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Estado vai deixar de fornecer sementes gratuitas

Manuel Fontoura| Ndalatando

A agricultura constitui a base do desenvolvimento de qualquer sociedade, daí estar entre as principais apostas do Governo angolano, tendo em conta o seu Programa de Erradicação da Fome e da Pobreza.

Francisco Humberto Mesquita
Fotografia: Manuel Fontoura

A agricultura constitui a base do desenvolvimento de qualquer sociedade, daí estar entre as principais apostas do Governo angolano, tendo em conta o seu Programa de Erradicação da Fome e da Pobreza. O Jornal de Angola traz hoje à estampa uma entrevista concedida pelo director provincial do Kwanza-Norte da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Pescas e Ambiente, Fernando Humberto Mesquita, em que o responsável fala da necessidade de se envidar esforços para que a província alcance a auto-suficiência na produção agrícola.

Jornal de Angola - Qual é o nível de produção anual da ­província?

Fernando Mesquita – Anualmente, a produção da mandioca atinge as 400 toneladas. É muita mandioca que dá para alimentar a província e abastecer outras regiões. A qualidade deste produto aqui é realmente boa. Em segundo vêm o feijão e o amendoim. A produção do feijão ainda não atingiu altos níveis, mas estamos com uma boa produção, que dá para, pelo menos, alimentar a população da província. Este produto chega às 10 mil toneladas por ano, enquanto que o amendoim anda à volta das 6 mil toneladas.

JA - Quais são os avanços que o sector agrícola regista, neste momento, na província?

FM
– Desde que começamos a fazer uma intervenção mais directa, no que concerne à preparação de terras, adquirimos mais espaços para cultivar, enquadramos mais famílias nos nossos programas, injectamos mais instrumentos de trabalho, que resultam sempre em maior produção, por isso temos vindo a registar uma subida gradual dos produtos básicos que a nossa população consome, concretamente a mandioca, a ginguba e o feijão. Temos índices bons graças à essa intervenção.
Há três anos, começamos a trabalhar com 500 hectares e, hoje, estamos numa planificação de 5 mil hectares.

JA
- Qual é o número de famílias enquadradas nos programas agrícolas?

FM
- No programa de fomento, enquadramos 6.565 famílias, no Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) são 26.900, enquanto no Instituto de Reintegração Social de Ex-Militares e nas Caritas temos 1.898 famílias, o que dá 35.363 famílias camponesas, correspondendo a 48 por cento do leque, que está à volta de 60 mil famílias camponesas por nós controladas.

JA
- Quais são os apoios que estas famílias têm estado a receber do Governo?

FM
- Os apoios têm sido os mesmos, embora houvesse este ano uma mudança no Programa de Desenvolvimento Rural. As despesas de instrumentos de trabalho, inclusive a própria preparação de terras passou a ter comparticipação dos camponeses, com 30 a 40 por cento dos gastos.
O Estado vai paulatinamente deixar de fornecer as sementes, bem como preparar as terras gratuitamente. Os camponeses terão agora que comprar as sementes e pagar parte da preparação de terras. Obviamente, que eles não estavam habituados a este sistema, é algo novo e estamos a encontrar alguma resistência neste sentido, pois adaptar-se à nova filosofia ganha tempo, a ideia foi sempre tornar o programa auto sustentado, de acordo com a sua concepção.

JA
- Como está a ser vista a questão da reactivação dos campos de arroz no Luinga e Mussabo?

FM
- Quanto ao arroz, nós agora vamos trabalhar com o suporte de um projecto de âmbito central, em parceria com uma companhia chinesa. Eles vão instalar no município do Lucala uma fazenda denominada “Fazenda Complexo Modelo do Arroz”, em que os estudos preliminares estão feitos. Neste momento, aguardam-se os últimos contactos para as questões de financiamento e, assim que estas questões estejam resolvidas, entram em acção.
Uma equipa de chineses esteve aqui o mês passado e vai fazer os primeiros campos de ensaio, de três a quatro hectares, para a plantação.

