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Cuanza Norte: Limpeza do Muembeje resgata a originalidade

Marcelo Manuel | Ndalatando

Cerca de três quilómetros do curso normal do rio Muembeje, em Ndalatando, foram desassoreados, no âmbito do projecto que visa o resgate das características originais daquele curso de água, constatou ontem o Jornal de Angola.

Enormes quantidades de lixo lançadas ao rio Muembeje durante anos têm poluido e dificultado o curso das águas
Fotografia: Nilo Mateus | Edições Novembro |Cuanza Norte

Os trabalhos, iniciados em Junho passado, contemplam a remoção de sedimentos, alargamento das beiras, limpeza de passagens hidráulicas, numa extensão de dez quilómetros e, presentemente, decorrem no bairro do Sambizanga, numa altura em que a terra e outros detritos sólidos estão a ser transportados e depositados em locais com ravinas.

A administradora municipal adjunta de Cazengo para o sector Técnico e Infra-estrutura, Helena Pereira, frisou que o desassoreamento do rio Muembeje começou no bairro Embondeiros e termina nas imediações da zona sul da Paróquia São João Baptista da Igreja Católica (Sambizanga).

Quando terminar os trabalhos a nível do rio Muembeje, que nasce na área do Londa (Norte de Ndalatando), rasga o centro da cidade e desagua no rio Lucala (cerca de 25 quilómetros a Sul), Helena Pereira anunciou que decorrer a limpeza do rio Catende.

A administradora municipal adjunta avançou ainda que a conclusão das obras dois rios Muembeje e Catende está prevista para o mês de Dezembro deste e estão orçadas em 109 milhões de kwanzas, enquadrados no PIIM.

Hoje, quando chove e, por causa dos obstáculos existentes no leito, o Catende transborda e arrasta casas e bens diversos. O melhoramento dos referidos rios gera alguma expectativa no seio da população, por se considerar vital para a preservação da biodiversidade fluvial, qualidade das águas desses rios e da drenagem das águas pluviais.

Juliana Bernardo, 30 anos, moradora do bairro Sambizanga, sublinhou que, a par da preservação do sistema ecológico, o desassoreamento vai permitir a redução da proliferação de moscas, mosquitos e de amontoados de lixos, o que, em sua opinião, pode diminuir o paludismo, febre tifoide e outras no seio da população ribeirinha.

Edmundo Joaquim, professor de Geografia, há 15 anos, avançou que a remoção de sedimentos e detritos sólidos evita o mau cheiro, garante vida, virilidade e preservação da biodiversidade. “Para mim, o rio Muembeje é o cartão postal desta cidade, o seu desassoreamento vai salvá-lo da morte lenta em que estava condenado”, disse.

Valor social do desassoreamento

O mestrando em Gestão Am-biental em Ambientes Construídos, António Paulo, disse que os trabalhos de intervenção de desassoreamento na extensão dos riachos e canais em Ndalatando representa um conceito de drenagem hidráulica urbana para o princípio ecológico correcto.

António Paulo sustenta que, para o sucesso desta empreitada, é preciso primeiro que as entidades locais desenvolvam diversas acções de educação ambiental no seio da população que habita as zonas ribeirinhas, no sentido desta adquirir hábitos de convívio saudável com os rios.

O especialista defende, igualmente, a criação de um Plano de Desenvolvimento e Governação Ambiental Urba-no, que incorpore sempre os elementos técnicos de intervenção periódica aos riachos e córregos que cortam o perímetro urbano do Cazengo.

António Paulo acredita que a referida medida pôde mitigar ou atenuar os impactos socioambientais em zonas construídas, mormente no que toca às interferências na drenagem urbana, inundações de moradias assentadas em áreas de riscos, danos humanos e materiais, reprodução de vectores causadores de doenças ao homem, poluição ambiental e das águas.

Auscultação social

O ambientalista sublinhou que os planos de recuperação dos ecossistemas urbanos degradados precisam de ser gizados com o direito à auscultação social, nomeadamente académicos, cidadão comum, especialistas em Ecologia, Arquitectura e Engenharia Civil.

Com esse trabalho de auscultação, António Paulo acredita que se consegue um melhor enquadramento das abordagens nas políticas de desenvolvimento urbano sustentável e de acordo aos principais objectivos do milénio da ONU sobre o habitat.

Salientou, também, a ne-cessidade da criação de zonas com o reflorestamento vegetal nativo e um programa de ma-nutenção e controlo daqueles ecossistemas importantes para a vida do homem. “Depois dos trabalhos de limpeza dos riachos e de valas de drenagem, devem ser plantadas árvores nativas ao longo das suas margens e merecerem um tratamento periódico”, concluiu o ambientalista.

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