Províncias

O martírio da viagem tem os dias contados

Ferraz Neto | Cuangar

Definitivamente, as obras de reconstrução nacional chegaram ao Kuando-Kubango. A equipa de reportagem do Jornal de Angola fez parte da comitiva do governador provincial Eusébio de Brito Teixeira num périplo por alguns municípios.

O Executivo elegeu como uma das prioridades a reparação e construção das estradas que ligam os municípios do Kuando-Kubango
Fotografia: Nicolau Vasco| Cuangar

Definitivamente, as obras de reconstrução nacional chegaram ao Kuando-Kubango. A equipa de reportagem do Jornal de Angola fez parte da comitiva do governador provincial Eusébio de Brito Teixeira num périplo por alguns municípios, e constatou que em termos de infra-estruturas rodoviárias o cenário já não é de imobilismo. Algumas obras em curso prometem ligar e facilitar mais as viagens intermunicipais.
A viagem por estrada de Menongue, capital da província do Kuando-Kubango, para os municípios do Cuangar, Calai e Dirico era tida como praticamente inconcebível. Desde a era colonial, a única estrada que ligava Menongue ao interior da província era de terra batida e brita.
No auge da guerra, caminhar de carro de Menongue até Cuangar, Calai ou Dirico era tão complicado e arriscado que quem o fizesse era considerado valente. Eram zonas densamente minadas.
“Por aqui ninguém passava”, salienta o tio Bento, ex-militar e agora motorista ao serviço do governo da província.
A estrada, por falta de uso constante, foi invadida e dominada pelo matagal. Os arbustos no meio da estrada dificultam o avanço das viaturas, que têm de abrir caminho aos ziguezagues. Por ser uma viagem tão difícil, quase uma missão impossível, os viajantes para o Cuangar, Calai e Dirico acabam por avançar através de uma passagem pela República da Namíbia.
Anteriormente, os motoristas contornavam o percurso difícil, alargando a viagem até ao posto fronteiriço de Xangongo, na província do Cunene, ou então até ao posto fronteiriço de Katuitue, no Kuando-Kubango. 
Tanto Xangongo como Katuitue dispõem de uma vasta ligação fluvial com a República da Namíbia através do rio Kubango. A travessia é feita tanto em embarcações artesanais como das mais modernas.
Após a tramitação migratória, a viagem à margem do rio, em território namibiano, é feita em estrada completamente asfaltada e devidamente sinalizada. Depois, há que cortar novamente a fronteira em direcção ao território angolano. Por esse itinerário a viagem dura pouco mais de uma hora,  enquanto se fosse toda ela feita em território angolano teria a duração de duas semanas. As minas são um perigo constante.

Odisseia com fim anunciado

A coluna de viaturas é ofuscado pela poeira, que também atinge as árvores do matagal ao longo da estrada Caiala-Cuangar, com uma extensão de 105 quilómetros. O cenário não intimida os experimentados motoristas, a maioria dos quais ex-militares conhecedores daquelas paragens. “Já se anda muitíssimo bem”, exclama o motorista.
A sensação de desalento é vencida com a visão de alguns homens e máquinas a trabalharem ao longo da via. Desde o mês de Janeiro do corrente ano que a empresa angolana Decar arrancou com as obras de construção da estrada.
Os trabalhos decorrem a bom ritmo. Prevê-se que até Fevereiro do próximo ano a estrada Caiala-Cuangar seja entregue ao dono da obra, que é o Estado angolano. Estão em curso os trabalhos preliminares de colocação de brita e areia, bem como o nivelamento e compactação da terra.
Em vários troços, a viagem é tão confortável que os motoristas respiram de alívio. “Estamos bastante satisfeitos com o trabalho que tem sido desenvolvido nesta via”, disse o camionista Aníbal Domingos Isaac, exímio conhecedor daquelas paragens.
Condutor de uma cisterna de combustível que abastece os geradores das administrações do Cuangar e Calai, Aníbal Isaac disse que, anteriormente, a viagem de Menongue a Caiala tinha uma duração de 12 horas.
A grande dor de cabeça, no seu entender, reside na travessia do rio Kubango, na localidade de Savate. “Os camiões não conseguem subir a elevação que existe antes de atingirmos a jangada, por haver muitas pedras e areia”.
Aníbal Isaac afirma que a travessia é mais segura quando a viatura é constituída por dois eixos de rodados. “Trata-se de um desafio enorme. Mas como já vamos ter uma estrada nova, com asfalto, as coisas serão melhores”, referiu, optimista.

Obras geram emprego

As empreitadas de estradas, e outras, vieram dar outro alento e perspectiva de vida aos milhares de habitantes do Cuangar. O estaleiro central da empresa Decar fica no bairro do Tchissango, a aproximadamente 15 quilómetros da sede municipal do Cuangar e 70 por cento da mão-de-obra desta empresa é angolana.
Idalina Cuidado Bambi, natural da província do Kwanza-Sul, vivia em Luanda. Aos 30 anos de idade, decidiu fixar-se no Cuangar, onde lhe haviam prometido emprego. Foi admitida na Decar, onde responde pela área da cozinha. Interpelada pela reportagem do Jornal de Angola, disse que já está familiarizada com o meio, confessando-se igualmente optimista e  reconfortada com os 60 mil kwanzas de salário que aufere. Tudo faz para acumular poupanças. “Deste valor, envio metade para Luanda, onde estão os meus dois filhos”, explica a jovem.  Na secção da cozinha encontra-se a estagiar a jovem Cristina Banco, natural do Cuangar, mais precisamente da aldeia de Tchissango. Cristina explicou à reportagem do Jornal de Angola que trabalha como auxiliar de cozinha há dois meses e aufere um salário de 18 mil kwanzas. Trata-se do seu primeiro emprego. “Graças a este trabalho já consigo subsidiar algumas das necessidades de casa”, adiantou.

Rigor nas empreitadas

A comitiva liderada pelo governador Eusébio de Brito Teixeira, depois de ter percorrido várias localidades da província, fez-se novamente à estrada rumo ao município do Dirico, passando por Nancova, Calai e Cuangar. A primeira paragem foi em Tchissango, local onde está o estaleiro central da empreiteira responsável pela construção do troço Caiala-Cuangar-Savate. São mais de 105 quilómetros de estrada, cujas obras tiveram início em Janeiro deste ano. Segundo António Lameira, encarregado, a obra ficará definitivamente concluída em Abril de 2011.
Na província do Kuando-Kubango todas as obras de infra-estrutura enfrentam um problema logístico bicudo: o transporte dos materiais. As distâncias entre municípios são longas e as estradas são escassas e em muito mau estado.  A concentração de máquinas de grande porte requer muito tempo e há a tendência permanente de inflação dos custos operacionais. Em alguns casos, fica muito mais barato adquirir e transportar os materiais a partir da Namíbia.
Na região do Savate uma empresa chinesa tem a missão de construir a estrada  Savate-Katuitue. A empreitada está avaliada em 78 milhões de dólares americanos, mas apenas 45 por cento do valor já foi disponibilizado.
Edivaldo Agostinho, responsável pela fiscalização, disse que dentro dos acordos de execução da obra, ficou assente que a mesma será entregue em dois anos ao Estado angolano.Já no troço Caiundo-Savate, de 150 quilómetros, a obra, avaliada em 109 milhões de dólares, é da responsabilidade da Teichmann Angola, empresa mista de direito sul-africano e angolano. Apenas em 2013 os automobilistas poderão usufruir condignamente dessa estrada. 

Tempo

Multimédia