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Combate à fome e à pobreza mobiliza Kapungu inteiro

Silvino Fortunato |

Kapungu é uma aldeia com pouco mais de vinte casas, muito separadas umas das outras. Estas continuam a conservar o estilo de construção rudimentar, pois que foram levantadas com paus e rebocadas com terra, as famosas casas de pau-a-pique.
Existem também poucas habitações de carácter definitivo, que pertenciam aos antigos colonos portugueses, que possuíam a maioria das fazendas da região.

Fotografia: Nilo Mateus

Kapungu é uma aldeia com pouco mais de vinte casas, muito separadas umas das outras. Estas continuam a conservar o estilo de construção rudimentar, pois que foram levantadas com paus e rebocadas com terra, as famosas casas de pau-a-pique.
Existem também poucas habitações de carácter definitivo, que pertenciam aos antigos colonos portugueses, que possuíam a maioria das fazendas da região.
Os herdeiros destas fazendas, incapazes de continuarem com a dinâmica produtiva, decidiram retalhá-las, em médias e pequenas dimensões, que as trespassaram a terceiros.
Muitos habitantes de Kapungu trabalham nestas fazendas, uns como novos proprietários, outros como empregados.
Os filhos dos trabalhadores das fazendas de Kapungu estudam em três escolas do ensino primário. Duas pertencem à Igreja católica romana e uma ao Estado.
Aos fins-de-semana a população local recebe o consolo moral e espiritual nas capelas da Igreja Católica e do Bom Deus.
Uma pequena moagem comunitária ajuda os habitantes a moerem o bombom para o funje da tarde ou da noite, havendo outros que o consomem mesmo de manhã. O funje de bombom é muito apreciado na região e é acompanhado geralmente de peixe que sai do rio Lucala ou da carne de caça que também aqui abunda.
O miúdo João, com 13 anos, estuda a 4ª classe, diz que depois das aulas, tal como muitos dos seus amigos, vai sempre dar um mergulho no rio Kwanza, que passa aí mesmo perto de casa. Ele não teme o jacaré porque se considera o “Estado Maior” do rio Lucala.
O programa do executivo angolano de Combate à Fome e à Pobreza está a permitir envolver muitos camponeses e agricultores da região de Kapungu, na comuna de Massangano, município de Cambambe, demonstrado pelo aumento das quantidades das suas produções agrárias.
O Jornal de Angola deslocou-se a Kapungu, arredores da cidade do Dondo, e constatou a dedicação dos agentes do campo no aumento da extensão de terras e na aplicação de recursos próprios para a tarefa da promoção do cultivo.
Kapungu fica a 10 quilómetros desde o desvio da aldeia do 34, que fica na estrada nacional número 230.
 Moisés Francisco é um dos agricultores que se dedica à vida agrária há dezanove anos, assinalados no pretérito dia 3 de Julho.
A sua fazenda, denominada “São João”, existe desde 1957, por iniciativa do seu pai já falecido. No período de 1992 a 2004, a fazenda São João produzia perto de trinta toneladas de produtos de origem cítrica, como limão, laranja e tangerina.
Em 2007 a fazenda implementou o cultivo da banana, o que fez aumentar os resultados anuais para mais sete toneladas. “As quantidades tendem a aumentar”, estimou, acrescentando: “Temos produzido o suficiente e à altura dos investimentos feitos”.
Apesar dos resultados, Moisés Francisco ainda quer fazer mais para atender ao propósito que disse terem assumido perante a sociedade, que é o de produzirem mais.
Incentivados pela actual política de combate à fome e à pobreza, a fazenda está agora a preparar novos 2.500 hectares para a plantação, no próximo ano, de seis ou sete mil bananeiras.
Prevêem também implementar um novo campo de experimentação para o cultivo, em grande escala, do feijão, da batata-doce e cebola.
Os futuros espaços lhes parecem, a primeira vista, férteis para a produção daquelas culturas. “Estamos a fazer estudos para determinar quais são as sementes adaptáveis aos novos solos e os possíveis factores de ameaça para as mesmas”.
Os estudos abrangem também o combate de lagartas que são potenciais destruidores do feijão.
Estima que a lavoura nos novos espaços vai conduzir a uma produção de pelo menos cinco toneladas de feijão e oito ou mais de batata-doce.

