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Bispo do Kwanza-Norte elogia benefícios da paz

Manuel Fontoura | Ndalatando

O bispo do Kwanza-Norte, D. Almeida Kanda, concedeu esta semana em Ndalatando uma entrevista ao Jornal de Angola, em que abordou os ganhos conquistados com a paz e os projectos da Igreja Católica

D. Almeida Kanda fala das limitações da Igreja e apela à comparticipação dos fiéis
Fotografia: Nilo Mateus

O bispo do Kwanza-Norte, D. Almeida Kanda, concedeu esta semana em Ndalatando uma entrevista ao Jornal de Angola, em que abordou os ganhos conquistados com a paz e os projectos da Igreja Católica
 
Jornal de Angola - Os ganhos da paz chegaram à província do  Kwanza-Norte?

D. Almeida Kanda
- Desde o alcance da paz, em 2002, a situação social no Kwanza-Norte e no país mudou consideravelmente. São pontos relevantes a realização das eleições legislativas em Setembro de 2008, o clima pós eleitoral, a preocupação do Governo em reconstruir o país, a construção de escolas, hospitais, a estabilização da moeda nacional, o empenho pela consolidação da democracia, reconciliação nacional e paz. Estes e outros são indicadores significativos que demonstram o empenho do Governo e de toda a sociedade, rumo ao verdadeiro desenvolvimento sustentável.

JA - O que está feito é suficiente?

DAK
- Os aspectos positivos e encorajadores são evidentes. Mas são também notórios os indicadores sombrios na nossa província e alguns deles alarmantes. Refiro-me à pobreza nas zonas rurais. O problema da pobreza no interior da província é um grande desafio para todos. A questão não é nova, mas constatamos que os anos passam e as soluções não aparecem como seria desejável. Os problemas das zonas rurais são relegados para o segundo plano. Temos de fazer uma reflexão sobre as raízes da pobreza nas zonas rurais. Como observa o Papa na sua mensagem para a celebração do dia da paz em 2009, “a paz não se pode construir apenas calando as armas, é preciso mover o desenvolvimento”.

JA - A reconstrução nacional está longe dos meios rurais?

DAK
– Há uma grande precariedade nos sectores da educação, da saúde, do comércio. Assistimos a uma recuperação lenta das infra-estruturas importantes e indispensáveis para o desenvolvimento das populações. Muitas localidades têm apenas uma loja. A maior parte dos edifícios encontram-se abandonados devido  ao avançado estado de degradação. Penso nas comunas da Aldeia Nova, Kiangombe, Kikiembe, Luinga, Kariamba e Cerca. Ainda há um longo caminho a ser percorrido para superar assimetrias sociais existentes nos mais variados sectores da vida social. É um quadro que desafia o Estado, a Igreja e a sociedade civil e que exige a nossa acção e ousadia para propor novas soluções e novos caminhos para a erradicação completa da pobreza. Penso que uma mobilização de corações e boas vontades, de generosidade, pode contribuir cada vez mais para a justiça social.

JA - Que parcerias existem entre a Igreja Católica e o governo da província para solução dos problemas sociais?

DAK
- Fiel ao ensino e exemplo de Cristo, que cava como sinal da sua missão a proclamação da boa nova aos pobres, a Igreja nunca descurou a promoção humana. Continua a colaborar com o Governo numa atitude de complementaridade e co-responsabilidade. Como se sabe, o anúncio da mensagem evangélica andou sempre associado à instrução e formação humana dos seus destinatários.

JA - Quais são os projectos mais visíveis?

DAK
- Apesar de limitações de toda a espécie, a Igreja tem um grande número de escolas construídas. A educação tem constituído o grande empenho da Igreja. Só para recordar, temos escolas primárias e secundárias e centros de alfabetização em todas as paróquias. Abrimos dois internatos para meninas adolescentes, um na missão de Kikulungo, sob responsabilidade das Irmãs do Santíssimo Salvador, e outro na cidade de Ndalatando, sob orientação das Irmãs Salesianas. A Igreja colabora no sector da saúde. Neste momento, temos cinco centros a funcionar em pleno, mais precisamente no Dondo, Ndalatando, Lucala, Samba Cajú e Camabatela.