JA – E a área irrigada do Mucoso (Cambambe)?

FM
- Em relação ao Mucoso, o projecto está em curso. O local está a ser reabilitado para que se possa voltar a cultivar a banana em grande escala. É um projecto que está a ser dirigido pelo próprio Ministério da Agricultura e já deu passos significativos. Espera-se que caso não haja nenhum impedimento, este ano, vamos ter o Mucoso reabilitado e a funcionar. Neste momento, estão a ser feitos, no local, algumas acções de limpeza das valas de drenagem, existe lá uma brigada de mecanização que já começou a limpar os campos e acredito que, ao longo deste ano, até mais tardar em Setembro, altura do início do próximo ano agrícola, tenhamos um Mucoso a produzir, em pelo menos 40 por cento, culturas como feijão, milho e amendoim.

JA- Quanto a madeira?

FM
- Nós temos uma cobertura florestal na ordem dos 26.000 hectares de floresta coberta, dos quais 18.000 com capacidade produtiva, o que significa que nós temos a capacidade de produzir 18.000 metros cúbicos de madeira por ano, no Kwanza-Norte. E, nem sequer estamos a meio disso. Temos o controlo daqueles que pagam as licenças, os que passam nos controlos, através dos livros e títulos de exportação, mas que não passam dos 5000 metros cúbicos. É um número ainda muito irrisório porque é uma actividade que requer grande investimento e que grande parte das pessoas que tentam entrar para esta actividade não possuem capital para tal. Temos nos municípios de Bolongongo, Kikulungo e Golungo-Alto os potenciais empresários florestais.
Os outros vão tirando 100 a 500 metros cúbicos, em períodos de tempos bastante longos. Este sector encontra-se ainda bastante adormecido, pois, a província ainda não possui capacidade industrial.

JA
- Qual tem sido o destino da madeira do Kwanza-Norte?

FM
- Neste momento podemos dizer que toda a produção de madeira da província vai para Luanda, por ser o maior mercado de consumo e onde estão a ser feitas as maiores construções, os grandes centros industriais. Estamos a trabalhar para que tenhamos aqui, na província, pelo menos 10 por cento da produção da madeira e a um preço acessível. 

JA - E quanto ao palmar e a produção de óleo de palma?

FM
– Temos trabalhado apenas com produções familiares, rústicas e artesanais, que apenas sacam o dendém para fazer o óleo de palma, não aproveitam mais nenhum outro produto, como o coconote para fazer o sabão ou o óleo alimentar.
As zonas na província com capacidade de produzir óleo de palma são o município de Cambambe, Golungo-Alto, Ngonguembo e Cazengo. Algum palmar está velho e precisa de ser substituído. A prática ilícita da produção do maruvo está a agravar tudo. A província tem capacidade de produzir muitas quantidades de óleo de palma, mas, por falta de equipamento moderno, tudo fica pelo artesanal.

JA
- O que é necessário para que a província produza hortícolas durante o ano todo?

FM
- O problema das hortícolas é um problema de cultura do produtor e do consumidor. Temos é que incentivar estes agricultores a fazerem investimentos, criar condições para que haja guarda-chuvas (estufas), de maneira que se possa cultivar durante o ano todo. As pessoas aqui consomem habitualmente a mandioca, o feijão e o amendoim. Há uma questão, que se vê desde a era colonial, em que o Norte é para cultivar café, o Sul é para hortícolas e outros tipos de cereais. Este problema existe até hoje na mentalidade dos agricultores.
Por outro lado, está o problema de comercialização. Enquanto no Sul, um campo de tomate de um hectar tira 5 ou 6 toneladas, aqui você saca menos.
Depois está o circuito de comercialização, que não está bem afinado, talvez, agora, com o projecto de instalação de câmaras frigoríficas de conservação haja mais incentivos. Mas, acredito que os agricultores a Sul da província, localizados em Cambambe, fazem horticultura durante todo o ano, aproveitam por ser uma região que chove muito pouco, as terras são muito boas e são banhadas por grandes rios (Kwanza e Lucala) e conseguem praticar esta actividade sem sobressaltos, produzindo beringela, couve, tomate, repolho, milho, banana e tantos outros produtos, na sua maioria vendidos nos mercados de Cassualala e na localidade do quilómetro 34.