Criação de animais e aves

A fazenda “São João” também está apostada na criação de gado caprino. Moisés Francisco indicou possuir 50 cabeças destes animais, numa actividade que iniciou há dois anos. Referiu estar a enfrentar alguns desafios para travar as investidas dos animais e aves predadoras existentes na área. Por esta razão interrompeu um programa que tinha de criação de galinhas.
“Muito recentemente fomos invadidos por jibóias e outros animais que exterminaram todas as galinhas que tínhamos em capoeiras” - disse.
Um outro agente agrário,  João de Carvalho Mutango, considera salutar a produção e o engajamento dos agricultores desta região. “Este ano produzi cerca de 500 toneladas de banana, 20 de laranja e outras quantidades, em média escala, de tomate e cebola. Tenho ainda por colher aproximadamente 15 toneladas de laranja”, disse com satisfação.
Os níveis produtivos atingidos, atendendo aos escassos recursos técnicos e financeiros que afirma dispor, deixaram-no optimista. “Penso ultrapassar essa meta no próximo ano”, acrescentou.
Deu a conhecer que cobra 500 kwanzas por cada centena de laranja pequena vendida e 1.000 kwanzas pela centena de laranjas grossas, nos dias em que não há muita procura.
Em momentos em que há fartura, como agora, João Mutango realçou que a centena das laranjas grossas, as que quatro chegam a pesar um kilograma, baixa o preço para 500 kwanzas e a dos outros tamanhos para 250 kwanzas.
Referiu que tem dependido apenas das chuvas para a rega das plantas. “Se obtivesse apoios em termos de financiamentos bancários faria muito mais ainda e assim contribuiria melhor para o aumento do abastecimento dos mercados com produtos agrícolas”, atirou.
Há três anos recebeu um empréstimo bancário de cem mil kwanzas de um programa do governo. Todavia afirma que este valor não foi suficiente para atender as necessidades dos seus oito hectares e dos seus sete trabalhadores. Cada trabalhador tem um salário mensal de 10.000,00 kwanzas, contrapôs.
O secretário-geral da UNACA do município de Cambambe, Manuel António, disse que a sua organização efectua presentemente trabalhos de sensibilização dos camponeses para o aumento da produção, para corresponderem ao programa do executivo angolano de combate à fome e à pobreza.
 A associação controla 2.040 agentes agrários, sendo 997 mulheres, integrados em 48  associações e 18 cooperativas.
“Testemunhamos haver uma produção muito elevada”.
Exemplificou que há dias visitou uma associação chamada “Sacrifício”, onde encontrou muita produção, sobretudo de tomate, cebola, repolho, couve e outros produtos.
 
Escoamento da produção
 
Os produtos cultivados na região de Kapungo são vendidos nos mercados das Aldeias de Cassoalala, quilómetro 34 e nas cidades de Luanda e Dondo.
Para Moisés Francisco o grande problema na comercialização dos produtos tem sido na época chuvosa, uma fase dedicada à recolha do limão.
 A laranja não tem conhecido este problema, porque é colhida na época seca. As quitandeiras das localidades do 34 e Cassoalala têm vindo com os meios próprios à fazenda.
Temos também alugado carrinhas para a comercialização do produto na cidade do Dondo e em Luanda. Também levamos os produtos para Cassoalala e 34.
A via terciária está há mais de 35 anos sem nunca ser reparada. A circulação automóvel em cerca de 10 quilómetros, contados desde o desvio da estrada nacional 230, na aldeia do 34, demora mais de 30 minutos.
No período chuvoso somente os tractores e camiões de grande porte podem circular nesta via.Contudo o tractor não pode tirar grandes quantidades de produto e comercializá-los directamente em Luanda. Há o transtorno de carregar na fazenda, fazer a descarga no quilómetro 34 e buscar outros meios para a transportação da carga para os mercados das grandes cidades.
O período chuvoso é o mais complicado. Na época seca e por causa das inúmeras valas, registamos a quebra de molas das poucas viaturas que se “atrevem” a circular nesta via e muitos dos seus titulares acabam por desistir, “deixando-nos isolados”.
O responsável da UNACA afirmou que os camponeses estão apostados no combate à fome e à pobreza mas os produtos estão a estragar nos campos por falta de meios para a sua transportação para os mercados.
“As vias estão muito estragadas e os camponeses não conseguem transitar nelas. É preciso que essas estradas terciárias sejam arranjadas, sendo urgente a intervenção do governo para a reparação das vias de acesso aos campos agrícolas e a criação de mecanismos para o escoamento desses produtos”.
Defende que o governo encontre formas para a venda e compra destes produtos nos campos. Reconheceu que os camponeses perdem muito por falta de meios de escoamento, assim como pela deterioração das vias.
João Mutango disse que dificilmente conseguem alugar viaturas em épocas chuvosas por causa das vias. “Muitos dos nossos produtos estragam-se no campo, com todo o prejuízo decorrente para as fazendas”.
 Estima que com as vias em boas condições qualquer motorista se mostraria disponível para chegar até às fazendas, “mas assim como está é difícil”.
 Os poucos compradores que aparecem na fazenda exigem preços baixos para a compra do produto, por causa das dificuldades da estrada. Lamenta que, “juntando os custos da produção e o pagamento dos salários aos trabalhadores, a nossa produção vai quase toda de graça”.

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