Províncias

Cegueira dos Rios em Angola ameaça milhares de pessoas

Marcelo Manuel| Ndalatando

Mais de um milhão de cidadãos residentes em nove das 18 províncias do país podem, nos próximos tempos, contrair a oncocercose, vulgarmente conhecida por “cegueira dos rios”, caso não sejam imunizados com o fármaco Mectizan ainda no decorrer deste ano, revelou, em Ndalatando, o director nacional das doenças negligenciadas

Consultas regulares evitam a cegueira
Fotografia: Sampaio Júnior

A província do Kwanza-Norte controla perto de 138.470 pessoas ameaçadas pela oncocercose, vulgo “cegueira dos rios”. Estes cidadãos estão distribuídos em 454 aldeias, revelou quarta-feira, em Ndalatando, o director nacional das doenças negligenciadas.
De acordo com Pedro Van-Dúnem, que falava durante a cerimónia de abertura oficial do Programa Nacional de Luta contra a Oncocercose a nível da província do Kwanza-Norte, os casos que vão surgindo na região estão a preocupar as autoridades.
As regiões mais afectadas são os municípios de Ambaca, com 70 mil habitantes, Banga, com 9.209, Bolongongo, 9.095, Kikulungo, 7.942, Golungo-Alto, 34.154, e Ngonguembo, 7.505.
Em todo o país, segundo o responsável, mais de um milhão de cidadãos residentes em nove das 18 províncias, podem, nos próximos tempos, contrair a oncocercose, caso não sejam imunizados com o fármaco Mectizan ainda no decorrer deste ano.
Em função das suas consequências, hoje a oncocercose é a segunda maior causa de cegueira de origem infecciosa no mundo, razão pela qual consta da lista da OMS entre as demais a serem erradicadas, disse o médico.
Pedro Van-Dúnem afirmou que a cegueira dos rios é transmitida por uma mosca preta, que cientificamente é denominada “Zimúlio”, principalmente nas regiões próximas de rios ou riachos, onde a vegetação é abundante.
A manifestação da doença é especialmente caracterizada por aparição de nódulos na zona frontal da cabeça ou dos braços, com o tamanho de um grão de feijão; a pessoa pode ainda apresentar despigmentação da pele, vulgarmente designada por “pele de leopardo”, mormente a perda da elasticidade da derme que, de igual modo, pode ficar com a cor do lagarto. No mundo, a doença ameaça 125 milhões de pessoas, das quais 17,7 milhões já se encontram parasitadas, sendo que 99 por cento destas estão no continente africano.

Complicações

A principal e mais temível complicação da doença é a cegueira.
“Muitas vezes, a criança que cuida do adulto cego pode ser privada de muitas actividades, como os estudos, só para tomar conta do parente que não vê”, exemplificou o doutor Van-Dúnem.
De acordo com o responsável em Angola o primeiro projecto de luta contra a oncocercose foi aberto nas províncias da Lunda-Norte e Lunda-Sul, em 2005, depois no Moxico, Huíla e Kuando-Kubango. 
No ano passado, segundo o responsável nacional, o programa chegou à província do Bengo, estando nesta altura a abranger as regiões do Kwanza-Norte e Uíge.

Estratégias para o controlo

O doutor Pedro Van-Dúnem afirmou que o Executivo e seus parceiros adoptaram duas estratégias para a erradicação da enfermidade, que abarcam pessoas individuais e colectivas. A primeira inclui os hospitais e é principalmente usada nas regiões onde a doença possui um baixo índice de prevalência.
A segunda estratégia inclui o tratamento em massa, isto é, em função da notificação de casos de transmissão com carácter alto e muito alto, disse o director nacional das doenças negligenciadas do Ministério da Saúde.
O médico afirmou ainda que o principal objectivo do programa é eliminar a oncocercose e fazer com que a doença deixe de ser um obstáculo para o desenvolvimento socioeconómico nas localidades onde existem infectados, isto é, através do tratamento com Mectizan, sob a direcção dos responsáveis de cada comunidade africana.
Revelou que a referida droga (Mectizan) é um medicamento de fácil utilização, que o doente infectado deve tomar um a quatro comprimidos por ano, isto em função da altura física de cada paciente. “O distribuidor comunitário utiliza uma fita métrica para determinar quantos comprimidos cada pessoa deve tomar, dada a sua altura”, explicou. A instituição do programa para o combate da pandemia em África, saliente-se, foi criado em 1995, em Washington, Estados Unidos, resultante dos países infectados pela doença, altura em que também foi descoberto o medicamento Mectiza. O mesmo programa inclui 19 países, todos situados ao sul do deserto do Saara, Libéria, Nigéria, Burquina-Faso, Chade, Camarões, República Democrática do Congo, Congo Brazaville, República Centro Africana, Gabão, Guiné-Equatorial, Sudão, Quénia, Uganda, Rwanda, Burundi, Tanzânia, Malawi, Moçambique e Angola. 

Tempo

Multimédia