JA
- Quais os indicadores da pecuária na província?

FM
– A pecuária é uma actividade que vem se desenvolvendo a meio-gás nestas paragens. Em matéria de efectivos, estamos aí por volta de 10.000 efectivos em toda a província, com realce para Cambambe, com cerca de 24.000 cabeças e mais de 6000 localizadas no Planalto de Camabatela. O problema está na organização dos próprios indivíduos da pecuária, porque para introduzirmos o gado bovino numa determinada área, temos primeiro que criar as condições, ter os parques, o tanque banheiro e as mangas de vacinação.
Publicamos recentemente um regulamento das explorações pecuárias, onde constam requisitos como o que se deve ter para esse exercício, quais os deveres e as obrigações dos serviços veterinários e obrigação e o dever dos criadores. Pensamos que a partir daí nós podemos ter dados mais concretos sobre o efectivo e sobre a real situação zoo-sanitária da província.

Sector do café passa por reestruturação

JA - O que dizer das culturas do café  no Kwanza-Norte?

FM
- O sector do café aqui na província está a passar por um processo de reestruturação, o que faz com que tenhamos a impressão de que o sector está parado. Mas, não está. Obviamente que tivemos um decréscimo na produção, sendo que, em 2008, chegamos a mais de 100 toneladas. Em 2009, devido a alguns problemas de comercialização, atingimos apenas as 90 toneladas. Neste capítulo temos alguns constrangimentos, porque há necessidade de haver compradores e de se estabelecer realmente um preço mais atractivo. Nesta altura, estamos em condições de produzir até cinco mil toneladas. Estamos muito longe da referência que a província sempre teve, nos anos passados, em que atingia a cifra de 120 mil toneladas/ano.
Houve falta de descasques de café, desde o ano passado, e a falta de comparticipação dos cafeicultores. Começamos a distribuir descasques por crédito. Nos dez municípios, temos descasques de café para que eles possam fazer esta operação e obter melhor qualidade do produto, tornando-o comercial e vendido a bom preço. Antes, vendia-se o café cereja (com casca) sem nenhum valor comercial e os preços eram baixos, tudo porque o quilo custava 30 kwanzas.
Com a introdução das máquinas de descasque, acredito que, até Maio, quando arrancarmos com a nova colheita, possamos ter números satisfatórios para a província, na ordem de mais de 100 toneladas.
O problema principal está na organização e falta de quadros, pois, boa parte deles estão já com idade muito avançada e muitos aguardam pela aposentação. Praticamente, já não temos dinamizadores rurais do café, que levavam a assistência técnica ao agricultor familiar, isso, também, tem sido um dos factores que faz com que os níveis de produção sejam muito baixos. Há ainda a falta de um acompanhamento a nível das brigadas técnicas do café nos municípios.

JA
– Consta que há muito café armazenado, por falta de compradores. Como ultrapassar a situação?

FM
- Existe sim. Só não posso ainda avançar as quantidades. Em 2007, lançamos uma campanha, em que se fez uma injecção de capital na província, através da Procafé e de alguns comerciantes, na ordem dos sete milhões de kwanzas e conseguimos recolher muito café. Temos estado a discutir muito nas nossas reuniões a nível da direcção é a problemática das estatísticas por, muitas vezes, não serem fiáveis e nos trazem problemas na hora da planificação e tomada de decisões.

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