disse que a região herdou da guerra que assolou o país um fardo demasiado pesado e que, nos dias de hoje, os seus efeitos continuam a reflectir-se negativamente na vida quotidiana da população. Apontou os diversos campos de minas, a falta de estradas e o estado de degradação da pista do aeroporto local, como os exemplos mais relevantes.
 Oito anos depois do fim do conflito armado, Francisco Cameia faz um balanço positivo relativamente à recuperação de infra-estruturas destruídas pela guerra e assegurou mesmo que o futuro do município é promissor, a julgar pelos múltiplos esforços do Governo central, que não tem mãos a medir no sentido de ver concretizados todos os projectos destinado a combater a fome.
Disse que com o fim da guerra, a sede do município de Mavinga passou a ter um hospital municipal, postos médicos, escolas primárias, uma central térmica, retransmissor dos sinais da Rádio Nacional e da Televisão Pública de Angola e o comércio ambulante aumentou, estando a dar um outro sentido à vida da população.
Apesar dos sucessivos ganhos, as marcas da guerra ainda continuam bem visíveis nos escombros e nas zonas minadas, que constituem o principal tormento da população, quer no cultivo de alimentos, quer na circulação para os diversos pontos do município.
Recentemente, o governador Brito Teixeira, que se deslocou a Mavinga para acompanhar a visita do ministro da Assistência e Reinserção Social, João Baptista Kussumua, descreveu a zona leste do Kuando-Kubango como um autêntico “inferno”, porque além do problema das minas e do areal, as sedes comunais e as aldeias estão separadas entre si por centenas de quilómetros.
“Agora, imagine-se quanto sacrifício tenho de consentir para construir uma escola ou posto de saúde nestas localidades. Primeiro, tenho de tirar os materiais de construção do litoral para Menongue e depois para Mavinga e, a partir daqui, transportar para as comunas ou aldeias. E, verdade seja dita, não há viatura, ainda que seja nova, que suporte tamanha façanha”, comentou.
Segundo Brito Teixeira, nas mesmas condições estão o Rivungo, Nankova, parte das localidades fronteiriças (Dirico, Cuangar e Calai) e o interior do Cuito Cuanavale e do Cuchi. “Na verdade, não vamos esperar por milagres. Os investimentos direccionados para estas zonas deverão avançar de qualquer jeito”, concluiu.

Recursos locais

Francisco Cameia disse que a sede do município, que no passado foi palco de renhidos confrontos militares, agora é um bom sítio para morar, graças aos recursos naturais locais, como árvores, blocos de barro, capim, entre outros materiais que estão a conferir uma outra imagem a esta região.
Com os referidos materiais, foi possível a construção da administração municipal, escolas, postos de saúde e a instalação da rede de distribuição de corrente eléctrica na sede municipal. Além disso, Mavinga não sobrevive apenas dos recursos locais, mas também de materiais convencionais de construção civil que chegam à vila em pequenas quantidades.
No capítulo das comunicações, o município também conheceu avanços significativos, com a instalação de algumas cabines telefónicas do sistema Liga-Liga da Angola Telecom e que tem vindo a facilitar o contacto com o mundo exterior por parte da população. Estes serviços também estão disponíveis nas comunas de Kunjamba, Luengue e Kutuilo.
Para Francisco Cameia, é necessário que se faça uma intervenção urgente na pista do aeroporto local e no troço rodoviário entre o Cuito Cuanavale e Mavinga até Rivungo, como a única solução para se acabar com o actual estado das coisas na zona leste da província, uma acção que beneficiaria também as estradas terciárias de acesso às comunas e aldeias mais populosas.
Com uma população de aproximadamente 300 mil habitantes, distribuídos pelas comunas do Luengue, Kunjamba, Kutuilo e a aldeia do Likwa, o município de Mavinga é, por isso mesmo, considerado o segundo mais populoso do Kuando-Kubango, depois de Menongue, a capital, que possui actualmente cerca de 730 mil habitantes.
A prática de uma agricultura de subsistência, a pastorícia, pesca artesanal e a caça figuram entre as principais tarefas da população de Mavinga, que produz essencialmente a mandioca, milho, massango, massambala, feijão, gengibre, batata-doce e cana-de-açúcar.
Com enormes potencialidades hídricas, ali despontam os rios Kuando, Kembo, Lomba, Cúbia, Namomo, Matungo, Wasseke, Kapembe, Wayombua e Luengue, para os quais o administrador solicitou apoios das autoridades para a criação de perímetros de irrigação para a produção de alimentos em grande escala. Apontou também a componente turística como um dos principais recursos que estes rios proporcionam e que, entretanto, aguardam por exploração.

