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A mística da lagoa da Banga

Kassongue é uma lagoa que fica mesmo pertinho da vila da Banga. Fica apenas a uns quatro quilómetros de distância da vila. Muita gente a conhece como Lagoa da Banga.

Fotografia: Dombele Bernardo

Kassongue é uma lagoa que fica mesmo pertinho da vila da Banga. Fica apenas a uns quatro quilómetros de distância da vila. Muita gente a conhece como Lagoa da Banga.
Durante o reinado de Dom João Faustino Mzuzo Muta Mussaka em Caculo-Cahui, o espaço onde é hoje a lagoa da Banga estava coberto de baçoeras, plantas que servem para a construção de luandos, facilitada pela humidade. O espaço foi descoberto por Dom Faustino em 1457.
Dom João Faustino desempenhou o cargo de soba municipal. Após a sua morte, foi indicado Dom João Matulo para governador daquela região, com o objectivo de controlar o parque até 1915, altura em que é substituído por Dom Kumbi Kalembe.
A Lagoa de Kassongue foi criada no dia 30 de Junho no longínquo ano de 1972, pelo comerciante José Brito Afonso.
O comerciante Brito nunca imaginou que a sua obra estivesse hoje rodeada de mística e falares da boca popular. O surgimento da lagoa é hoje atribuído à exigência dos seus filhos, um casal de gémeos, que em sonhos lhe pediam para construir uma piscina.
Foi tanta a insistência dos seus rebentos, aliada a característica especial dos gémeos, que o comerciante decidiu dirigir-se ao soba de Caculo-Cahui, Dom André, que o autorizou a construir a pretendida piscina, na reserva do parque que na altura estava coberta de plantas aquáticas que servem para a construção de luandos. A empreitada foi terminada num prazo de 30 dias.
Outros atribuem o surgimento da lagoa à necessidade de abastecer de água o gado de José Brito Afonso, que pastava em abundância no lugar. Num certo dia se decidiu mandar vir uma escavadora e resolveu abrir uma represa de menor dimensão. A pouco e pouco e pelo facto de estar numa bacia hidrográfica de onde nasce o famoso rio Lumbinji, o lago foi aumentando de dimensão até ter nos nossos dias a extensão de dois quilómetros de comprimento e 500 metros de largura.
A bacia é ainda fonte dos rios Koma, Kassange e Ndualumbi, que desagua no rio Lumbiji, na mesma região. Nesta região da lagoa também abundavam animais selvagens, e por isso era frequente a caçada de veados, socos, pacas, pacaças, coelhos e outros animais.
Na altura o homem, quando viu alargar-se o seu empreendimento, arranjou cerca de 100 espécies de peixes, dos quais cacussos, tainhas, bagres, matona, cachuchu e outras, e colocou-os na água da represa.
O regedor, vendo a importância da lagoa, convidou todos os velhos de Caculo-Cahui, para realizarem um ritual tradicional, “para amenizar os espíritos da sereia e dar sorte ao branco alheio”.  Para  os sobas desta região, cabe ao governo tratar dos assuntos visíveis e as autoridades tradicionais das questões invisíveis.
Talvez tenha nascido daí a misticidade da lagoa do Kassongue, que acolhe os espíritos dos seus ancestrais, onde a vida do passado ainda se faz presente. Circula à boca pequena que, quando frequentada por pessoas estranhas, sem a prévia autorização dos seculos (velhos), tal pode causar problemas e inclusive levar à morte de pessoas.
Luís Adolfo Sango, da área social da administração municipal, disse que os visitantes não podem banhar na lagoa sem primeiro contactarem as autoridades tradicionais, para cumprirem com os rituais da região. “As pessoas que desobedeceram morreram neste local” - disse.
Até ao momento já foram registadas quatro mortes por afogamento, entre as quais a de um casal de portugueses, em 1974, e dois jovens, cujos restos mortais até hoje não foram encontrados.
Para pôr cobro à vandalização da lagoa a sua administração estabeleceu um período de pescaria, que vai de três em três meses. Referiu que todo o peixe capturado é vendido por ordem da administração municipal da Banga.
Entre a mística e o realismo, o que é certo é que a população da vila e dos bairros circunvizinhos tem na lagoa uma das suas fontes de fornecimento de pescado.

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