JA - Onde a Igreja angaria financiamentos para os seus muitos  projectos?

DAK
- Para levar a cabo os vários projectos dependemos ainda da generosidade de doadores de fora. Neste momento, a Igreja encontra muitas dificuldades para realizar qualquer obra. Estou convencido de que a chave do auto-sustento é a comparticipação dos cristãos. É preciso que nos sintamos todos igualmente responsáveis pela vida da nossa Igreja. Para desempenhar cabalmente a sua missão, a Igreja precisa também de meios financeiros. Cada um de nós pode imaginar as despesas para manter a funcionar as obras missionárias. Daqui, a obrigação dos fiéis contribuírem para as obras de apostolado e de caridade.

JA - Quais são as perspectivas para este ano?

DAK
- Para o presente ano, estão em carteira os projectos de conclusão da escola primária, no bairro Carreira de Tiro, e salas para a promoção feminina no bairro Kibululu, na cidade de Ndalatando.

JA - Como anda a pastoral católica no Kwanza-Norte?

DAK
- Graças a Deus, tudo tem corrido bem. Não obstante as dificuldades, os agentes da pastoral vão reavivando o seu fôlego apostólico indo ao encontro das necessidades das paróquias espalhadas neste território do Kwanza-Norte. Mais um ano pastoral começou. A igreja, a nível diocesano e paroquial, com as suas comissões e movimentos apostólicos, retoma o seu ritmo normal, procurando acompanhar as pessoas, dando-lhes o alimento espiritual de que precisam, para não ficarem reduzidas aos mecanismos do trabalho ou do lazer, sem horizontes de esperança. No plano pastoral do último ano concentramo-nos no aspecto pessoal do nosso viver em Cristo, ajudando-nos a tomar consciência de que “Cristo é a fonte da vida”, neste novo ano reflectiremos sobre o “Nosso Viver em Cristo na sua Dimensão Social”.

JA - Quais são as congregações religiosas da Igreja Católica na província de que é pastor?

DAK
- Para o trabalho pastoral, para além dos padres diocesanos, a diocese conta com 17 congregações religiosas, Capuchinhos, com duas comunidades em Samba Cajú e Camabatela, Espiritanos, com duas comunidades em Ndalatando e Golungo Alto, Maristas, em Ndalatando, Mercedários em Kikulungo, Piamartinos no Lucala, Salesianos, com duas comunidades em Ndalatando e Dondo. As congregações femininas são compostas pelas Irmãs Catarinas a trabalhar no bairro Sassa, em Ndalatando, Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, com duas comunidades em Ndalatando e Golungo Alto, Irmãs Jesus Maria José, no bairro Carreira de Tiro em Ndalatando, Irmãs Mercedárias da Caridade, em Ndalatando, Irmãs Mensageiras, a trabalhar no bispado, Irmãs de S. Carlos Lwanga, no bairro Kibululu em Ndalatando, Irmãs do Santíssimo Salvador, com três comunidades em Ndalatando, Dondo e Kikulungo, Irmãs da Sagrada Família no Lucala, Irmãs Bom Pastor, com duas comunidades em Samba Cajú e Camabatela, Irmãs Teresianas a trabalhar no Dondo, Irmãs do Coração de Jesus Sacramentado que animam a actividade pastoral da comuna da Cerca, no Golungo Alto.

JA - Que ligações existem entre as congregações?

DAK
- Todas as congregações se comprometem a construir caminhos de comunhão. Queremos construir uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual estejam bem estabelecidas a função e o carisma de cada congregação, tendo em conta que todos somos um, desde que fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus e todos somos responsáveis pelo crescimento da Igreja e, acima de tudo, reafirmam a sua vontade de contribuírem para a reconciliação, a justiça e a paz, em ordem ao progresso humano e espiritual do país.

JA - O número de fiéis está a aumentar no Kwanza-Norte?

