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Rivungo sai do isolamento

Ferraz Neto| Rivungo

O Kuando-Kubango tem vindo a demonstrar, nos últimos anos, que é exactamente o contrário das "terras do fim do mundo". A província está cada vez mais próxima de tudo e em oito anos depois da paz, as obras de reconstrução de infra-estruturas estão por todo o lado.

Um pormenor da vila do Rivungo com algumas casas recentemente construídas para os quadros que trabalham no município
Fotografia: Nicolau Vasco| Rivungo

O Kuando-Kubango tem vindo a demonstrar, nos últimos anos, que é exactamente o contrário das "terras do fim do mundo". A província está cada vez mais próxima de tudo e em oito anos depois da paz, as obras de reconstrução de infra-estruturas estão por todo o lado. É o caso do município do Rivungo, onde são visíveis os sinais do despertar para o progresso. 
omo é próprio das localidades rurais do interior de Angola, à primeira vista a sede municipal do Rivungo parece dormitar em silêncio e na indolência. Das casas de pau a pique sobressai uma construção moderna que alberga os serviços da Administração Municipal.
Mais à frente está uma escola, novinha em folha, com seis salas. Ao lado estão os escritórios do gabinete eleitoral. Tudo nasceu fruto da paz. Mas a vila ainda mostra sinais da guerra. Por todo o lado vemos destroços inclusive de viaturas militares.
A equipa de reportagem do Jornal de Angola conviveu com os habitantes do Rivungo. São gente simples, que cultiva a humildade e a alegria, mesmo vivendo com privações.
"Rivungo é uma terra virgem, que necessita do apoio de todos. Se antes representava as terras do fim do mundo, hoje representa a esperança em dias melhores", disse Pedro Tchiambo, uma das figuras mais emblemáticas da localidade. 
O município, situado a 189 quilómetros da cidade de Menongue, capital da província do Kuando-Kubango, tem actualmente 77.771 habitantes. A viagem, em estrada de terra batida, com areal imenso em vários troços, é complicada.
A situação é praticamente a mesma em todos os municípios da província, com árvores no meio da estrada a complicar o avanço das viaturas. Um dos troços fundamentais da estrada tem de ser contornado porque está minado.  A alternativa encontrada tem sido a via Rio Uefo-Rio Cubia-Mavinga-Menongue, que, mesmo assim, é uma verdadeira aventura  para os automobilistas. A viagem de Rivungo a Mavinga chega a durar semanas.

Falta de escolas

Muitas crianças do Rivungo ainda estudam debaixo das árvores. Quando chove, ninguém estuda. O administrador municipal adjunto, Charles Aliane Munguenga, está optimista, apesar das carências no sector da Educação.
"Temos 24 mil alunos matriculados no sistema de ensino", salientou. "Mas a situação obriga a muito trabalho porque 20.344 crianças estão fora do sistema de ensino. O nível de escolaridade vai apenas até à oitava classe e não há ensino médio". 
Rivungo é uma zona onde não existem comunicações. O sinal da Televisão Pública de Angola (TPA) chega apenas por satélite. A Rádio Nacional de Angola não tem sinal, nem funciona o serviço de telemóvel. Mas como Rivungo está perto da fronteira com a Zâmbia, é fácil apanhar o sinal do serviço móvel das operadoras da Zâmbia.

Saúde inspira cuidados

No domínio da saúde, a situação "inspira cuidados". Charles Munguenga alerta que a proximidade da fronteira com a Zâmbia facilita a circulação de pessoas de um lado para o outro que transportam e espalham doenças. 
São muito comuns as gripes, as diarreias, tuberculose e as doenças sexualmente transmissíveis. "Não recebemos medicamentos para estas doenças. Os casos mais graves são transferidos para uma vila fronteiriça na Zâmbia", disse o administrador municipal adjunto.
Em termos migratórios o atendimento é recíproco. Com um simples passe de travessia, os doentes transpõem a fronteira em busca de melhores condições de assistência médica. Nas palavras de Charles Munguenga, "um número insignificante de técnicos de saúde faz as honras da casa".


Falta de combustível

A vila do Rivungo, quando a noite cai, fica às escuras. Não há energia eléctrica para todos os seus habitantes. O sistema de abastecimento é precário e apenas uns poucos beneficiam dele.
Mas, segundo o administrador adjunto, o quadro vai mudar em breve. "Os esforços do Executivo resultaram na instalação de um gerador capaz de abastecer a sede municipal. Mas o gerador está parado por falta de combustível", salientou.
A dificuldade de transporte entre Menongue e o Rivungo agrava o problema da falta de combustível. Mas a estrada vai melhorar em breve e os problemas são ultrapassados.  

O amor à Pátria

A notória evolução do Rivungo, depois do final da guerra, está a atrair à localidade jovens oriundos de Menongue, Namibe, Malange e até Luanda. O posto fronteiriço, constituído por cabanas de pau a pique, tem funcionários do Serviço de Migração e Estrangeiros, Polícia de Guarda Fronteira e Polícia de Ordem Pública. 
A fronteira é constituída por um rio, através do qual as populações de ambos os países fazem as suas trocas comerciais e interagem de mil e uma maneiras.
O comércio está nas mãos dos comerciantes zambianos. Da Zâmbia vêm para Angola produtos como moinhos de milho e bens de primeira necessidade. No sentido contrário só vai dinheiro.
Os funcionários do Estado colocados na fronteira são homens destemidos, imbuídos de espírito de missão. Em tempo de paz largaram as famílias e consentem sacrifícios em prol da pátria. A bem dizer, são os heróis da paz. "O salário vem de três em três meses", afirma um agente da Polícia de Guarda Fronteira.

Sofrimento dos professores  

Professores e enfermeiros estão numa situação bastante difícil. Muitos professores, técnicos de saúde e outros servidores públicos trabalham de sol a sol e não auferem os seus salários.
O desespero começa a invadir os funcionários que estão nessa condição. "Na administração há chefes de secção que não ganham", exemplificou o administrador adjunto.
Além dos funcionários administrativos, 150 professores estão nas mesmas condições, tal como 38 técnicos de saúde. Os maus acessos e as dificuldades de comunicação, mais do que a localização geográfica, transformam o município do Rivungo numa ilha em terra. A vida quotidiana dos seus habitantes está voltada para a Zâmbia. Sem qualquer exagero, tudo vem de lá, inclusive o material para as obras de construção e reabilitação de infra-estruturas. 
O município do Rivungo confina a Leste com a República da Zâmbia, a Norte com a província do Moxico e o município de Mavinga e a Sul com o município do Dirico.

 

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