Problemas mil

Em relação ao sector da educação, o município tem três escolas com um total de 10 salas de aulas e todas elas a funcionarem na sede do município, sendo uma do ensino primário, com 9.833 crianças, outra do primeiro ciclo, na qual estão matriculados 577 alunos, e a última do 2º ciclo, que conta com 146 discentes. Uma quarta escola primária está a ser construída na comuna de Kunjamba.
Face à exiguidade de infra-estruturas escolares, algumas turmas recorrem às capelas e à sombra das árvores para assistirem às aulas. Outro problema reside no facto de existir um número reduzido de professores, situação que deixou, no presente ano lectivo, mais de 14.981 crianças fora do sistema normal de ensino.
Por essa razão, disse Francisco Cameia, a administração tem como principal desafio para os próximos tempos a construção de escolas em todas as comunas e aldeias e de algumas moradias, bem como a criação de políticas de atribuição de subsídios especiais para atrair mais professores para Mavinga.
A rede sanitária do município funciona com um hospital instalado na vila de Mavinga, denominado Mwene Chiyengo, e postos rudimentares em cada sede comunal, que se debatem com problemas de escassez de medicamentos, material gastável, reagentes para análises clínicas e técnicos.
O grosso dos enfermeiros que asseguram o normal funcionamento destas infra-estruturas, há mais de quatro anos que não recebem um único centavo, por não estarem inseridos no sistema normal de pagamentos de salários do Ministério da Finanças e, por isso, estão a abandonar o local de trabalho para outros biscates, no intuito de amealharem qualquer coisa para o seu sustento.
O paludismo, doenças respiratórias agudas, infecções gastrointestinais, eclampsia severa, quistos ovários, apendicite, hérnias inguinais e estranguladas, prostatites agudas e hidrocelos, infecções sexualmente transmissíveis e o contágio por VIH/sida são as doenças que mais afligem a população.    
 O município de Mavinga é uma das regiões mais minadas da província do Kuando-Kubango, pois, recorda Francisco Cameia, serviu de base central de logística da UNITA durante pouco mais de duas décadas, e para se defender das investidas das forças governamentais colocavam minas em tudo que é canto, à semelhança do exército do regime do apartheid da África do Sul, que também utilizava o mesmo território.

Remoção de minas

Segundo o administrador, a remoção destes artefactos nas estradas de acesso à sede do município, para as comunas e para outros aldeias, pouco ou nada tem avançado, razão pela qual solicitou a substituição da operadora de desminagem “The Hallo Trust” pela brigada de engenharia das Forças Armadas Angolanas (FAA), para que este processo possa atingir os objectivos preconizados.
Explicou que a “The Hallo Trust” tinha como missão desminar o troço rodoviário entre o Cuito Cuanavale até à sede municipal de Mavinga, num percurso de cerca 230 quilómetros, mas por incrível que pareça esta Organização Não-Governamental britânica limitou-se a fazer trabalhos preliminares no bairro Samaria, na margem do rio Kuito, e a paralisação já dura há perto de cinco anos.
O responsável da “The Hallo Trust” no Kuando-Kubango, José António, contactado pelo Jornal de Angola, disse que, efectivamente, a ONG britânica de desminagem está há cerca de cinco anos a efectuar trabalhos de remoção de minas na sede e arredores do Cuito Cuanavale, e somente em 2008 é que começou com as actividades de desminagem do troço rodoviário que vai até à sede municipal de Mavinga.
Reconheceu, no entanto, existir uma morosidade na retirada das minas no referido troço, porque no decurso dos trabalhos encontraram um campo minado, deixado pelo exército do apartheid da África do Sul, com uma extensão de cinco quilómetros e com minas plásticas que são de difícil identificação pelos instrumentos electrónicos e por isso estão a ser retiradas manualmente.
A falta de financiamentos e meios logísticos à altura das encomendas também foi apontado como um dos factores no atraso da desminagem da estrada Cuito Cuanavale/Mavinga, que já tem perto de 16 quilómetros livre de minas, tendo prometido dar mais pormenores proximamente.

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