DAK
- Graças a Deus, o número vai aumentando de ano para ano. Isto deve-se ao trabalho generoso dos missionários e catequistas. Quanto ao fervor e à prática religiosa, registamos testemunhos consoladores. Não obstante o ambiente materialista e hedonista que se vive actualmente nos meios urbanos, muitos cristãos revelam-se cada vez mais firmes na sua fé e fervorosos na prática dos seus deveres cristãos. A prática religiosa em todas as paróquias vai aumentando de ano para ano. Registamos com muito agrado o fluxo de gente nos actos de culto, sobretudo aos Domingos. Há também o florescimento de vários movimentos apostólicos.

JA - Qual é o segredo para que o número de fiéis católicos na província do Kwanza-Norte cresça de ano para ano?

DAK
- Em primeiro lugar, a Igreja deve sentir-se sempre missionária. É obrigação de toda a Igreja “lançar-se ao lago” para a pesca, à semelhança do que fizeram os apóstolos e as primeiras comunidades cristãs. Se queremos uma pesca abundante, importa guardar o tesouro da graça recebida, traduzindo-a em ardentes propósitos e directrizes concretas de acção. Outro aspecto que deve transparecer na vida da Igreja é o testemunho autêntico. Não é segredo para ninguém que o testemunho dos cristãos fiéis à sua vocação baptismal contribui para suscitar respostas afirmativas ao apelo de Cristo. O terceiro aspecto muito importante que deve caracterizar a Igreja é viver a comunhão.

JA - Qual é o número actual de fiéis católicos comparativamente aos anos anteriores?

DAK
- Em conformidade com o relatório anual de 2008, os católicos no Kwanza-Norte são 209.173  comparando com os dados do ano anterior que eram 206.142. Houve um aumento de 3.031. Estou convencido de que os dados estatísticos do relatório de 2009, que ainda está a ser elaborado, são animadores.

JA - Qual é o principal objectivo do seminário diocesano?

DAK
– O seminário destina-se à formação sacerdotal. O fim próprio é ajudar os jovens que têm vocação sacerdotal a reconhecer isso mais facilmente e a torná-los capazes de corresponder a essa vocação. De acordo com a norma canónica, o seminário distingue-se de um simples colégio católico, em razão de ser uma instituição vocacionada por definição. O nosso seminário é médio, vocacionado para receber alunos do ensino secundário.

JA - Que tipo de formação é dada no seminário?

DAK
- No que concerne à formação,  nos seminários menores e propedêuticos, que é o nosso caso, a norma geral da Igreja é que seja ministrada uma especial formação religiosa a par da cultura humanista e científica, com a qual os jovens se preparam para os estudos superiores.   Como o nosso seminário é médio, além da formação religiosa, segue em tudo os programas estabelecidos pelo Ministério da Educação para o ensino secundário. Depois do ensino secundário, os jovens que tenham a intenção recta de ascender ao sacerdócio são enviados para o seminário maior para os estudos filosóficos e teológicos.

JA - Até que ponto os jovens se interessam pela vida religiosa?

DAK
- A análise que faço é que a civilização actual, com as suas especiais características, tornou mais problemático o florescimento de vocações consagradas.  A mentalidade do imediato e provisório subalterniza as opções definidas e os valores duradoiros. A cultura da facilidade, que ensina a evitar tudo o que exige esforço, torna mais difícil a opção por projectos que assentam na fidelidade, no compromisso, no sacrifício. No entanto, o semeador não desanima, porque sabe que uma parte desta semente está destinada a encontrar o “terreno bom”, corações ardentes e capazes de acolher a palavra com disponibilidade, para fazer amadurecer na perseverança e para lhe oferecer de novo o seu fruto com generosidade, em benefício de muitos.

JA - Qual é o número de jovens que ingressam no seminário de Ndalatando anualmente?

DAK
- O nosso seminário tem capacidade para receber anualmente 60 candidatos. Mas, nestes últimos anos, o número desceu muito devido à crise vocacional. Mas não desanimamos. Continuamos a trabalhar na pastoral das vocações com fé e esperança e, pouco a pouco, vamos discernindo o que Deus quer de nós através de novos sinais. 

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