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Construções ilegais nascem nos cemitérios

Isidoro Natalício | Ndalatando

Enterrar os mortos em jazigos mas sem caixão de chumbo apropriado é cada vez mais frequente no Kwanza-Norte. O médico Manuel Duarte Varela disse que na eventualidade de um desabamento ou fenda na laje da sepultura são libertadas bactérias que provocam doenças graves.

Enterrar os mortos em jazigos mas sem caixão de chumbo apropriado é cada vez mais frequente no Kwanza-Norte. O médico Manuel Duarte Varela disse que na eventualidade de um desabamento ou fenda na laje da sepultura são libertadas bactérias que provocam doenças graves. Outros médicos dizem que enquanto o corpo não se desintegra os vivos correm riscos de tuberculose, meningite e sarampo.
”Já aconteceu uma ruptura em Ndalatando o cheiro que vinha do cemitério era insuportável. Valeu a intervenção da Administração Municipal de Cazengo”, disse um inspector da Saúde.
O problema é que existem cemitérios fora do controlo das autoridades na generalidade dos municípios da província. Enterrar os cadáveres num jazigo exige cuidados especiais e um caixão de chumbo. De outra forma há sempre perigo para a saúde pública. 
Mesmo sem abertura no tampo do sepulcro há sempre a libertação de gases, porque a massa de cimento e areia é permeável disse o engenheiro de construção civil, Vita Almeida. Por isso, apenas o caixão de chumbo é eficaz.
Devido ao enterro indevido de cadáveres ou apenas por causa do cacimbo, até meados de Agosto passado, devido às poeiras, as doenças respiratórias agudas mataram 26 pessoas, das quais três crianças num universo de 2.254 casos no Hospital Provincial do Kwanza-Norte, informou o seu director, Justino Tchekenge.
No ano passado a tuberculose registou 590 casos, disse o director provincial da Saúde, Duarte Varela.
                              
Lentidão da desintegração

A nova “moda” de sepultar retarda a putrefacção dos corpos porque os restos mortais ficam distanciados dos compostos do solo responsáveis pela aceleração, disseram à nossa reportagem os especialistas. Acrescentam que quando os cadáveres são enterrados em covas, na terra, em dois ou três anos só resta cabelo, pele e osso. Na óptica do clínico geral Manuel Varela, o enterro em jazigo subterrâneo pode prolongar para dez anos o período para voltar a inumar alguém numa determinada cova, ao contrário dos cinco que é habitual: “a lentidão faz esgotar rapidamente a lotação dos cemitérios e obriga à procura de outros espaços”.
O também director provincial da Saúde disse que desconhecia a nova forma de enterrar os cadáveres e promete intervir junto dos órgãos competentes para travar esta prática que afecta gravemente a saúde pública.
Esta forma de enterro já foi proibida pelo Governo Provincial do Kwanza-Norte, há cincos anos. A origem deste método de enterrar os mortos, segundo Manuel da Costa Canjungo, 62 anos, e Calisto Bernardo, 68, teve origem no Golungo Alto. Isidro Gourgel, 88 anos, diz que se trata de uma demonstração de poder económico.      
                                                   
Vandalismo nos cemitérios

Os jazigos são consequência do deficiente controlo dos cemitérios pela administração. O cemitério do Catome de Cima (agora o oficial), na periferia de Ndalatando, carece de vedação, o portão está permanentemente aberto e só tem um trabalhador, Orlando António.
O funcionário disse que tem dificuldades em acompanhar o movimento às primeiras horas da manhã, porque primeiro tem que ir assinar ao livro de ponto à Administração Municipal, no centro da cidade, num trajecto diário de nove quilómetros. Quando larga, às 16 horas, e aos fins-de-semana, deixa tudo abandonado.
Sente-se desprotegido quando grupos de jovens invadem o cemitério e ficam a beber e a fumar liamba. Acrescenta que por falta de pessoal, cada um faz a cova onde enterra o seu ente querido, geralmente de forma desordenada e sem cumprir as regras.
As autoridades deviam visitar com regularidade os cemitérios, verificar a higiene e conservação. As covas para adultos devem ter, segundo a lei, dois metros e 15 centímetros de comprimento, 70 centímetros de largura e um metro e trinta de profundidade.
Desde o princípio do corrente ano mais de 100 tumbas foram queimadas na sequência de fogo posto por desconhecidos nas lavras que circundam o cemitério. As chamas atingiram as campas porque o chão estava coberto de capim seco.
 O cemitério de Catome tem capim, latas, garrafas, trapos e muito lixo. Carece de arruamentos, água canalizada, acesso adequado e parque para estacionamento de viaturas. Os carros que entram no cemitério às vezes pisam as campas ao manobrarem ou na tentativa de chegar mais próximo do buraco.
Para Orlando António o mais preocupante é a ausência de numeração nas campas. A sinalização é feita com mandioqueiras, bananeiras, ananaseiros ou flores. Por essa razão é desconhecido o tempo que falta para as exumações. Novos enterros nas actuais covas são por cinco anos, no mínimo.
O jurista Domingos Joaquim disse que nestas condições qualquer um pode erguer sepultura em túmulo alheio, por falta de identificação ou por causa dos enterros sem registo.
Os cemitérios municipais estão encravados no meio das lavras e são frequentados por animais roedores. Há receios de que os enterros sem regras nem registo contaminem as água no riacho Muembege, face à proximidade das campas no cemitério do Sobocoto, localizado numa montanha.

Quitata em extinção e Kipata desactivado

A terra deixou de ser leve aos mortos no informal cemitério da Quitata porque mais de dez hectares foram absorvidos por construções anárquicas. O soba grande de Ndalatando, Zé Lino, disse que a edificação de casas sobre campas começou timidamente em 2005 e agora ganhou “velocidade de cruzeiro”, apesar das sucessivas queixas apresentadas às autoridades.
Por falta de registos ninguém sabe quantos cadáveres estão ali enterrados e há quanto tempo. Mas durante dez anos o chão pode estar contaminado, disse o médico Manuel Duarte Varela.
Há campas encostadas às casas e na Quitata as crianças brincam sobre as campas. Miguel Mário, pedreiro e residente na Quitata, disse que em várias casas o chão do quarto está por cima da campa, os destroços de blocos, pedras ou mosaicos dos túmulos são usados como entulho. 
Enquanto a chuva tarda a chegar, as construções ilegais continuam. Zeca Cazuca e Helena Manuel, desfazem mais de 10 tumbas para construir, pois os adobes já se encontram no local. Compraram o terreno por 25 mil Kwanzas.
O soba Zé Lino disse que quando os familiares dos falecidos reclamam, os infractores respondem em tom arrogante que a terra é do Estado. Está preocupado com a existência de sepulturas com menos de dois metros de profundidade feitas à pressa em tempo de guerra.
Construir por cima de campas desencadeia uma situação de responsabilidade civil e indemnizatória, disse o jurista Domingos Joaquim. Defende que quem violar com intenção um túmulo ou quebrar o respeito devido aos mortos pode sofrer um ano de prisão e multa correspondente.
O primeiro campo santo a ser coberto por construções anárquicas foi o da Posse, em 2005. Se o da Quitata vai desaparecendo, mais de 60 anos depois, os munícipes acham favorável a reabertura do cemitério municipal da Kipata. Desocupar as covas, reabilitar muros, jazigos e casa mortuária são tarefas que se impõem.

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